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terça-feira, 28 de outubro de 2008

Lá vai poema....

POEMA da 'MENTE'

Há um primeiro-ministro que mente,
Mente de corpo e alma, completamente.
E mente de maneira tão pungente
Que a gente acha que ele, mente sinceramente,
Mas que mente, sobretudo, impunemente...
Indecentemente.
E mente tão nacionalmente,
Que acha que mentindo história afora,
Nos vai enganar eternamente.


(recebido por e-mail)

sábado, 20 de setembro de 2008

Sindicatos e sindicatos


No post anterior, um comentário de um anónimo, muito possivelmente o neo-liberal de serviço nestas coisas, dizia que o famigerado Código do Trabalho do PS, que agrava o anterior, da autoria de Bagão Felix, (agrava quer dizer que os trabalhadores perdem muitos mais direitos) tem o apoio de vários sindicatos. Claro que é verdade, uma verdade de La Pallice. Porque seria o paradoxo dos paradoxos vermos sindicatos a defender a perda de direitos dos trabalhadores.
Agora chamar sindicatos a um grupelho liderado por um dirigente do partido neo-liberal que está no governo será um pouco esticar a corda.
Mas pronto, está bem. Um homem genial, já há um bom par de anos, definiu genialmente aquela corja. Ora leiam:
As mãos do cartaz

São mãos apertadas
Cruzadas
Tratadas
Gravadas
Na grelha.
São mãos bajulantes
Pedantes
Tratantes
São mãos de Gonelha.
São mãos de verniz
De gente feliz
Que pousa pra telas.
São mãos de água e sal
São mãos de cristal
São mãos amarelas.
São mãos de pecebe
De quem nunca teve
Canseiras nem lidas.
São mãos indolentes
São mãos repelentes
São mãos corrompidas.
São mãos que recebem
Que esmolam
Que pedem
Favores do patrão.
São mãos ordinárias
De chulos de párias
Do povo é que não.
São mãos de labregos
São mãos de carrego
De jóias brilhantes.
São mãos de vadio
De gente sem brio
São mãos de moinantes.
São mãos de perfume
São lepra são estrume
Do pão da intriga.
São mãos de arrivistas
Tartufos golpistas
De faca na liga.
São mãos desenhadas
Limpinhas peladas
Limadas sem dor.
São mãos ascorosas
Cheirosas vaidosas
São mãos de estupor.
São mãos de melaço
De por ao regaço
Na hora do chá.
São mãos de canalha
São mãos de navalha
Como outras não há.
São mãos de algodão
Veludo aldrabão
Tecido incapaz.
São mãos da traição
E da corrupção
As mãos do cartaz.

sábado, 16 de agosto de 2008

Poema

Kinaxixi

Gostava de estar sentado
num banco do Kinaxixi
às seis horas duma tarde muito quente
e ficar…

Alguém viria
talvez sentar-se
sentar-se ao meu lado

E veria as faces negras da gente
a subir a calçada
vagarosamente
exprimindo ausência no kimbundu mestiço
das conversas

Veria os passos fatigados
dos servos de pais também servos
buscando aqui amor ali glória
além uma embriaguez em cada álcool

Nem felicidade nem ódio

Depois do sol posto
acenderiam as luzes
e eu
iria sem rumo
a pensar que a nossa vida é simplesmente afinal
demasiado simples
para quem está cansado e precisa de marchar.


Agostinho Neto (1950, in "Sagrada Esperança")

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Um poema de Joaquim Namorado

PROMETEU


Abafai meus gritos com mordaças,
maior será a minha ânsia de gritá-los!

Amarrai meus pulsos com grilhões,
maior será a minha ânsia de quebrá-los!

Rasgai a minha carne!
Triturai os meus ossos!

O meu sangue será minha bandeira
e meus ossos o cimento duma outra humanidade.

Que aqui ninguém se entrega
- isto é vencer ou morrer -
é na vida que se perde
que há mais ânsia de viver!

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Harold Pinter (II) - 4 poemas de guerra

Deus abençoe a América

Lá vão eles outra vez,
Os Ianques e as suas blindadas paradas
Entoando as suas baladas de alegria
A galope pelo vasto mundo
Louvando o Deus da América.

As sarjetas estão entupidas de mortos
Dos que não puderam alistar-se
Dos outros que se recusam a cantar
Dos que estão a perder a voz
Dos que esqueceram a música.

Os cavaleiros têm chicotes que ferem.
A tua cabeça rola para a areia
A tua cabeça é uma poça no lixo
A tua cabeça é uma nódoa no pó
Os teus olhos apagaram-se e o teu nariz
Fareja apenas o fedor dos mortos
E todo o ar morto está vivo
Com o cheiro do Deus da América.

Janeiro 2003


Futebol Americano
Uma relexão sobre a guerra do golfo

Aleluia!
Funciona.
Rebentámos-lhes com aquela merda toda.

Rebentámos-lhes com a merda pelo cu acima
Até lhes sair pela porra das orelhas.

Funciona.
Rebentámos-lhes até com a merda.

Eles sufocaram na própria merda!

Aleluia.
O Senhor seja louvado por todas as coisas boas.

Desfizemos aquela porra toda em merda.
Estão a comê-la,

O Senhor seja louvado por todas as coisas boas.

Rebentámos-lhes os tomates em estilhaços de pó,
Na porra de estilhaços de pó.

Conseguimos.

Agora quero que venhas aqui e me beijes
na boca.

Agosto 1991



Democracia

Não há por onde fugir.
Os grandes caralhos andam aí.
Irão foder o que lhes vier pela frente.
Ponham- se a pau.


Março 2003




Morte

Onde foi o corpo morto encontrado?
Quem encontrou o corpo morto?
Estava morto o corpo quando foi encontrado?
Como foi o corpo morto encontrado?

Quem era o corpo morto?

Quem era o pai ou filha ou irmão
Ou tio ou irmã ou mãe ou filho
Do corpo morto e abandonado?

Estava morto o corpo quando foi abandonado?
O corpo foi abandonado?
Por quem foi ele abandonado?

Estava o corpo morto nu ou vestido para viagem?

O que te fez declarar morto o corpo morto?
Declaraste o corpo morto?
Conhecias bem o corpo morto?
Como soubeste que o corpo morto estava morto?

Será que levaste o corpo morto
Será que cerraste ambos os olhos
Será que enterraste o corpo
Será que o deixaste abandonado
Será que beijaste o corpo morto

terça-feira, 10 de junho de 2008

"Como tu, junto ao Ganges sussurrante"

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.



Com grandes esperanças já cantei,
Com que os Deuses no Olimpo conquistara;
Depois vim a chorar porque cantara,
E agora choro já, porque chorei.

Se cuido nas passadas que já dei,
Custa-me esta lembrança só tão cara,
Que a dor de ver as mágoas que passara,
Tenho pela mor mágoa que passei.

Pois logo, se está claro que um tormento
Dá causa que outro na alma se acrescente,
Já nunca posso ter contentamento.

Mas esta fantasia se me mente?
Oh! ocioso e cego pensamento!
Ainda eu imagino em ser contente!
Adenda às 13h37: ao que isto chegou, já nem sequer disfarçam. Veja aqui.

sexta-feira, 21 de março de 2008

21 de Março, Dia Mundial da Poesia

De Barbosa du Bocage:

Lá, quando em mim perder a humanidade,
Mais um daqueles que não fazem falta,
Verbi-gratia - o teólogo, o peralta,
Algum duque, ou marquês, ou conde ou frade;

Não quero funeral comunidade,
Que engrole sub-venites, em voz alta,
Pingados gatarrões, gente de malta,
Eu também vos dispenso a caridade;

Mas quando ferrugenta enxada idosa,
Sepulcro me cavar, em ermo outeiro,
Lavra-me este epitáfio, mão piedosa:

"Aqui jaz Bocage, o putanheiro;
Passou vida folgada e milagrosa;
Comeu, bebeu, fodeu, sem ter dinheiro."






De Agostinho Neto:

VOZ DO SANGUE
Palpita-me
os sons do batuque
e os ritmos melancólicos do blue

Ó negro esfarrapado do Harlem
ó dançarino de Chicago
ó negro servidor do South

Ó negro de África

Negros de todo o mundo

eu junto ao vosso canto
a minha pobre voz
os meus humildes ritmos.

Eu vos acompanho
pelas amaranhadas áfricas
do nosso Rumo

Eu vos sinto
negros de todo o mundo
eu vivo a vossa Dor
meus irmãos.