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quinta-feira, 4 de junho de 2009

Os outros tempos (crónica instrumentalizada e discriminada)

Quando há dias atrás o nosso lamentável primeiro-ministro falou em instrumentalização sabia muito bem do que estava a falar. Estava, entre outras coisas, a por em prática uma expessão popular. Esta: “chama-lhe puta antes que ela te chame a ti”.
Eu cheguei só agora a perceber o que na realidade é essa coisa de intrumentalização, muito porque não tenho o hábito de ver televisão. À excepção de filmes e de futebol, e este já muito menos, pois limito-me ao meu desalmado Sporting e a uma ou outra vitória de uma equipa que joga de azul-grená e que patrocina a UNICEF, pouco mais vejo e de fugida.
Mas, também há uns dias atrás, assisti às reportagens da campanha eleitoral. Consegui, nitidamente por um acaso, ver a cobertura das várias forças políticas em dois canais. Primeiro num privado. Após o que, num zapping, fui parar à televisão pública, que não sei se é ou não do “ps”, isso teria de perguntar à candidata ao parlamento europeu e à câmara do Porto pelo “ps”, mas não perguntei. E, no canal, chamemos-lhe público, assisti exactamente às mesmas reportagens das mesmas forças políticas.
O ponto alto da reportagem sobre a visita da CDU a uma empresa pública, a EMEF, foi a queixa de uma dirigente sindical que não recebeu aumento devido à sua condição de sindicalista. Vê-se a reacção da candidata Ilda Figueiredo a desafiar o Ministro do Trabalho a inteirar-se da situação pois trata-se de um caso flagrante, e absurdo, acrescento eu, de discriminação.
Na mesma reportagem no canal público além desta parte ter sido, cirurgicamente, estratégicamente, politicamente, cortada, limitaram-se a passar imagens com a voz off do jornalista.
Pronto, no tempo do “Botas” os comunistas nem tinham tempo de antena. Tinham outros tempos. Tempo de perseguição, tempo de tortura, tempo de prisão, tempo de morte.
Os trabalhadores é que, pelos vistos e pelo andar da carruagem, têm os mesmos. Tempo de discriminação, tempo de baixos salários, tempo de trabalho precário, tempo de desemprego, tempo de fome.
E, se se distraírem muito a coisa ainda pode andar mais para trás.

sábado, 2 de maio de 2009

A provocação terá efeitos?

Na imagem , 3 das "alegadas vítimas"
O “ps” colocou novamente em acção a velha estratégia da vitimização ao pormenor. Numa altura em que as “sondagens” dão o PSD muito próximo há que fazer pela vida. Não sei porquê mas já esperava por uma encenação destas. É que já não é a primeira nem a segunda, e a experiência sempre nos ensina qualquer coisa. E ajuda-nos a criar hábitos, não é?
A primeira vez resultou em cheio quando levou um ex-agente da CIA à presidência da república. Outra vez, esta com contornos locais, os figueirenses lembrar-se-ão certamente, quando em 1997 era iminente a vitória de Santana Lopes nas autárquicas, também um dirigente local do “ps” foi parar às urgências queixando-se de um inexistente ataque de forças laranjas. Não resultou.
E desta vez penso ser difícil resultar. Porque penso mesmo ser impossível fazer das pessoas parvas eternamente.
Triste é não se darem conta do ridículo. Mas estas tramóias estão-lhes no sangue, como diria o povinho. Até mesmo entre eles fazem destas coisas, basta lembrarmo-nos do Assis e dos acontecimentos em Matosinhos nas últimas "europeias".
Apetece-me lembrar o que um eminente "socialista" disse-me, ironicamente em 97 de Santana Lopes: "O homem é encartado". E lembrei-me porque eles não ficam nada atrás.
Tem mais aqui e aqui.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

O “polvo” falha de novo

Quando o Provedor de Justiça os comparou aos “Vampiros” do Zeca, já eles faziam lembrar um polvo há muito tempo. Tem a ver com a maneira como exercem o poder. Não fora o caso de eles ainda não dominarem os tribunais e isto parecia-se verdadeiramente com o estado a que isto tinha chegado antes do “25 de Abril”, que este mês se comemora.
Depois da tentativa de acabarem com a “Festa do Avante!”, cuja intenção foi abortada pelo Tribunal de Contas, como aqui demos conta, foi a tentativa já executada de discriminação dos trabalhadores dos CTT que não fossem mansinhos e não lhes pusessem a sua própria situação nas suas mãos. Quer dizer, quem optasse por não defender os seus direitos teria umas regalias a mais, o que me parece ser um bombom envenenado, como é fácil de perceber.
Mas contemos a história: uma história de discriminação salarial, pois numa empresa todos os trabalhadores devem ser aumentados, no caso de haver aumentos. Não foi o que aconteceu nos CTT, onde só foram aumentados aqueles que assinaram o contrato individual de trabalho, subscrito por sindicatos minoritários. Mas há mais, que imaginação não lhes deve faltar. Ofereceram 400 euros a quem o assinasse ou a quem se inscrevesse no sindetelco, o que significa que aceitariam automaticamente o contrato individual de trabalho. O sindetelco, para quem não sabe, é um sindicato amarelo, pertencente à UGT e cuja finalidade não é, certamente, defender os trabalhadores. Resta acrescentar que houve alguns que aceitaram.
Agora diremos que o Tribunal Administrativo de Círculo de Lisboa admitiu a providência cautelar interposta pelo Sindicato Nacional dos Trabalhadores dos Correios e Telecomunicações (SNTCT), por considerar ilegal a publicação oficial da caducidade do Acordo de Empresa de 2006. O Tribunal fixou que, nos termos da lei, quer os serviços competentes (o Ministério) quer os interessados (a administração dos CTT) estão impedidos de pôr em prática, ou continuar a pôr em prática a arbitrariedade em causa.
Outra das diferenças com o antes da data libertadora é que não será preciso outro “25”, pois ainda temos eleições, que estão já aí à porta. Mas que é preciso dar uma varridela, lá isso é, sob pena do polvo arranjar mais tentáculos.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Ainda da manif e também da isenção do jornalismo que temos

Sempre fui daqueles que acreditam que a isenção, quer na História quer no jornalismo, é uma quimera. Lembro-me de um filme, “Debaixo de fogo”, de 1983, cuja acção se passa na Nicarágua, em que o protagonista é um jornalista interpretado por Nick Nolte. Ele sente a necessidade de mentir por uma boa causa, a não continuação da ditadura sanguinária que assola o país. Tem, por isso, de fotografar um comandante da guerrilha como se ele estivesse vivo para que o governo ditatorial não recebesse mais ajudas do império. Assim, ele dava a sua contribuição à luta pela democracia, o que, como jornalista, não é propriamente correcto. Foi o que fez. Sofreu por isso um problema de consciência, pois à luz da isenção terá sido um mau trabalho. Depois de reflectir chegou à conclusão que se o tivesse de o fazer novamente, o faria.
Em 1997 era eu jornalista de um jornal local. Integrei a lista da CDU à Assembleia de Freguesia de S. Julião da Figueira da Foz. Fiz, no entanto, a cobertura jornalística de acções de campanha quer do candidato do PS, Carlos Beja, quer do PSD, Pedro Santana Lopes. Acho, e disse-o no início, a isenção uma quimera. Mas fiz o trabalho e não houve reclamações absolutamente nenhumas. Também, verdade seja dita, escrevi o que vi e o que ouvi. Facílimo. Se quisesse fazer o triste historial da administração do PS durante os vinte anos de câmara, teria escrito um artigo, uma crónica ou coisa parecida, e assinava por baixo. E o mesmo comportamento teria se quisesse falar do que pensava sobre uma hipotética, mas muito plausível, aliás como aconteceu, vitória de Santana Lopes.
Vem isto a propósito da última manifestação da CGTP-IN em Lisboa. Os dados da central apontam para mais de 200 mil trabalhadores. Para um jornalista não é uma informação definitiva, compreendo. Seria contudo muito fácil para um jornal de referência entrar em contacto com a PSP, cujos dados, não sendo infalíveis são certamente muito próximos da realidade, quanto mais não seja devido à experiência que têm nestas coisas.
Ora o “Público” prestou um muito mau serviço à opinião pública, à tal isenção que é quase um paradigma desse tipo de jornalismo, e um muito bom serviço aos seus donos. Diz o jornal, “200 mil pessoas, diz a CGTP-IN”. Noutro local da edição escreve, excelente subterfúgio, “entre 150 mil a 200 mil pessoas”. Claro que há factos subjectivos, mas um número de pessoas presentes num dado local é um facto objectivo, não dá mesmo para nuances de dizer que estiveram entre “x” a y”. Sobretudo quando é do conhecimento de toda a gente a dimensão do acontecimento. Só mesmo por má fé.
Eu estive lá, estou convencido que estiveram mais de 200 mil pessoas, mas nunca escreveria fosse que número fosse sem consultar a PSP.
Mais do que a isenção, importante é escrevermos a verdade que sentimos. Enfim, coisa arredia dos tempos que correm.

terça-feira, 3 de março de 2009

África minha

Os recentes acontecimentos na Guiné-Bissau, não sendo inéditos, lembra-nos que não há recôndito algum em África onde haja paz e sôssego. Não se deve poder dizer ao certo o que lá se passa sem especular. Tanto podem ser potências estrangeiras a manobrar os cordelinhos, e neste caso há a considerar as democracias ocidentais, motivadas por interesses económicos, comerciais ou mesmo porque a Guiné se transformou num entreposto do narcotráfico.
Em Angola, por exemplo, não há hoje guerra. Mas pela simples razão de os seus governantes estarem devidamente domesticados. Temos notícias, recentes, de que é o país africano de língua portuguesa com o pior registo de violação dos direitos humanos. Outras dizem-nos que há uma situação de fome nas províncias do Sul, nomeadamente no Cunene. Estamos a falar de um dos países mais ricos do mundo, onde já morreram mais de uma centena de crianças devido a uma epidemia de “raiva”.
Tudo isto traz-nos à memória que África é um continente adiado desde o assassínio de Patrice Lumumba às mãos das “democracias ocidentais”. Ele, que disse que a independência política não era suficiente para libertar África do seu passado colonial, era também necessário que o continente deixasse de ser controlado pela Europa. Foi o que ditou o seu assassínio, por intermédio dos serviços secretos americanos e europeus. Belgas, neste caso. E em que o amigo dos “socialistas” portugueses, o “democrata” Carlucci não estará impune.
Adiantando alguns números, da ONU, não meus, para acabar com o flagelo da fome bastaria a módica quantia de 3 mil milhões de dólares. Ora, na guerra do Iraque gastaram-se 12 mil milhões até finais de 2008. Gastos por governos “democraticamente” eleitos.
Sabe-se também, e a história comprova-o, aliás Lumumba é um exemplo, um leader africano que queira mesmo lutar pela real independência do seu país é um homem marcado para… morrer.

E, para não dizer que a culpa é só dos outros, no meio de tudo isto há os “leaders” que se põem a jeito, fazem o papel de meninos obedientes e bem comportados, traindo os seus povos, colocando-se às ordens do capitalismo internacional. E assim se explica a situação daquele martirizado continente.
O escritor angolano Manuel dos Santos Lima traduziu brilhantemente tudo isto num dos seus romances “Os anões e os mendigos”, de 1984, que vale a pena reler. E, em África, devia ser obrigatório nas escolas. Porque.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Um código todo xuxa

Entra hoje em vigor mais uma das anomalias do governo “ps”: O famigerado Código de Trabalho, que, pelas noticias que se ouvem, não agrada nem a gregos nem a troianos, que é como quem diz, nem ao patronato nem aos sindicatos.
Claro que nestas coisas alguns queixam-se com, como se costuma dizer, de barriga cheia. É o caso do patronato reaccionário, desculpem o pleonasmo, pois não se conhece dele progressista, como costuma dizer o meu camarada Augusto Alberto, “um patrão é um patrão, seja aqui seja no Japão”.
Queixa-se então o patronato, também é preciso não ter vergonha nenhuma para tal, que vai pagar mais por cada empregado. Mas o Código dá-lhe a solução, permitindo-lhe despedir a torto e a direito, basta-lhe querer. Esta é uma das muitas facetas terríveis do famigerado, ataca a segurança no emprego, aumenta a carga laboral sem contrapartidas, aumenta o trabalho precário, aumenta o desemprego, atacando também a contratação colectiva, um dos direitos fundamentais do trabalho digno numa sociedade civilizada.
Outro dos que “têm” queixas do código é uma agremiação que se intitula central sindical. Falo da UGT, que nada fez contra este código de trabalho ou contra outro qualquer. E mais, o seu secretário-geral é dirigente nacional do “ps”. Mais fez o próprio “ps” contra o código de Bagão Félix, como pode ver aqui, código esse que acaba de agravar. Estamos perante uma comandita de hipócritas.
Hoje é mais um dia negro da história desta “democracia”. Considero que a entrada em vigor deste código de trabalho é um recuo civilizacional.



O cartoon de Fernando Campos, com a devida vénia

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Cada um tem o Freeport que merece (croniqueta de fim-de-semana)

A propósito do caso Freeport (onde alguém estará enterrado até as orelhas, mas como se deve calcular, não haverá culpados, não estivéssemos nós num país onde a culpa morre solteira, pelo menos a partir de um determinado extracto bancário) lembrei-me de um outro caso, na Figueira da Foz que vai ilustrando este texto (as fotos são actuais), e que só por mera coincidência terá algo em comum com o atrás referido.
Conta-se em duas penadas. Aí vai:
O Plano de Urbanização (PU) estava suspenso em duas freguesias, na de Lavos, freguesia rural no sul do concelho, e na zona urbana.
Acontece que o prazo de suspensão caducou na Figueira da Foz, muito provavelmente por distracção, por incompetência, ou mesmo porque os timings das negociatas não incidiram bem na coisa. Certo é que o presidente da edilidade chegou a ser constituído arguido. Mas “pas de problème”, terão pensado os senhores da Confraria do Bitumen. E, por artes mágicas, porque isto de corrupções e xico-espertismo devem ser do reino da ficção, lá desvendaram uma solução. Nem mais: utilizaram a suspensão do PU para a freguesia de Lavos, pois ainda estava vigente. Já a venda daqueles terrenos a privados revestiu-se de contornos um tanto nebulosos.
Apercebendo-se desta tramóia os eleitos da CDU na Figueira da Foz fizeram as démarches que tinham a fazer. Dois dirigentes locais do PCP dirigiram-se ao Ministério Público e ao Tribunal Administrativo de Coimbra onde as suas queixas tiveram uma recepção favorável. O problema terá sido encaminhado como processo administrativo e não como processo-crime e lá seguiu os trâmites normais e legais.
O blogue “Outra Margem” seguiu atentamente o desenrolar desta questão, como pode ver aqui. Não será caso único, há mais atentados em preparação, como o dos antigos terrenos da Alberto Gaspar Lda., ou mesmo o do campo de jogos da Freguesia de S. Pedro, a este último já me referi, aqui e aqui, para não falar noutros apetites que por aí andam vorazes, como os terrenos da Várzea de Tavarede ou o parque desportivo de Buarcos. António Agostinho, no “Outra Margem”, tem chamado a atenção para alguns destes atentados urbanísticos.Bem, continuemos na senda da queixa dos comunistas. Que chegou a Lisboa. Ao Supremo Tribunal Administrativo. Só que chegada aqui, finou-se, fim de viagem. Foi arquivada por falta de "matéria provatória". O que se soube é que a autorização para se passar por cima do PU e utilizar o de Lavos veio directamente do Gabinete do 1º ministro.
A coincidência entre os dois casos será mínima, ou como é suposto, mera coincidência, naturalmente.
Este ano é um ano de eleições autárquicas. A Câmara da Figueira será, como habitualmente, disputada por PS e PSD. Donde se conclui que os figueirenses não terão escolha possível, irão ter mais do mesmo. Depois de anos e anos, desde o “25” até 1997, com os “socialistas”. Depois com os “sociais-democratas”, com a retumbante vitória de Pedro Santana Lopes, até à data actual. E nada mudou. A “coisa” manteve-se perenal. Aliás, é perene.
Até um dia.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Ainda do mérito desportivo

Quando escrevi esta crónica e propus o que propus, considerei a possibilidade de o meu amigo Augusto Alberto levar a mal. Não aconteceu, mas se acontecesse eu continuaria convicto do que assinei e continuaria a assinar o que assinei. Porque, penso, é um caso de justiça.
Mas Augusto Alberto não deixou de reagir e pede-me que publique a sua reacção. Aqui vai ela:

O meu amigo Alexandre foi muito simpático ao destacar a minha longa actividade desportiva. Os meus agradecimentos por ser de quem veio. Contudo, não quero deixar no tempo qualquer dúvida e por isso mesmo é meu desejo acabar aqui com o assunto, por três ordens de razões.
Em primeiro, o que ao longo de cerca de 40 anos fiz, foi feito de plena consciência. O que tinha de ser feito em cada momento, teve de ser feito e nada mais. Nunca foi minha intenção fazer, para que aos 60 anos alguém me viesse agraciar. Assunto arrumado por aqui.
Segunda, tenho do poder autárquico da minha terra má nota e impressão há muitos anos. E agora ao que parece, há razões para ter muito mais, porque alguns não se livram da dúvida moral. Também por aqui assunto fechado.
Terceiro, o poder autárquico desta minha cidade tem dado bastas vezes à actividade física e desportiva, uma atenção pouco mais do que zero. E quando se mostra, muitas das vezes é mais por razões folclóricas do que por uma acção justa e sequente. Nesta matéria sei do que falo. Portanto, por aqui também estamos falados.
É meu desejo como se pode verificar, acabar com uma nota de simpatia para com o meu amigo Chana, pela preocupação, mas também encerrar em definitivo o assunto. Nada demais.




Augusto Alberto

sábado, 8 de novembro de 2008

Reflexões em mim maior (croniqueta de fim-de-semana)

Foi uma semana em cheio.
Depois dos trabalhadores terem sido ameaçados de trucidação, a cereja no topo do bolo. Com a aprovação do famigerado código de trabalho, onde se perdem mais direitos, mais regalias, mais poder de compra, enfim perde-se qualidade de vida, o que quer dizer que há um retrocesso no que às políticas sociais diz respeito. Quer dizer, estamos a andar para trás.
A Obamamania atinge o seu ponto fulcral com a eleição de um afro-americano para a presidência do planeta. Confesso que não entendi nem entendo todo este frenesim que se gerou à volta do evento, até dá a impressão que nunca tivemos um presidente. Ora essa, este já é o quadragésimo qualquer coisa. Só se for por ser “negro”, mas também não estou em crer, a maioria da população da África Negra é negra, e aquilo está no estado em que está, não vislumbro frenesim nenhum para mudar aquilo.
Continuemos. Houve também uma jornada de luta dos estudantes, o que, pelo menos nas escolas que tenho conhecimento passou quase completamente ao lado. Começa-se cedo a enfileirar no rebanho. A carneirada vai engrossando.
Para acabar a semanada, uma manifestação de professores, na capital do ex-império, na qual se espera uns cem mil. Dos chamados titulares é que aparecerão poucos, porque isto de solidariedade tem muito que se lhe diga. O PS conseguiu "homogeneizar" a classe, agora há duas, os titulares e os outros. Já há uns meses se juntou por lá também esse número, o que não faço ideia é o que é que ganharam com isso, a não ser dar nas vistas.
Seria muito mais consequente uma marcação de uma greve para o mesmo dia de luta dos estudantes, mas deve haver aí um qualquer erro de estratégia. Até porque era uma acção pedagógica, ensinavam-se os fedelhos a lutarem pelos seus direitos e a não serem carneirinhos. Nesse dia terão marcado falta aos estudantes que faltaram, agora manifestam o seu descontentamento. É obra sim senhor. Mas estou com a sua luta, não concordo é com estratégias inoperantes.
Lembro-me de um acontecimento, em Itália, na ascensão do Fascismo. Uma reunião da oposição para estudarem a melhor maneira de o derrubar. Um dos mais brilhantes pensadores marxistas, após Lenine, António Gramsci, líder do PCI, levou a proposta do seu partido. A única forma de derrubar o fascismo era uma greve geral. Que não, não podia ser. O PS, o PDC e outros “democratas” não aceitaram. Depois foi o que se viu.
Mas a semana, longa, longa, não acaba sem um Sporting-F. C. Porto.
Alguém disse, não sei quem, que a classe média é a mais estúpida delas todas. Temo que a minha (estou-me a referir a todos os trabalhadores, não sou professor) não se ficará atrás.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Do mérito desportivo e do reconhecimento

Longe de mim por em questão a atribuição a quem quer que seja pela Câmara Municipal da Medalha de Mérito Desportivo e do Diploma de Reconhecimento.
São critérios, que sempre têm um toque de subjectividade perfeitamente normal e que se têm de aceitar e respeitar.
Parece-me, no entanto, e não quero deixar de o dizer, estes critérios muitas vezes pecarem por omissão.
Será este caso, embora muito possivelmente poderei dar a impressão de estar a puxar a brasa à minha sardinha, uma vez que Augusto Alberto é meu amigo pessoal. Mas acontece que dificilmente se poderá negar que é um dos maiores nomes do desporto figueirense nos últimos 30 anos. Os desportistas que com ele dividem esse pódio, segundo o meu critério, que também corre riscos, ainda estão em actividade como atletas.
Augusto Alberto tem um curriculum como desportista, onde se tem de atender a várias facetas, atleta, treinador, organizador e formador de jovens, que arrisco mesmo a considerar inigualável.
Curriculum vasto, seria entediante aqui colocá-lo, mas sempre é melhor recordar alguns factos relevantes, pelo menos entre os que tenho conhecimento. Os lapsos, que os terei certamente, serão por desconhecimento. Aí vai:
Na Associação Naval 1º de Maio reorganizou a secção de Remo, que estava moribunda, e formou o atleta Manuel Parreira, finalista do Campeonato do Mundo Júnior em Barcelona 1991. Dessa reorganização resultou o actual Centro Náutico do Clube. Luciana Alçada, utilizou os melhores meios à data criados no clube e foi também finalista do Campeonato do Mundo também em 1991, na Austrália, em doublle-skull. No Ginásio Clube Figueirense, como resultado da sua actividade recebeu o Diploma de Sócio de Mérito e está ligado, como treinador e atleta ao maior feito do Remo figueirense: a única vitória até à data de um Shell8+ sénior num campeonato nacional, em 115 anos de remo figueirense.
Para além de contar com dezenas de títulos nacionais em todos os escalões, em regatas internacionais os seus atletas somam várias medalhas de ouro, prata e bronze. Pertence aos quadros da Federação Portuguesa de Remo, onde já treinou a selecção A, que dirigiu em dois Campeonatos do Mundo e a Sub-23, que também dirigiu em três Campeonatos do Mundo. De momento é o responsável pelo remo, integrado no Projecto Paraolímpico, Londres’2012. Esteve recentemente nos Jogos Paraolímpicos de Pequim, tendo a sua atleta disputado a final B.
A componente social é importante em Augusto Alberto treinador: um dos factos de que se orgulha é que todos os constituintes de uma das suas tripulações de shell8+, campeã nacional nas classes de formação, Júnior, têm hoje, todos, formação superior.
No atletismo, como atleta não terá tido uma muito grande expressão, mesmo assim foi campeão distrital com a camisola do GR Vilaverdense nos 10.000 metros e nos 30 kms de estrada. Participou na criação da Associação Distrital de Atletismo do Distrito de Nampula e foi membro dos seus primeiros corpos sociais. Representou o Sporting local. Em Nampula, teve como tarefa mais relevante a construção da actual pista de atletismo da cidade de Nampula, inexistente à época. Foi também co-fundador da actual Associação Remo Beira-Litoral.
O pouco que aqui resumi é obra. Não tem nada, mesmo nada a ver com o ganhar um vice-título europeu numa brincadeira universitária de futebol de 5. Só porque não existe desporto universitário. Pelo menos nunca o vi.

domingo, 19 de outubro de 2008

Uma fama que vem de longe (croniqueta de fim-de-semana)

“Tenho observado que os partidos socialistas de quase todos os países, mesmo onde possuem uma força considerável, como na Inglaterra, na Alemanha e na França, têm servido mais os interesses do capitalismo que os do proletariado. São, nos seus congressos e em ocasiões de eleições, isto é, quando se não vai além do domínio da propaganda, pela luta de classes, mas a sua acção no campo das realidades – e temos de convir que é este o aspecto mais significativo – é de reforço ao regime capitalista. Teoricamente, pela luta de classes; praticamente, pelo prolongamento do sistema que se lhe opõe”.

Alexandre Vieira, um dos mais destacados sindicalistas portugueses, falava assim numa entrevista ao “Diário de Lisboa”, em 1933. Por cá, já o Partido Socialista se tinha inevitavelmente extinguido, afogado na sua incompetência para conduzir qualquer processo social, fiel ao seu papel histórico, como diz Vieira, “o prolongamento do sistema que se lhe opõe”, especialistas, como se sabe, em abandonar o seu papel natural de força reivindicativa, e enveredar pelos caminhos fáceis e sinuosos do oportunismo.
E Alexandre Vieira, tipógrafo e jornalista entre outras profissões, embora tenha sido conotado com os anarquistas, estava equidistante dos anarco-sindicalistas e dos comunistas, e, muito mais longe, como será óbvio, dos socialistas-reformistas. Que nunca passaram daquilo que se sabe. O emblemático sindicalista assumiu-se sempre como adepto, e militante, do sindicalismo-revolucionário, diferente daqueles, mas penso que próximo dos comunistas. Com umas tantas nuances, é certo, que não cabem agora aqui.
Mas por cá, o Partido Socialista renasceu. Nas vésperas, cerca de um ano antes, da queda do regime fascista. Caso para se dizer estarmos perante um oportunismo de alto calibre, digamos que mantiveram a ”coerência”. Uma histórica reprise.
As declarações de Vieira, em 1933, há perto de 100 anos, seriam premonitórias não fosse o desempenho dos socialistas ser já conhecido através da História. Que como um partido de poder, do poder capitalista, controlam uma espécie de central sindical. A História repete-se. Deveria, por isso, servir de lição.
A minha solidariedade, portanto, para com os trabalhadores portugueses, que, estou convencido que inadvertidamente, militam em "sindicatos" controlados pelo partido “socialista” e votam neste partido, muitas vezes sem terem consciência de que estão a votar contra os seus próprios interesses. E, inacreditavelmente, a fazerem o jogo do seu próprio inimigo de classe.

sábado, 11 de outubro de 2008

Há inúteis e inúteis. Depende da perspectiva.

Embora nem sempre sejam todos iguais, temos de convir que há sempre uns mais iguais que outros. Enfim. Temos é de concordar que os, bem... aqueles que Sepúlveda chama de intelectuais orgânicos do neo-liberalismo, são mesmo muitissimo mais iguais que outros.
Mas leia esta carta até ao fim. Vale a pena, não é seca nenhuma. Porque muito bem escrita.
À leitura, portanto...


É do conhecimento público que o senhor Miguel de Sousa Tavares considerou
'os professores os inúteis mais bem pagos deste país.' Espantar-me-ia uma
afirmação tão generalista e imoral, não conhecesse já outras afirmações que
não diferem muito desta, quer na forma, quer na índole. Não lhe parece que
há inúteis, que fazem coisas inúteis e escrevem coisas inúteis, que são
pagos a peso de ouro? Não lhe parece que deveria ter dirigido as suas
aberrações a gente que, neste deprimente país, tem mais do que uma sinecura
e assim enche os bolsos? Não será esse o seu caso? O que escreveu é um
atentado à cultura portuguesa, à educação e aos seus intervenientes, alunos
e professores. Alunos e professores de ontem e de hoje, porque eu já fui
aluna, logo de 'inúteis', como o senhor também terá sido. Ou pensa hoje de
forma diferente para estar de acordo com o sistema?
O senhor tem filhos? - a minha ignorância a este respeito deve-se ao facto
de não ser muito dada a ler revistas cor-de-rosa. Se os tem, e se estudam,
teve, por acaso, a frontalidade de encarar os seus professores e dizer-lhes
que 'são os inúteis mais bem pagos do país.'? Não me parece... Estudam os
seus filhos em escolas públicas ou privadas? É que a coisa muda de figura!
Há escolas privadas onde se pagam substancialmente as notas dos alunos, que
os professores 'inúteis' são obrigados a atribuir. A alarvidade que
escreveu, além de ser insultuosa, revela muita ignorância em relação à
educação e ao ensino. E, quem é ignorante, não deve julgar sem conhecimento
de causa. Sei que é escritor, porém nunca li qualquer livro seu, por isso
não emito julgamentos sobre aquilo que desconheço. Entende ou quer que a
professora explique de novo?
Sou professora de Português com imenso prazer. Oxalá nunca nenhuma das suas
obras venha a integrar os programas da disciplina, pois acredito que nenhum
dos 'inúteis' a que se referiu a leccionasse com prazer. Com prazer e
paixão tenho leccionado, ao longo dos meus vinte e sete anos de serviço, a
obra de sua mãe, Sophia de Mello Breyner Andersen, que reverencio. O senhor
é a prova inequívoca que nem sempre uma sã e bela árvore dá são e belo
fruto. Tenho dificuldade em interiorizar que tenha sido ela quem o ensinou
a escrever. A sua ilustre mãe era uma humanista convicta. Que pena não ter
interiorizado essa lição! A lição do humanismo que não julga sem provas! Já
visitou, por acaso, alguma escola pública? Já se deu ao trabalho de ler,
com atenção, o documento sobre a avaliação dos professores? Não, claro que
não. É mais cómodo fazer afirmações bombásticas, que agitem, no mau
sentido, a opinião pública, para assim se auto-publicitar.
Sei que, num jornal desportivo, escreve, de vez em quando, umas crónicas e
que defende muito bem o seu clube. Alguma vez lhe ocorreu, quando o seu
clube perde, com clubes da terceira divisão, escrever que 'os jogadores de
futebol são os inúteis mais bem pagos do país.'?
Alguma vez lhe ocorreu
escrever que há dirigentes desportivos que 'são os inúteis' mais protegidos
do país? Presumo que não, e não tenho qualquer dúvida de que deve entender
mais de futebol do que de Educação. Alguma vez lhe ocorreu escrever que os
advogados 'são os inúteis mais bem pagos do país'? Ou os políticos? Não,
acredito que não, embora também não tenha dúvidas de que deve estar mais
familiarizado com essas áreas. Não tenho nada contra os jogadores de
futebol, nada contra os dirigentes desportivos, nada contra os advogados.
Porque não são eles que me impedem de exercer, com dignidade, a minha
profissão. Tenho sim contra os políticos arrogantes, prepotentes, desumanos
e inúteis, que querem fazer da educação o caixote do (falso) sucesso para
posterior envio para a Europa e para o mundo. Tenho contra
pseudo-jornalistas, como o senhor, que são, juntamente com os políticos,
'os inúteis mais bem pagos do país', que se arvoram em salvadores da
pátria, quando o que lhes interessa é o seu próprio umbigo.
Assim sendo, sr. Miguel de Sousa Tavares, informe-se, que a informaçãozinha
é bem necessária antes de 'escrevinhar' alarvices sobre quem dá a este
país, além de grandes lições nas aulas, a alunos que são a razão de ser do
professor, lições de democracia ao país. Mas o senhor não entende! Para si,
democracia deve ser estar do lado de quem convém.
Por isso, não posso deixar de lhe transmitir uma mensagem com que termina
um texto da sua sábia mãe: 'Perdoai-lhes, Senhor, Porque eles sabem o que fazem.'



Ana Maria Gomes
Escola Secundária de Barcelos



terça-feira, 7 de outubro de 2008

A fálica posição da Cunha


A cunha é um hábito já enraizado na sociedade portuguesa há longo tempo. Não só na sociedade portuguesa, não é de maneira nenhuma um exclusivo nosso, não sejamos mais papistas que o papa. Utilizada com sucesso, e desmedidamente, pelos socialistas, quase diríamos ter-se tornado parte do seu próprio programa, tão afeitos à sua prática, tornou-se uma moda que, pelos vistos, não indigna ninguém.
Utilizada para pagar favores a quem presta “valiosos” serviços ao partido socialista é a principal imagem de marca da forma como eles exercem o poder. Ela, a cunha, é atribuída quer como reconhecimento final ou mesmo como meio para conseguirem objectivos outros. Vai variando, conforme os interesses do momento.
Como alguém referiu a possibilidade de se erigir um monumento a tão “garbosa e democrática” figura, o artista Fernando Campos deu aqui uma sugestão.
Não sendo artista, mas embalado pelo facto de falar com muitos deles, avancei aqui com outra. Outra sugestão, bem entendidos. Muito modesta, menos elaborada, estereotipada, mas metafórica quanto baste. Claro que os objectos da base são arredondados e no meu projecto aparecem quadrados. Apenas respeitei os princípios biológicos, dando um toque realista à coisa, pois um deles aparece maior que o outro. Só que, no real, eles vão alternando no tamanho, tudo devido á alternância instituída, sem qualquer alternativa, talqualmente uma lei universal. O que me criará dificuldades acrescidas na execução do projecto. Mas pronto, parafraseando a raposa, também não sou artista.
Quanto ao material usado também ainda não tenho uma ideia concreta.
Sabe-se é de “boys” colocados, e a martelo, ainda no governo do “socialista” Guterres, que, apanhados por uma lei deste socretino governo, talvez inadvertida por ter esquecido os correligionários, tiveram que deixar o poleiro, melhor dizendo, o tacho.
Chegou-me ao conhecimento que um deles vai processar o Estado. Quer dizer, o PS põe, dispõe, faz, desfaz, amanha-se, desamanha-se. Depois o contribuinte, o erário público, acarreta com as responsabilidades?
Isto é que vai uma democracia…

sábado, 27 de setembro de 2008

Quando a história é madrasta… (croniqueta de fim-de-semana)

Terá sido em fins de 1998, ou durante o ano seguinte, a última grande entrevista de Álvaro Cunhal a uma cadeia de televisão. A dado passo, e no seguimento da conversa, Cunhal diz que está a concluir um livro, que sairá para breve. A jornalista pergunta se é outro livro de Manuel Tiago, ao que Cunhal responde que esse só escreve ficção e este livro é sobre questões concretas.
O livro chama-se “A verdade e a mentira na Revolução de Abril” (a contra-revolução confessa-se).
Constitui este livro, inegavelmente, uma ferramenta importante para os historiadores que se queiram debruçar sobre aquela época. Sempre pensei, quando a obra deu à estampa que Cunhal iria ser desmentido, ou contraditado. Não foi, nem uma coisa nem outra. Fazê-lo seria mexer no que não queriam. Então a melhor maneira de passarem despercebidos os protagonistas da história seria silenciar a obra. Por isso não teve qualquer destaque, qualquer repercussão, na imprensa, escrita ou falada.
E não dizia mais do que aquilo que toda a gente sabia. Exceptuando pormenores. Alguns deliciosos. Soares reunia-se, juntamente com Manuel Alegre, o tal que gosta de dizer que é de Esquerda, com Carlucci. Com o patrão. Um assassino encartado. Com uma grande folha de serviços. Era “secretário político” do embaixador dos Estados Unidos quando Lumumba foi assassinado, ajudou Tchombé e Mobotu no Zaire, Lacerda no Brasil, e esteve no Chile, no golpe de 11 de Setembro. Em Zanzibar é que deu nas vistas, tendo sido, por isso, expulso. Esta obra tem uma particularidade. O histórico comunista corrobora as suas afirmações com declarações dos próprios. Muitas delas em entrevistas, a ufanarem-se como agentes da História. Não dá margem à mentira ou à especulação.
Agora que alguns documentos da CIA foram desclassificados o tema tem agora destaque na imprensa. E ganha actualidade. E para alguns, incrédulos, até ganha mais credibilidade.
Transcrevo de seguida uma passagem dessa obra de Álvaro Cunhal:
Em relação ao 25 de Novembro, revelaram-se muitas verdades nas confissões feitas pelos protagonistas vinte anos mais tarde.
No dia do golpe, antes de partir para o Porto, Mário Soares, como atrás referimos, teve um encontro com o Ministro da Grã-Bretanha onde este lhe prometeu apoio, por intermédio do Intelligence Service.
Pode perguntar-se, que têm a ver com a CIA os serviços de espionagem referidos nesse
encontro?
A resposta encontra-se numa observação de Rui Mateus relativa ao papel da “estratégia da CIA”. Callaghan, diz Rui Mateus, “optara também pela tese da CIA” e disponibilizou “a cooperação dos seus serviços secretos com os seus homólogos americanos”. Carlucci, diz Mateus, “é um dos heróis do 25 de Novembro” (O Diabo, 19-11-1996). Lembre-se que em princípios de Novembro Carlucci visitou mais de uma vez o Norte do país, encontrando-se no Porto, Viseu, Vila Real, Chaves e Braga com bispos, governadores civis e presidentes de câmaras. E se não se deslocou a Viana do Castelo foi porque os trabalhadores se opuseram à projectada visita aos estaleiros e, face à tensão existente, Carlucci desistiu.
Tomem-se as informações sobre as relações e cumplicidades. Mas não se afirme que Carlucci foi “um dos heróis do 25 de Novembro”. Nem ele, nem Soares. Porque um e outro optaram pelo plano da ida para o norte e de desencadear a ofensiva militar para esmagar a “Comuna de Lisboa”. E esse plano falhou. Outra importante intervenção da CIA desenvolveu-se na infiltração no movimento sindical, visando a sua divisão e desagragação.
Quando Soares visitou os Estados Unidos, em Setembro de 1975, encontrou-se com Georges Meany, o patrão da AFL-CIO. É o próprio Soares que conta: “Meany encorajou-me e, com o apoio concreto do sindicalista Brown, que conhecia bem as questões europeias, criámos um esquema de cooperação que, mais tarde levaria à formação da UGT”. (Maria João Avilez, Soares. Ditadura e Revolução, ed. Cit, p.353).
Preciosa confissão. Porque Irving Brown era de há muito conhecido, precisamente na Europa, por actividades divisionistas do movimento sindical e era conhecido, não tanto por ser um sindicalista norte-americano, mas por ser um conhecido agente da CIA, qualidade além do mais testemunhada pelo antigo dirigente da CIA Thomas Braden.”

E é assim. O velho comandante disse uma vez que o poderiam condenar. Que pouco importava. A História absolvê-lo-ia. A Soares ninguém o condena. Mas, também, diga-se em abono da verdade, nem a História o absolverá.
Triste fado. "Miguel de Vasconcelos" revisitado.


Adenda: o cartoon é da autoria do artista Fernando Campos, e foi publicado aqui e aqui.

domingo, 14 de setembro de 2008

Bravo, Chavez (croniqueta de fim-de-semana)



“Váyanse al carajo, yanquis de mierda, que aqui hay un pueblo digno”

Foi sempre assim. Qualquer tentativa dos povos se tornarem senhores dos seus próprios destinos é cortada ou por golpes de estado ou por guerras civis. O capitalismo internacional liderado pelos EUA e acolitado por muitos outros pretensos democratas não deixa as coisas por menos.
Lembremo-nos da Espanha, em 1936, tinha a Esquerda vencido as eleições. Do Brasil, em 1964, quando o governo de então se preparava para iniciar uma política de reforma agrária, foi derrubado e instituída uma feroz ditadura militar. Do Chile, depois de não conseguirem impedir que o governo democraticamente eleito tomasse posse, em 1970, aconteceu o sangrento golpe de estado, em 1973 e a não menos sangrenta ditadura do General Pinochet. Já em 1975, em Portugal, a Esquerda esteve perto do poder e o que se viu? Redes bombistas a operarem magnífica e “democraticamente”, além de boicotes quer à reforma agrária quer a tudo o que mexesse para mudar o estado das coisas que já caíam de podres. E qual é o país que temos? Claro, o que os grandes senhores querem.
Os exemplos são muitos, os que demonstram a ingerência do capitalismo internacional nos países onde não dominam os respectivos governos. Do anacrónico boicote ao povo cubano. Das tentativas de derrubar Chavez, através de um referendo a meio do mandato, de uma tentativa de golpe de estado, de uma greve geral que demorou meses, claro que bem pagas aos grevistas, pois aqui e hoje, num país democrático como o nosso as greves não atingem percentagens que façam os seus objectivos serem atingidos de imediato.
São tantos os exemplos que não há país da América Latina que não tenha para contar. Desta vez é o governo de Evo Morales que está em causa, na Bolívia.
A solidariedade para com a nação boliviana é um imperativo de todos os democratas.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Outra vez o Cabedelo


Os terrenos onde estão situadas as instalações desportivas do Desportivo Cova-Gala são muito apetecíveis. Sobre as tramóias que se estavam a preparar já por duas vezes me referi, aqui e aqui.
Não consegui saber quais os patos-bravos que estariam, na sombra, a controlar o processo. Deduzia, claro, mas não chega. Sabe-se, por evidência demasiada, quais os “testas de ferro”. Mas depois de ler este post não restará quaisquer dúvidas. É que o PS, na Câmara, primou com 3 abstenções (dava muito nas vistas votar a favor) a submissão do assunto à Assembleia Municipal e, nesta, a autorização para a alienação em hasta pública dos terrenos que se situam “em cima de duna primária e secundária” teve esta votação: Votos a favor – 20 do PPD, 11 do PS e de 2 independentes; votos contra – os dois da CDU, 1 do PS e um independente.
Acontece que um parecer do Ministério do Ambiente, do Ordenamento do Território e do Desenvolvimento Regional, através do Instituto da Água, considera “que deverão os terrenos em causa manter-se livres de qualquer construção”.
O que não percebo é o papel que os “socialistas” teimam em representar, o de virgens ofendidas. Depois de mais de 16 anos à frente da Câmara, que foi o que se viu, aparecem na oposição como os donos da verdade e, depois, foi a votação que se viu ou as votações que se vão vendo.

domingo, 31 de agosto de 2008

Pequim’08: em jeito de balanço (croniqueta de fim-de-semana)

A depressão provocada por deficit medalhístico que inundou o país, atenuada com a vitória de Nelson Évora, foi extemporânea.
O único facto negativo desta oriental odisseia foi protagonizado pelo presidente do COP. Primeiro, ao estabelecer um objectivo quer no número de medalhas quer na pontuação a obter; segundo, ao dizer que se ia embora num momento em que as coisas ficaram “pretas”; e terceiro, que poderia ficar, quando Évora saltou para o Ouro e transformou, supostamente, esta edição numa das melhores de sempre do olimpismo português.
Não se poderá considerar negativa a actuação dos atletas. Claro que houve rendimentos abaixo do esperado, o que acaba sempre por ser uma situação normal, os homens não são máquinas. Perdemos até uma medalha que ninguém estava à espera, a de Naide Gomes. Uma perda acidental, mas são imponderáveis inerentes ao próprio desporto, e não é por isso que ela não continua a ser a melhor do mundo. Tivesse um dos saltos não ter sido nulo e ela poderia, com propriedade, parafrasear e fazer dela as palavras do grande Ali: “sou a mais bonita e a melhor saltadora do mundo”. Não pôde, mas como diz o povo, e o povo tem sempre razão, “há mais marés que marinheiros”.
Obikuelu fez os possíveis. Claro que estávamos à espera, pelo menos, da sua presença na final. Percebemos agora que as suas declarações, demasiado optimistas, não tinham outro objectivo senão aumentar os próprios índices de confiança, pois ele sentia estar perante uma tarefa hérculea. Não aconteceu, não se pode ganhar sempre. Apesar de tudo, devemos estar agradecidos ao atleta. Por muito.

A prova de Jessica Augusto deu a entender que, não fora o acidente que a afastou da final, teria lutado por uma posição entre as oito primeiras.
Também esperávamos medalhas no Judo, modalidade que em Portugal atingiu já um nível internacional bastante aceitável. Assim como na Vela. Não aconteceu, não foi por incompetência dos atletas, foi pelos imponderáveis do próprio desporto. Entre outras coisas.
Na Natação, desporto onde não temos grandes esperanças, 4 dos oito nadadores presentes bateram 5 records nacionais, o que só por si torna, atrever-me-ia a escrever, excelente a participação.
A obtenção, no total, de um primeiro, um segundo, um quarto, 2 sétimos, 4 oitavos, 3 nonos ou 2 décimos lugares pode ser considerado um bom desempenho num país que não tem cultura desportiva. O que existe nem sequer é uma cultura futeboleira, é mais uma cultura clubístico-futeboleira. Porque a grande maioria nem sequer gosta de futebol, gosta-se mais do Benfica, do Sporting ou do Porto. Somos um país onde existem 3 jornais diários supostamente desportivos, mas que as suas páginas são dedicadas, acima dos 90%, ao pontapé no coiro. E este não esteve em Pequim. E um país onde não existe, por exemplo, desporto escolar.
Veja-se a capa de um jornal no dia seguinte à medalha de ouro de Évora: a manchete foi dedicada a um futebolista estrangeiro que apenas assinara por um clube português, não fizera qualquer jogo e nem sequer os portugueses o conhecem. Jogou ontem, e não o vimos fazer nada de especial que qualquer jovem futebolista português não fizesse. É triste. Lembro-me que quando Naide ultrapassou pela primeira vez os 7 metros, teve direito a uma pequena chamada lateral, a considerar um feito histórico. Então se era histórico porque não lhe foi dada a manchete?
Acontece que o futebol tem um efeito eucalipto. Não está sozinho neste efeito, há outras modalidades cujas ligas se disputam maioritariamente por jogadores estrangeiros. As condições que têm, bem como o campo de recrutamento, não são comparáveis às condições de outros, diminuindo-os. Vejamos os estádios novos que se fizeram, os estádios que existem, comparemos o número com as pistas de atletismo que por aí não há.
A conclusão que se pode tirar é que os Lopes, os Mamedes, as Rosas, as Auroras, as Fernandas, as Vanessas, as Machados, os Évoras, as Naides, ou outros, aparecem por geração espontânea e não por via de políticas correctas para um desporto que se queira competitivo.
Exigir medalhas? Estabelecer fasquias? É um absurdo, a menos que se mudem as mentalidades. Começando pela imprensa desportiva, que poderia começar a deixar de ser ridícula. Já era uma grande ajuda. E continuando com a saída do presidente do COP. E, já agora, a nomeação de um ministro da educação a sério também dava um grande jeito.
Para não falar no jeito que dava, não só ao desporto, um governo sério e a sério.

sábado, 26 de julho de 2008

Obama, o iluminado (croniqueta de fim-de-semana)


Para além das tretas do costume, aldrabices, contradições, demagogias, e outras coisas que tais, com o discurso a falar ao sentimento, o candidato Obama conseguiu, pelo menos aparentemente, trazer algo de novo.
Mas as tretas não passaram do “dejá vu”, como aquelas tiradas de que o caminho é derrubar muros ou o objectivo de um mundo sem armas nucleares. Como se o mundo não soubesse que foram eles os únicos que as usaram.
As contradições aparecem logo a seguir. Que a Europa, coisa e tal, tal e coisa, deve-se envolver nas guerras de agressão que os States decidam fazer. Porque eles, sozinhos, já não conseguem resolver os problemas que eles próprios criaram, ou vão criando.
De novo, de novo, surge o facto de Obama ir fazendo comícios por tudo quanto é sítio fora dos Estados Unidos. Tudo, também não é bem assim. Na América Latina, à excepção da Colômbia, será algo difícil.
Facto esse que me trouxe à memória a teoria de Frank Zappa. Aquela de que todos os cidadãos do mundo deveriam ter direito a votar nas eleições americanas, uma vez que os Estados Unidos se imiscuem em todos os países que lhes apetece, consoante os seus próprios interesses, e praticam a ingerência nos seus governos. E não é propriamente democracia, paz ou decência que os américas têm para exportar. Até agora nunca fomos capazes de as vislumbrar.
Quando me for concedido o direito de votar, votarei em branco. Mas apesar de não dar o voto a Obama, não quero deixar de lhe dedicar esta canção.
Aí vai:



domingo, 6 de julho de 2008

Ingrid e as FARC


Pelo aspecto demonstrado, denunciando estar em boas condições físicas e mentais após 6 anos de cativeiro, não me parece que Ingrid Betancourt tivesse sido muito mal tratada pelos “terroristas” das FARC. Sente-se muito bem e feliz, palavras da senhora.
Mas folgo saber, e regozijo-me, pelo facto dela ter chorado durante os anos de cativeiro e agora só chorar lágrimas de alegria. E, mais, também fico feliz por ela ter encontrado na selva como animais mais perigosos os homens que andavam armados. Isto é obra, numa selva cuja fauna se compõe de pumas, onças ou crocodilos.
Porque, raptada durante uns anos ela teve sempre a esperança, ou mesmo quase certeza, de um dia ser libertada.
A esperança que teve e as lágrimas que derramou, foram coisa que nunca tiveram nem derramaram, nem têm nem derramam, os sindicalistas, os comunistas, ou quem quer que seja que se oponha ao regime do terrorista, narcotraficante e lacaio Uribe, e que foram ou são torturados e assassinados. Só em 2006 foram 144 sindicalistas assassinados.
Esses nunca terão hipótese de ver como bichos mais perigosos homens que andam armados. Mesmo os que estão nas prisões não têm a esperança de serem libertados.

domingo, 29 de junho de 2008

Arriverdeci, Scolari (croniqueta de fim-de-semana)

Muito se tem falado, e escrito, da passagem de Scolari pela selecção portuguesa. Ele conseguiu ganhar quer admiradores quer detractores, o que, em boa verdade, atesta que não passou indiferente.
Mas terá acrescentado algo de muito positivo ao ponto de se considerar a melhor fase de sempre da equipa das quinas? Analisando os resultados, penso que não.
Nos dois campeonatos da Europa logo anteriores à sua vinda convenhamos que os resultados foram idênticos. O treinador campeão do mundo conseguiu não vencer uma final, em casa, frente a uma equipa de segundo plano, depois de ter feito o mais difícil, isto é, chegar ao derradeiro jogo. E, possivelmente, se lá chegou foi muito devido ao factor casa, pois noutras circunstâncias o golo anulado à Inglaterra nunca o teria sido. Comparando, no Euro anterior, em 2000, Portugal foi eliminado na meia-final num jogo em que a vitória poderia ter pendido para qualquer dos lados, com a nuance do adversário ser o campeão do mundo em título e se ter consagrado vencedor depois de, na final, conseguir vulgarizar e humilhar os sempre difíceis italianos. Claro que tinham uma equipa de sonho.
Este ano Portugal ficou pelos quartos-de-final, após ter sido batido pelos gélidos alemães, muito mais por culpa própria do que pelo talento e mérito da mannschaft. Em 1996 também deu quartos-de-final, com o inesquecível chapéu de Poborski. Portanto, resultados idênticos, só que antes não havia os melhores jogadores do mundo nem a equipa mais cara.
Pronto, está bem, ficamos em quarto lugar num mundial. Mas também já tínhamos um 3º, conseguido no país da equipa vencedora e depois de incidentes adversos, como se sabe. Em 1966 o certame foi feito à medida para dar a vitória aos organizadores. Aliás penso que é o único troféu internacional que eles têm.
Agora, de positivo Scolari trouxe uma maior proximidade dos adeptos à selecção, tornou-a mais mediática. Trouxe aquela novidade, o burlesco folclore das bandeirinhas espalhadas por tudo o que é sítio, o que teve, digamos em abono da verdade, um certo peso na economia, pois nunca em tempo algum se houvera comercializado tanto pano, muitos dos quais vinham com pagodes em vez de castelos. A ideia original das bandeirinhas nem foi do treinador brasileiro, foi do professor das homilias dominicais.
Acontece que este mediatismo todo, esta importância desmesurada atribuída aos eleitos, terá provocado resultados nefastos. Estoirou-lhes com o ego, tanto que a preocupação de alguns deles, a julgar pelas notícias diárias nos jornais e televisões, era arrasar os contratos que tinham assinado, penso que em consciência, com as suas equipas para partir para outras com contratos do outro mundo, fabulosos. Iam fazendo pela vidinha, o que é incompatível com a representação de uma selecção. Mas Scolari também fez. Pela sua vidinha e pela vidinha do seu novo patrão. Viu-se que Bosingwa não estava lá, mas jogou. Sabe-se que Ferreira não estava rotinado a lateral esquerdo, mas esteve lá. Ricardo irá para o Chelsea? Isso já não interessa.
Porque sempre julguei, e sempre tive essa convicção, que representar uma selecção era um objectivo por si só. É o que se passa nas outras selecções, seja de futebol seja de outras modalidades, estou a lembrar-me do seleccionado de rugby, os Lobos. Os quais não tivemos oportunidade de ver em canal aberto.
Considero a selecção portuguesa uma das mais fortes do mundo, pelo menos tecnicamente. Evidente, nem sequer treinador de bancada sou. Mas que faltou empenho onde sobraram preocupações, será inegável. Apesar dos dois golos marcados à Alemanha. Também os turcos os marcaram, com uma equipa de recurso. Também os croatas marcaram, e ganharam.
César Menotti, campeão do mundo pela Argentina em 1978, viu assim a equipa portuguesa: “Este Portugal joga como lhe sai. Não se trata de tentar programar a acção, que a organização seja concebida para obedecer a uma programação, mas ao menos utilizar uma certa estratégia para entender o jogo. Por momentos passam a bola uns para os outros sem saber porquê e, por momentos, com superioridade numérica, rematam à baliza de posições insólitas ou lateralizam e cruzam para quem quer que seja. Assim, tudo é mais difícil”.
Venha daí um seleccionador português, já.