sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Memória olímpica (VI)


Teófilo Stevenson (Boxe – Cuba)

Não fosse o boicote aos J. O. de 1984 e, aquele que é considerado o melhor atleta amador de sempre, teria um lugar especial no areópago dos deuses: seria o único pugilista tetracampeão olímpico.
Assim, o tri conseguido em 1972, 1976 e 1980, tem a companhia do húngaro Lazlo Papp (1948, 52 e 56) e do seu compatriota Felix Savon (1996, 2000 e 2004).
Em Montreal a vitória de Teófilo Stevenson traduz a sua superioridade nos ringues: todos os combates foram resolvidos por K.O. Quatro anos mais tarde, em Moscovo, o seu adversário da meia-final ficou famoso pela maneira como ao longo dos 3 assaltos fugia à volta do ringue para evitar uma derrota humilhante.
Recebeu muitos convites, irrecusáveis, para enveredar pelo profissionalismo. Nunca aceitou dizendo que preferia a admiração de 8 milhões de cubanos.
Terá perdido fortunas, tendo até recusado defrontar Ali para o título mundial, mas o dinheiro nunca o seduziu. Fiel ao amadorismo dizia não trocar o seu pedaço de Cuba por dinheiro nenhum deste mundo.
O actual treinador da selecção cubana tem ideias muito próprias sobre o boxe profissional. Stevenson, na primeira pessoa: “No boxe profissional, o pugilista é um simples objecto: pode ser comprado, vendido ou, quando não tem mais utilidade, deitado fora”.
Coleccionou dezena e meia de derrotas nas perto de três centenas de combates que realizou e nunca foi derrotado por KO.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Kinaxixi... já era


Palavras para quê, é Portugal no seu melhor, ou será no pior...

Porque há coisas repugnantes que me conseguem indignar solenemente. O título do post roubei-o a um comentário deste outro post, para onde vos direcciono, para partilharem da minha indignação.
Porque é o que resta, mais palavras para quê? Se quiserem ter a bondade....

terça-feira, 12 de agosto de 2008

O jornalismo copy/past

Do jornalismo figueirense, penso, está tudo dito. O jornalismo do politicamente correcto, do agradar ao poder, do não fazer ondas. Essas coisas todas. Mas, que diabo, podiam ter algum cuidado, quer dizer, alguma preocupação em informar os seus leitores, com um mínimo de veracidade.

É raro passar-lhe os olhos por cima, mas desta vez, e se calhar com algum atraso, dei com um desses trabalhos jornalísticos de copypast na edição do passado dia 6 do corrente. E dei com ele por se tratar de um texto meu, publicado aqui neste bloguito. Sobre Rafael de Sousa, um dos atletas olímpicos figueirenses.
Neste texto existe um erro, que o deixei propositadamente após ter sido corrigido por um anónimo que me fez o favor de o corrigir, num comentário. Agradeci a correcção e justifiquei o meu erro. Porque este meio de comunicação não é propriamente um órgão de comunicação social no seu sentido lato, penso que um visitante de um blogue também terá interesse em ver os comentários ou em comentar. Assim, a minha incorrecção não terá levado ninguém em erro, muito por via do referido anónimo, que, também, diga-se em abono da verdade, me elucidou. Mesmo sabendo do erro, fiquei com a consciência tranquilíssima.
O jornal em questão é o “A voz da Figueira” e o erro é que o nome de Rafael de Sousa não foi atribuído à carreira de tiro em 1932, ano em que o atirador foi a Los Angeles, aos Jogos, mas sim nos inícios dos anos 80, pela CMFF. O atirador quiaiense faleceu, a 20 de Outubro de 1982, com 82 anos.
Como copiar é fácil podiam também ter copiado os comentários, fornecendo assim uma informação mais completa e fidedigna.
(A foto de Rafael de Sousa foi-me cedida pela Junta de Freguesia de Quiaios. Aqui deixo os devidos agradecimentos)

Memória olímpica (V)

Jesse Owens (Atletismo - EUA)




Ressalve-se a subjectividade destas coisas, mas Jesse Owens foi considerado o melhor atleta de sempre. Nos jogos de 1936, em Berlim, em que foi a estrela mais cintilante, teve o desplante de deitar por terra as teorias de Adolf Hitler sobre a superioridade da raça ariana. Digamos que foi um digníssimo representante da Humanidade.
Este negro criado nas plantações de algodão do Alabama demonstrou, ao vencer 4 medalhas de ouro, a fraude daquelas teorias. Obrigou o chanceler alemão a abandonar o estádio na cerimónia da entrega das medalhas, vergado ao peso da vergonha, quando ganhou a última, no salto em comprimento, conseguindo, no último salto, 8,06 metros contra os 7,87 do alemão Lutz Long.
Owens além do salto em comprimento venceu também os 100 e 200 metros e a estafeta 4x100 metros.
Contestou os defensores do “black power” apoiando as sanções que foram infligidas aos atletas do México-68, mas arrependeu-se uns anos mais tarde, publicamente, através de um livro.


As lições do desporto
Não são raras as lições de humanismo que nos chegam do desporto. O caso recente das atletas russa e georgiana lembram-nos a qualidade de governantes que vamos tendo, cujas acções se afastam, quase sempre cegos pela ambição mesquinha e incompreensível, das aspirações humanas.
Este, de Owens, é um exemplo entre muitos:

O “eterno” duelo entre um branco alemão e um negro americano, protagonizado por Lutz Long e Jesse Owens no salto em comprimento, fez nascer uma sólida amizade entre os dois atletas.
Na prova de qualificação, Owens, após ter anulado dois ensaios, conseguiu o apuramento na última tentativa porque o seu rival o aconselhou (em bom inglês) a começar a corrida de balanço um pé atrás do que estava a fazer.
Entre Long e Owens, a partir desse momento, nunca mais houve qualquer preconceito rácico.
Quando o germânico morreu, em 1943, na II Guerra Mundial, na frente italiana de San Pietro, Owens ficou tremendamente abalado. E, mal o conflito terminou, o tetracampeão olímpico deslocou-se à Alemanha para conhecer o único filho de Long, passando a ajudá-lo materialmente
.

(in Jogos Olímpicos – Um século de glória, edição jornal o Público)

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Memória olímpica (IV)

Cassius Clay (Boxe – Estados Unidos da América)

Aos 18 anos conquistou a glória ganhando a Medalha de Ouro no torneio olímpico de Roma, em 1960. Aos 22, derrotou Sonny Liston e tornou-se pela primeira vez campeão do mundo.
Iniciava assim uma carreira brilhante que o levou a ser considerado por muitos especialistas como o melhor peso pesado de sempre. Durante a qual, em 61 combates, sofreu apenas 5 derrotas, com a particularidade de 37 vitórias terem sido obtidas por K.O.. Em 1999, a revista americana “Sport Illustrated” elegeu-o como o desportista do século.
Elegante e com um estilo muito próprio, a tenacidade era um dos seus muitos atributos: durante um combate, em 1973, contra Ken Norton, aguentou 12 assaltos com o maxilar partido e não foi ao tapete.
Em 1967, por motivos políticos, foi-lhe retirado o título mundial. Negou-se a combater no Vietname, numa guerra que não era dele, nem do seu povo, nem do seu país. Condenado a 5 anos de prisão, foi lá que se converteu ao Islamismo e adoptou o nome de Muahmmad Ali.
Já os vimos, por muito menos, serem galardoados com o Nobel da Paz, mas ele nunca chegou sequer, tanto quanto sei, a ser referenciado para tal. Seria merecido e justificado, não tenho dúvidas, uma vez que também deu a cara na luta contra o racismo.
Pronto, está bem… a medalha de ouro foi parar às águas do rio Ohio. Depois dele e de um seu amigo terem sido impedidos de comerem num restaurante exclusivo para brancos. Depois de, à saída do restaurante, terem sido atacados por um gang de motoqueiros brancos que lhe exigiam a medalha que ele orgulhosamente exibia. Os motoqueiros ficaram maltratados e o amigo colocou a medalha ao peito. Clay, pela primeira vez, via a medalha tal como ela era: “um simples objecto”, contaria ele mais tarde.
Em 1996 acendeu a chama olímpica para o início dos jogos de Atlanta.

Iniciem-se os Jogos


"A desonra não consiste em ser derrotado. Ela reside em não se bater até ao fim"


"Pierre de Coubertin"

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

...e foi o mais cruel, o mais monstruoso, o mais bárbaro morticínio da história







A espécie do salário

O Partido Socialista não pára de surpreender na sua cruzada para modernizar o país.
Depois de ter inventado os salários em atraso e os contratos a prazo nos finais dos anos 70, acaba agora de inventar o pagamento de salários em espécies.
Com um partido destes para que é que o capital precisa de partidos de “Direita”?
Mas esta nova modalidade levanta muitas dúvidas e questões que aqui são colocadas.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Memória olímpica (III)

Carlos Lopes (Atletismo – Portugal)


" Indiferente, soberbo, atleta de busto ligeiro e pernas de puro-sangue, Carlos Lopes parecia um cavaleiro solitário, tendo inscrito na fronte a certeza da sua superioridade."
Jornal L’Equipe, Mundial de Corta-Mato, 1976



Los Angeles. Olimpíadas de 1984. São quatro da madrugada de 12 de Agosto em Portugal e um pequeno e franzino beirão é o responsável por todo o país estar acordado. Prepara-se para correr 42 quilómetros e alguns metros. É falsa a fragilidade que o seu corpo denuncia: ele carrega nos ombros a esperança e a remissão das frustrações de todo um povo.
Carlos Lopes conseguiria, pela primeira vez, que a “Portuguesa” fosse ouvida na cerimónia olímpica de entrega de medalhas.
Uma vitória que por razões bastante dúbias lhe tinha fugido 8 anos antes, em Montreal, nos 10.000 metros. Facto a que Lopes nunca se referiu. Possivelmente o único a nunca tecer considerações sobre. Ele é assim, a humildade em Lopes é mesmo feitio. Nunca tinha desculpas para as derrotas. Talvez porque nunca as há. Limitava-se a dizer ao mais incrédulo dos jornalistas, após uma derrota inesperada, que correu tudo bem, apenas os adversários foram melhores. Em Los Angeles não foram. Como quase sempre não foram. Ainda hoje, se passarem por ele e lhe perguntarem como é que perdeu o ouro em Montreal, ele dir-vos-à que simplesmente Viren foi melhor. Não sabemos se foi, não sabemos se Lopes foi derrotado por um atleta ou pela ciência. Uma dúvida que permanecerá.
O seu curriculum internacional, para além das medalhas olímpicas, é, utilizando o adjectivo do L'Equipe, soberbo. Tri-campeão mundial de Corta-Mato (1976, 84, 85), vice-campeão mundial de Corta-Mato (1977, 83), o primeiro homem a fazer menos de 02H08m na Maratona (Roterdão-85), recordista europeu dos 10.000 metros.
Em 1984 foi considerado pelos jornalistas de Espanha o melhor desportista do ano, prémio que recebeu das mãos do rei Juan Carlos.
Lopes corria com inteligência e classe. As mesmas qualidades que o impediam de responder obviamente a perguntas óbvias. Perguntaram-lhe se foi dura a prova, como se correr 42 quilómetros e picos fosse coisa de somenos. Ouçam a reposta: “Se foi dura a Maratona? Não, foram os 42 kms. do costume…”.

domingo, 3 de agosto de 2008

Há cadeiras e cadeiras…

(Foto: alex campos, Casa Museu de Camilo Castelo Branco)


A aniversariante de hoje é uma boa cadeira. De boa memória, diga-se. Deveria ocupar lugar de destaque num qualquer museu da resistência. Em última análise, também terá prestado o seu contributo.
Da cadeira da foto é que eu já não gosto nadinha. Não é que ela incomode, está há perto de 120 anos no mesmo sítio. Mas foi nela que se sentou Camilo Castelo Branco no dia 1 de Junho de 1890.

Os porta-bandeiras


Nelson Évora, campeão mundial do triplo-salto e João Ntyamba, maratonista angolano, foram nomeados pelas respectivas missões para desempenharem a função de porta-bandeira na cerimónia de abertura dos jogos olímpicos no próximo dia 8.
Se Nelson Évora é um sério candidato à vitória, Ntyamba vai pelo menos bater o record de presenças olímpicas ao alinhar pela sexta vez na maratona. O melhor registo do atleta angolano, que conta 39 anos e já representou o Belenenses e o Benfica, foi o 16º lugar há 8 anos, em Sidney. Em Atenas ficou em 32º depois de correr lesionado mas “terminar era a única coisa que me interessava. Não me lembro de alguma vez ter desistido numa corrida e não ia desistir na mais importante de todas”.
Em Pequim tudo pode acontecer.
Saiam já duas medalhas aqui para esta mesa.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Memória olímpica (II)




Nasceu uma bandeira


A largada de pombos na cerimónia de abertura dos Jogos de Antuérpia estava longe de ser uma inovação, pois já em Atenas, em 1896, as aves da paz tinham sido incluídas na liturgia olímpica. A novidade de 1920 estava no número de columbinas (2606, tantas quantos os atletas presentes) e no facto de cada uma ter seguro numa pata uma fita com a cor do país do participante que representava.
A largada de pombos de Antuérpia era, apenas, um primeiro sinal de um conjunto de símbolos que se tornariam constantes a partir daí.
Foi em Antuérpia que se ouviu pela primeira vez um atleta (Victor Boin) proclamar: “Nós juramos que nos apresentamos nos Jogos Olímpicos como competidores leais, respeitadores dos regulamentos que os regem e desejosos de neles participar com espírito cavalheiresco, para honra dos nossos países e glória do desporto”.
O julgamento inspirava-se, como acontece com toda a liturgia olímpica, nos jogos da antiguidade, nos quais a cerimónia do juramento consistia em colocar a mão direita sobre o altar sagrado e, voltado para a estátua de Zeus, o atleta furar, em voz alta, “acatar o regulamento dos jogos, de não ter cometido nenhum sacrilégio e de competir com inteira lealdade”.
Também da antiguidade provém aquele que hoje identificamos como o símbolo máximo dos Jogos: os anéis olímpicos. Tal como o juramento, foram idealizados pelo Barão de Coubertin, que entendeu poderem os cinco anéis esculpidos no altar de Delfos – cujas ruínas tinham sido encontradas por uma expedição arqueológica francesa, no final do século XIX – representar o seu movimento e a sua mensagem de paz.
Preparavam-se os jogos de 1912 e Coubertin decidiu plasmar os anéis numa bandeira, toda branca, que encomendou aos armazéns parisienses “Au Bon Marché”, com a recomendação de que fosse feito apenas um exemplar.
O Barão idealizara que, sobre o fundo branco, os cinco anéis, entrelaçados, fossem pintados nas cores vermelha, verde, amarela, preta e azul. Ao contrário do que é comum afirmar-se, não existe correspondência directa entre as cores e os cinco continentes que representam os anéis olímpicos. As cores foram seleccionadas, apenas, de forma a conter os tons usados nas bandeiras nacionais dos países do mundo.

Regista a história que a ideia do presidente do COI era entregar o estandarte olímpico na cerimónia de abertura dos jogos de Estocolmo, mas terá sido convencido a não o fazer pelo seu colaborador e amigo Angelo Bolanaki (também ele membro do COI), que lhe pediu que guardasse a apresentação do estandarte para 1914, ano da comemoração do 20º aniversário da fundação do movimento olímpico.
Assim, a bandeira apenas apareceu pela primeira vez aos olhos do público no Egipto, na cerimónia de inauguração do estádio de Chatby, no mesmo ano em que, em Paris, a assembleia do COI a consagrou oficialmente como símbolo da organização olímpica mundial.
O símbolo estava adoptado, mas a guerra eclodia e os jogos de 1916 (que deveriam ter lugar em Berlim) viriam a ser anulados. Apenas em Antuérpia, em 1920, a bandeira olímpica compareceu nos Jogos, para não mais deixar de estar presente, dominando o estádio, lá do alto do mastro mais alto, como símbolo de paz e da unidade dos cinco continentes.


(in "Jogos Olímpicos - Um século de glória", edição jornal O Público)