domingo, 31 de agosto de 2008

Pequim’08: em jeito de balanço (croniqueta de fim-de-semana)

A depressão provocada por deficit medalhístico que inundou o país, atenuada com a vitória de Nelson Évora, foi extemporânea.
O único facto negativo desta oriental odisseia foi protagonizado pelo presidente do COP. Primeiro, ao estabelecer um objectivo quer no número de medalhas quer na pontuação a obter; segundo, ao dizer que se ia embora num momento em que as coisas ficaram “pretas”; e terceiro, que poderia ficar, quando Évora saltou para o Ouro e transformou, supostamente, esta edição numa das melhores de sempre do olimpismo português.
Não se poderá considerar negativa a actuação dos atletas. Claro que houve rendimentos abaixo do esperado, o que acaba sempre por ser uma situação normal, os homens não são máquinas. Perdemos até uma medalha que ninguém estava à espera, a de Naide Gomes. Uma perda acidental, mas são imponderáveis inerentes ao próprio desporto, e não é por isso que ela não continua a ser a melhor do mundo. Tivesse um dos saltos não ter sido nulo e ela poderia, com propriedade, parafrasear e fazer dela as palavras do grande Ali: “sou a mais bonita e a melhor saltadora do mundo”. Não pôde, mas como diz o povo, e o povo tem sempre razão, “há mais marés que marinheiros”.
Obikuelu fez os possíveis. Claro que estávamos à espera, pelo menos, da sua presença na final. Percebemos agora que as suas declarações, demasiado optimistas, não tinham outro objectivo senão aumentar os próprios índices de confiança, pois ele sentia estar perante uma tarefa hérculea. Não aconteceu, não se pode ganhar sempre. Apesar de tudo, devemos estar agradecidos ao atleta. Por muito.

A prova de Jessica Augusto deu a entender que, não fora o acidente que a afastou da final, teria lutado por uma posição entre as oito primeiras.
Também esperávamos medalhas no Judo, modalidade que em Portugal atingiu já um nível internacional bastante aceitável. Assim como na Vela. Não aconteceu, não foi por incompetência dos atletas, foi pelos imponderáveis do próprio desporto. Entre outras coisas.
Na Natação, desporto onde não temos grandes esperanças, 4 dos oito nadadores presentes bateram 5 records nacionais, o que só por si torna, atrever-me-ia a escrever, excelente a participação.
A obtenção, no total, de um primeiro, um segundo, um quarto, 2 sétimos, 4 oitavos, 3 nonos ou 2 décimos lugares pode ser considerado um bom desempenho num país que não tem cultura desportiva. O que existe nem sequer é uma cultura futeboleira, é mais uma cultura clubístico-futeboleira. Porque a grande maioria nem sequer gosta de futebol, gosta-se mais do Benfica, do Sporting ou do Porto. Somos um país onde existem 3 jornais diários supostamente desportivos, mas que as suas páginas são dedicadas, acima dos 90%, ao pontapé no coiro. E este não esteve em Pequim. E um país onde não existe, por exemplo, desporto escolar.
Veja-se a capa de um jornal no dia seguinte à medalha de ouro de Évora: a manchete foi dedicada a um futebolista estrangeiro que apenas assinara por um clube português, não fizera qualquer jogo e nem sequer os portugueses o conhecem. Jogou ontem, e não o vimos fazer nada de especial que qualquer jovem futebolista português não fizesse. É triste. Lembro-me que quando Naide ultrapassou pela primeira vez os 7 metros, teve direito a uma pequena chamada lateral, a considerar um feito histórico. Então se era histórico porque não lhe foi dada a manchete?
Acontece que o futebol tem um efeito eucalipto. Não está sozinho neste efeito, há outras modalidades cujas ligas se disputam maioritariamente por jogadores estrangeiros. As condições que têm, bem como o campo de recrutamento, não são comparáveis às condições de outros, diminuindo-os. Vejamos os estádios novos que se fizeram, os estádios que existem, comparemos o número com as pistas de atletismo que por aí não há.
A conclusão que se pode tirar é que os Lopes, os Mamedes, as Rosas, as Auroras, as Fernandas, as Vanessas, as Machados, os Évoras, as Naides, ou outros, aparecem por geração espontânea e não por via de políticas correctas para um desporto que se queira competitivo.
Exigir medalhas? Estabelecer fasquias? É um absurdo, a menos que se mudem as mentalidades. Começando pela imprensa desportiva, que poderia começar a deixar de ser ridícula. Já era uma grande ajuda. E continuando com a saída do presidente do COP. E, já agora, a nomeação de um ministro da educação a sério também dava um grande jeito.
Para não falar no jeito que dava, não só ao desporto, um governo sério e a sério.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Ninguém escreve ao Coronel

Uma carta do director do Eurostat teria negado a afirmação em título. Mas não. Tudo não passou de um acto de humor, embora muito sério e perfeitamente plausível, de Vitor Dias. Afinal, ninguém escreve mesmo ao coronel.
Toda a estória aqui. Divirta-se.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Notícias da fome

Se os EUA autorizassem que o direito à alimentação fosse considerado um direito humano, diriamos que o respeito pelos direitos humanos deixa muito a desejar neste mundo dominado pelo sistema capitalista...E nos próprios EUA, onde o número de pessoas que vivem no «limiar da pobreza» - isto é, que têm um rendimento inferior a 13 dólares/dia - anda pelos 38 milhões.




Para acabar com a fome, que mata oito milhões de crianças por ano bastariam una 270 milhões de dólares.
O equivalente à riqueza criada nos 30 países mais ricos do mundo no espaço de... 40 segundos.


É mesmo muito importante começarmos a pensar.

Preocupado, agora?

Cavaco Silva está preocupado com a onda de crimes que varre o país. Considera mesmo que o país vive uma situação muito séria. E o que propõe? Que é preciso talvez adaptar a estratégia no combate ao crime violento, prevenir mas também perseguir os criminosos, etc. e tal, blá, blá, blá. Entendo que ele não foi ao essencial. À génese da questão. E esta está nas desigualdades sociais cada vez mais medonhas, com consequências cada vez mais imprevisíveis.
Pode-se prevenir, pode-se, e deve-se, combater o crime, mas ao mesmo tempo criar condições para que ele não prolifere, ou seja, mudar as políticas sociais e económicas. Essas é que estão erradas, está visto que não funcionam. Mas Cavaco Silva não está minimamente interessado em mexer no cerne da questão. Ele foi primeiro-ministro durante dez longos anos. O que fez para inverter a situação? Antes foi um dos que formatou a política vigente.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

A Festa das Festas


Penso que só por muita má fé alguém poderá não considerar a Festa do Avante como a maior festa alguma vez realizada em Portugal. Considerando, bem entendido, as suas vertentes política, cultural, artística, social ou desportiva.
A provar este excelente trabalho, voluntário, abnegado, solidário, (já trabalhei várias vezes no levantamento da festa, e posso dizer que só pelo convívio é também uma festa) dos comunistas portugueses, estão os ataques, sempre torpes, que a festa sempre viu e sempre vê serem-lhe infligidos.
Leia aqui um pequeno historial dos ataques que, no mínimo, poderemos considerar anti-democráticos. No mínimo, para não irmos mais longe.
Diga-se também que é uma festa muito sui-generis, pois, com a cobertura feita anualmente pelos órgãos de informação (rádio, jornais, TV), é verdade que quem nunca foi à festa não fará uma ideia sequer aproximada do que é "o espaço com maior índice de fraternidade por metro quadrado no território nacional".

fotos: alex campos

Palhinhas, Beatas e Ramelas: um breve regresso


Nunca digas “desta água não beberei”. Um dito popular que a partir de agora conheço por experiência própria. Acontece que já não posso dizer que nunca roubei nada a ninguém.
Acabo de roubar um boneco. Os célebres “Palhinhas, Beatas e Ramelas”, uma criação do artista aniversariante, Fernando Campos, para o extinto jornal A linha do Oeste. Posteriormente chegaram a pontuar no blog Outra Margem, onde diariamente Fernando Campos publica, ou no seu próprio, O Sítio dos desenhos.
Mas têm estado de férias, já há muito que os não vemos. Substituídos pelos, também admiráveis e respeitáveis, “Dr. Xecq e Sr. Quil”.

domingo, 24 de agosto de 2008

Memória olímpica (X)

Curiosidades (II)

Gracinha (1972)
Os fortes aplausos que, na parte final da maratona, foram ouvidos no Estádio de Munique não tiveram como destinatário o vencedor, o norte-americano Frank Shorter.
É que, quando todos aguardavam a entrada no Estádio do homem que ia vencer a corrida de 42 quilómetros, um jovem alemão surgiu, com ar triunfante, depois de ter conseguido ludibriar a segurança.
O público não se inteirou do embuste e, durante mais de um minuto, aplaudiu-o, como se ele fosse o novo campeão olímpico.
Para este maratonista de pouco fôlego (supõe-se que terá corrido pouco mais de 500 metros…) a “gracinha” terminou numa esquadra de Munique.
A verdade é que Frank Shorter não sentiu, no Estádio Olímpico, o calor humano que normalmente premeia os vencedores.



Melvin Patton (1948)
O famoso general Patton viu o seu filho Melvin conquistar em Londres aquilo que ele ambicionou em toda a sua carreira de desportista.
George Patton foi quinto no pentatlo moderno de Estocolmo’12, batido por quatro suecos e, para alguns observadores, vítima de um erro dos juízes na competição de tiro.
Volvidos 36 anos, o seu filho Melvin, o melhor velocista mundial do pós-guerra, venceu os 200 metros, numa corrida em que registou o mesmo tempo do segundo clasificado, sucedendo, no trono desta prova, ao famoso Jesse Owens.
Refira-se que, ainda em Londres’48, Melvin também integrou a equipa norte-americana que venceu os 4x100 metros.



Clandestinos (1956)
A partida para a prova de ciclismo de estrada teve de ser atrasada 15 minutos, porque os juízes de partida constaram que, apesar de só terem 88 concorrentes inscritos, havia 90 ciclistas preparados para percorrerem os 175 quilómetros previstos.
Após alguma azáfama, descobriu-se quem eram os “clandestinos”. Tratava-se de dois ciclistas irlandeses, um carpinteiro e um talhante, que queriam alinhar, no intuito de chamarem a atenção para os problemas nacionalistas que se viviam no seu país.
Depois de verem os seus intentos gorados, os dois homens não desistiram. Juntaram-se a duas centenas de outros indivíduos, que lutavam pela mesma causa, lendo, durante algum tempo, alguns trechos de literatura nacionalista irlandesa.



Prata-bronzeada (1936)
No final de um longo concurso de salto com vara, que se prolongou pela noite dentro, dois atletas japoneses estavam igualados na segunda posição. Após uma breve reunião, Shusei Nushida e Sueo Oe decidiram que não iam competir mais, ficando o primeiro com a medalha de prata e o segundo com a de bronze.
Chegados ao Japão, cumpriram a parte final do seu acordo. Levaram as duas medalhas a uma joalharia para serem cortadas a meio e fundidas novamente, passando as duas insígnias a ser compostas por uma metade de prata e outra de bronze.
Efectivamente, nenhum deles se tinha superiorizado ao outro na competição e, por esse motivo, acabaram por acertar contas da forma mais justa.



Suplentes… vitoriosos (1964)
George Hhungerford e Roger Jacksons só se deslocaram até Tóquio na condição de suplentes da tripulação canadiana que ia alinhar na prova de remo de shell de 8.
Para os compensar, os responsáveis pelo remo daquele país permitiram que os dois fizessem equipa na competição de dois sem timoneiro. Treinaram juntos durante seis semanas e a primeira vez que competiram foi na primeira ronda de qualificação do torneio olímpico.
Na final, foram a grande surpresa, ao conquistarem a única medalha de ouro que o seu país alcançou em Tóquio.
Um triunfo tão inesperado que não foi presenciado por um único jornalista canadiano.



Águia ausente (1984)
À última hora, o Comité organizador de Los Angeles’84 teve de trocar o patriotismo pela tecnologia. Um dos momentos culminantes da cerimónia de abertura deveria ser a chegada ao coliseu de uma águia imperial americana, símbolo do país.
Só que a ave, treinada e supertreinada, ao longo de vários meses, deixou o mundo dos vivos quatro dias antes… do dia da sua vida.
Num brilhante improviso, os californianos deitaram mão ao “espacial” homem-foguetão – um “produto” Walt Disney – e, assim, maravilharam o mundo com a sua tecnologia.




(in "jogos Olímpicos - Um século de glória", edição jornal O Público)

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Memória olímpica (IX)


O senhor atletismo

A primeira medalha do atletismo português, conquistada em 1976, bem como o primeiro título olímpico nacional, em 1984, ambos alcançados por Carlos Lopes, tiveram um obreiro: Mário Moniz Pereira. Um técnico que teve o grande mérito de acreditar que, com algumas condições, os nossos atletas também podiam ser campeões.
Durante anos, o experiente treinador do Sporting e dos melhores atletas nacionais foi aprendendo que os seus pupilos só se diferenciavam dos homens que os venciam porque treinavam menos.
Uma longa carreira, na qual contam dez presenças em jogos olímpicos, de Londre’48 a Barcelona’92, intervalada apenas em Melbourne’56, porque o atletismo português não se fez representar, e em Moscovo’80, dado os seus atletas terem optado por aceirar a sugestão de boicote feita pelo governo.
Moniz Pereira já tinha ficado por duas vezes à porta do sucesso, quando atletas seus se abeiraram das medalhas. Álvaro Dias na prova do salto em comprimento dos campeonatos da Europa, em 1950 – “só não ganhou por se ter lesionado”, garante o técnico – e Manuel de Oliveira, nos jogos olímpicos de Tóquio, nos 3000 metros obstáculos. Dois quartos lugares que não fizeram desanimar um homem que como atleta apenas por uma vez vestiu a camisola da selecção nacional, curiosamente na sua segunda modalidade, o voleibol.
Moniz Pereira sabia esperar (começou a carreira em 1945), como sabia lutar contra as contrariedades, como lhe aconteceu aos 29 anos. Nessa altura, não foi por ter sido impedido de continuar a praticar o atletismo, alegadamente por profissionalismo (estatuto que lhe foi atribuído por ser professor de Educação Física), nem por ter ficado às portas da internacionalização (foi suplente num Portugal-Espanha) que trocou o primeiro amor desportivo da sua vida pelo segundo, o voleibol.
Nesta modalidade teve o prazer de jogar até aos 50 anos e de ser campeão nacional numa equipa, o CDUL, onde também se integrava o seu filho.
Com as alterações políticas registadas em Portugal em 1974, Moniz Pereira percebeu que era chegada a hora de convencer os governantes da sua convicção de que “era tudo uma questão de trabalho e de haver condições para esse trabalho se desenvolver”.
No ano seguinte, recebeu “luz verde” para o seu projecto. A partir de Outubro – a menos de um ano dos jogos de Montreal -, um grupo de sete atletas passou a estar liberto dos respectivos empregos da parte da manhã e a cumprir um horário laboral entre as 14 e as 16 horas. Só assim era possível fazer treino bi-diário.
Os resultados surgiram muito rapidamente. A partir de Janeiro, Carlos Lopes não perdeu qualquer prova. Em Março, alcançou o seu primeiro título mundial de corta-mato.
O técnico, contudo, só acreditou que a primeira medalha seria uma realidade quando Lopes, como atleta convidado de um encontro entre a RFA e a URSS, melhorou o record nacional dos 10 000 metros, em 45 segundos, fixando-o num tempo com valia internacional: 27 minutos e 45,8 segundos.
Em Montreal’76, Carlos Lopes foi o cartão de visita de uma delegação histórica. Mas, também José Carvalho (quinto lugar), Aniceto Simões (oitavo posto) Fernando Mamede e Hélder Jesus, que passaram as respectivas eliminatórias, fizeram vibrar o país. Uma actuação colectiva brilhante, que teve por base, segundo o seu responsável, o facto de ser “uma equipa unida, que treinava sempre em conjunto e com o mesmo treinador”.
Moniz Pereira: um homem com ideias próprias e com a mesma postura patriótica de sempre. Por isso, não tem qualquer rebuço em afirmar que depois de ter assistido a dez edições dos jogos, “Lopes e Mamede foram os melhores atletas mundiais de sempre!.



(in “Jogos Olímpicos – um século de glória”, edição jornal O Público)

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Outro figueirense na China

O treinador da selecção nacional de remo sub-23, o figueirense Augusto Alberto, parte no próximo dia 29 para Pequim.
O ex-maratonista e campeão nacional de remo vai fazer o acompanhamento técnico a uma jovem paraplégica, na edição 2008 dos Jogos Paraolímpicos.
Um abraço ao meu camarada Augusto Alberto e o desejo de uma boa prova da sua atleta.

Ganda Nelson!

«Estou radiante! Como em Osaka, ainda não consigo acreditar. Afinal foi tão rápido. Custou! Vou demorar alguns dias a digerir este momento. Agradeço a todos os portugueses, a todos os PALOP, recebi apoio de todos. Foi bom ter sentido esse apoio, porque acaba por aproximar as pessoas. Todas juntas, provou-se, conseguem fazer coisas bonitas. Cada título tem um gosto especial. Este é diferente. Nos próximos quatro anos serei campeão olímpico, isso ninguém me poderá tirar. Esforço? Nem podem acreditar como me esforcei para estar aqui. Foi um ano difícil. Toda a equipa esteve bem. Toda a gente bateu recordes pessoais, melhores marcas do ano. Lutaram com campeões olímpicos e do mundo e ninguém mais do que os atletas queria fazer melhor. A equipa olímpica esteve espectacular. As pessoas deviam ter a dimensão das outras equipas. As medalhas não são tudo! A selecção? Está muito unida. Agora só quero falar com os meus pais e estar com os amigos, que sempre acreditaram».

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Memória olímpica (VIII)

Curiosidades (I)

Nighthorse Campbell (1964)
A história dos Jogos Olímpicos escreve-se falando dos grandes campeões, mas também dando conta da existência de atletas que acabaram por se destacar (no desporto ou fora dele) mesmo sem terem conhecido o ouro. Está entre estes últimos o senador norte-americano Ben Nighthorse Campbell.
A sua vida dava para sustentar um argumento de um bom filme, a começar pela rara combinação das suas origens: filho de pai índio (da tribo cheyenne) e de uma mãe… portuguesa.
A doença (tuberculose) da emigrante açoreana que o deu à luz em 1933 e os desmandos alcoólicos do pai contribuíram para uma adolescência agitada, apenas serenada no desempenho do serviço militar, na guerra da Coreia.
Foi, aliás, a ida para a península da discórdia que fez com que Campbell enveredasse pelo desporto, tornando-se praticante de Judo, a modalidade que o levaria até aos jogos de Tóquio, como melhor membro da equipa dos EUA.
O torneio olímpico não lhe correu da melhor forma, estando ainda hoje convencido de que o facto de ter partido o nariz num dos combates o impediu de chegar ao pódio.
Depois de 1964, ainda se manteve ligado à modalidade, como instrutor, mas acabaria por se lançar noutros voos: primeiro, foi um joalheiro de nomeada e, depois, enveredou pela política. Aí teve mais êxito do que no desporto: nas eleições de 1992, mais de 200 anos depois da fundação dos EUA, tornou-se no primeiro índio a ter assento no senado.


Stylianos Mygiakis (1980)
Após duas dezenas de edições e mais de uma centena de campeões, finalmente um atleta grego conseguiu conquistar uma medalha de ouro na luta… greco-romana.
Stylianos Mygiakis triunfou no escalão de menos de 62 quilos. Foi o único atleta do país onde nasceram os jogos que venceu em Moscovo, onde quebrou um longo jejum de 20 anos. É que a Grécia não alcançava um primeiro posto desde 1960.


Murray Rose (1960)
O australiano Murray Rose tornou-se, em Roma, o primeiro nadador a conquistar dois títulos consecutivos na prova de 400 metros livres.
Curiosamente, em ambas as finais o segundo posto pertenceu também ao mesmo homem, o japonês Tsuyoshi Yamanaka.
Mais curioso ainda é o facto de em ambas as provas os dois atletas terem ficado separados pela mesma diferença cronométrica: 3,1 segundos.


Índia mais bonita (1988)
Numa competição destinada a premiar os melhores do mundo, a Índia, não tendo atletas ou equipas para lutar pelos primeiros postos, jogou os seus argumentos logo no primeiro dia.
Na delegação que desfilou na cerimónia de abertura integrou-se a Miss Mundo de 1988. Não era atleta, mas ninguém colocou em causa a sua presença.



Derartu Tulu (1992)
Trinta e dois anos depois de um etíope ter conquistado o primeiro título olímpico para a África negra – Abebe Bikila, vencedor da Maratona dos jogos de Roma -, uma atleta do mesmo país cometeu a mesma proeza no sector feminino.
Derartu Tulu ganhou os 10 mil metros, uma prova empolgante, na qual a etíope teve como principal adversária a sul-africana Elana Meyer.
A volta de honra que as duas fundistas deram à pista foi um dos momentos mais significativos de Barcelona’92, duas africanas, uma branca e outra preta, de mãos dadas, simbolizaram na perfeição o regresso à família olímpica do país onde o apartheid fora abolido havia pouco tempo.


Fato proibido (1976)
A equipa da Alemanha Federal que conquistou o título na prova de ciclismo de 4000 metros perseguição colectiva apresentou duas importantes inovações.
Os pneus das bicicletas dos quatro germânicos foram enchidos com hélio, por se tratar de um gás mais leve do que o oxigénio.
A outra novidade não foi aceite: a utilização de um fato de uma só peça. Muitos anos mais tarde, esse equipamento, considerado mais aerodinâmico, foi adaptado numa série de modalidades.





(in "Jogos Olímpicos – Um século de glória", edição jornal O Público)

terça-feira, 19 de agosto de 2008

19 de Agosto de 1936

Les guitares jouent des sérénades
Que j'entends sonner comme un tocsin
Mais jamais je n'atteindrai Grenade
"Bien que j'en sache le chemin"

Dans ta voix
Galopaient des cavaliers
Et les gitans étonnés
Levaient leurs yeux de bronze et d'or
Si ta voix se brisa
Voilà plus de vingt ans qu'elle résonne encore
Federico García

Voilà plus de vingt ans, Camarades
Que la nuit règne sur Grenade

Il n'y a plus de prince dans la ville
Pour rêver tout haut
Depuis le jour où la guardia civil
T'a mis au cachot

Et ton sang tiède en quête de l'aurore
S'apprête déjà
J'entends monter par de longs corridors
Le bruit de leurs pas

Et voici la porte grande ouverte
On t'entraîne par les rues désertées
Ah! Laissez-moi le temps de connaître
Ce que ma mère m'a donné

Mais déjà
Face au mur blanc de la nuit
Tes yeux voient dans un éclair
Les champs d'oliviers endormis
Et ne se ferment pas
Devant l'âcre lueur éclatant des fusils
Federico García

Les lauriers ont pâli, Camarades
Le jour se lève sur Grenade

Dure est la pierre et froide la campagne
Garde les yeux clos
De noirs taureaux font mugir la montagne
Garde les yeux clos

Et vous Gitans, serrez bien vos compagnes
Au creux des lits chauds
Ton sang inonde la terre d'Espagne
O Federico

Les guitares jouent des sérénades
Dont les voix se brisent au matin
Non, jamais je n'atteindrai Grenade
"Bien que j'en sache le chemin"


Samuel recorda aqui um dos muitos horrendos crimes dos fascistas. Este foi em Espanha e faz hoje 72 anos. É importante não esquecermos.
Les lauriers ont pâli, Camarades.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Memória olímpica (VII)

Emil Zátopek (Atletismo – Chescoslováquia)



O único homem a vencer os 5.000, os 10.000 e a Maratona numa mesma edição dos Jogos Olímpicos. Foi em Helsínquia’52, e nas 3 provas conseguiu estabelecer novos records olímpicos, com a particularidade de a prova da Maratona ter sido a sua primeira experiência.
Quatro anos antes, Londres’48, já havia vencido a dupla légua e conseguido a segunda posição nos 5.000 metros. Entre 1948 e 1954 venceu 38 provas de 10.000 metros e, nos europeus de 1950, em Bruxelas, ganhou os 5.000 e os 10.000 metros e nos de 1954, em Berna, venceu os 10.000 e foi 3º na légua.
Ficou conhecido pelo “locomotiva humana”. Em 1956, nos jogos de Melbourne, foi correr a Maratona, contra os conselhos dos médicos, pois a prova aconteceu 45 dias após uma operação a uma hérnia. Os médicos tinham razão: a “locomotiva” atrasou-se seis apeadeiros.
Zátopek ficou ligado a novos métodos de treino, utilizando estratégias inovadoras para a época que forneceram bases para pesquisas científicas.