sábado, 31 de janeiro de 2009

O país dos cães abandonados

por Augusto Alberto

Numa fatídica volta ao Algarve em bicicleta, Joaquim Agostinho, atleta dos nossos contentamentos, atropelou um cão vadio, caiu e bateu com a cabeça no chão e apesar de muito combalido, ainda arranjou forças para acabar a etapa e depois de a ter acabado, acabar no hospital, acabando por entrar em coma violento e acabar morrendo para nosso desconsolo. E eu por esses tempos, claramente muito mais novo, correr diariamente 30 km, era coisa consensual e sem leve esforço. Levíssimo este rapaz. Um dia numa dessas corridas pela lindíssima Serra da Boa Viagem, porque foi antes do arrasador fogo de 1993, decidi mudar de rumo, alterar o trilho e experimentar passar por lugar diferente e inabitual. Meti por vereda abaixo, com o plano oceano, a lindíssima enseada de Buarcos e a cidade, sempre em frente aos meus olhos. E eis que num dado momento sou obrigado a estancar porque ao caminho me saíram dois corpulentos cães doberman. Claramente assustado, parei sorrateiramente em frente ao portão do quintal da habitação que os cães guardavam. Sem me mexer e rezando à minha sorte para que os bichos não perdessem a tramóia e compostura, fiquei sossegadinho, sem um movimento, para além do acto autónomo da respiração. Os cães devem ter percebido que afinal eu não era ladrão, atenciosos, ficaram sentados sobre as patas traseiras com os olhares ferrados em mim. Passados curtos minutos, mas longos para o efeito da libertação, decidi arriscar sair dali e comecei pé ante pé a recuar calmamente, até atingir a estrada principal, de que nunca me deveria ter apartado. Os cães sempre vigilantes, educados ou com pena, sem esboçar qualquer intenção violenta, quando chegados à estrada, despediram-se e eu respirei fundo e retomei o que faltava para acabar os 30 km da corrida diária, em paz e sem mais contratempos. Estes cães não eram vadios, estavam superiormente educados, fizeram o seu trabalho de modo enxuto e para meu consolo, sem pinga de sangue, o que a verificar-se, ter-me-ia sido fatal. Foi o meu maior susto em dezenas de anos, muitos, de corridas, ainda que por ora esteja a ser vítima de outras sociais ferradelas.
Nos dias de hoje, vá-se lá saber, a cidade e as freguesias que eu percorro a pé ou bicicleta, porque o automóvel é bicho que me não assenta, está infestada de cães abandonados e por isso vadios. Alguns bem tratados, ainda com coleira nova, a dizerem-nos que os donos se fartaram. Talvez porque o dinheiro já não chega para as sopas da família, que fará para a ração do cão e então, rua. Talvez porque o estado de ética e empenho moral das pessoas esteja a ser levado, como o mar cão, em dia de temporal, leva a areia da praia. Não sei…O que sei é que esta pátria está a ficar exaurida e por essa causa, a perda de referências sociais são também uma evidência, e por estas razões os cães também são obrigados a pagar a crise, tal qual os humanos donos. Mas tenhamos calma, porque neste entretanto, nem todos somos iguais, tal como os cães, cirandam para aí uns que são mais, muito mais cães do que outros. Há uns cães que se enroscam em tapetes, alguns persas, será? Outros que repousam o focinho em fofas almofadas, outros ainda rosnam de sono em sofás espampanantes. Outros, que sabemos nós, outras riquezas têm como por exemplo, cobram a sede bebendo champanhe em finas taças. São os que eu chamo de cães “pavlovianos”, porque salivam mesmo de pança cheia.
Mas os rafeiros e os abandonados, sofrem, porque primeiro sofrem os donos, que socialmente abandonados, correm com os cães para as estradas e veredas deste país. E eu, apesar de cidadão respeitoso e de ter levado um susto há mais de vinte anos, de volta e meia, ainda hoje, levo com cães às canelas e por isso ainda me assusto. Não sei que mal eu fiz, porque o raio dos cães não me largam. E a vós? Será que a sorte é a mesma? Será que a sorte que acompanhou Joaquim Agostinho naquela fatídica volta ao Algarve em bicicleta, acaba por ser a sorte que nos está permanentemente a acompanhar? A ser verdade, então deixai que vos diga que vai sendo tempo de ir à procura de outras sortes.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Pronto. Estou desolado

Estou completamente desolado pelo facto de o "anónimo neo-liberal" não ter comentado os últimos posts aqui publicados.
Será por estar embatucado porque o chefe está a ser descoberto? E será solidariedade ou é tão sério quanto o chefe? Ele (o chefe) falou há pouco na TV sobre aquele caso do... do... free qualquer coisa, pronto, e não disse nada de concreto. Pelo menos algo que eu entendesse, nada. Tergiversou quanto pôde, e, diga-se em abono da verdade, tegiversou talqualmente um artista em cima de um trapézio. Foi espectacular, o chefe. Quase diria que gostei.
Um dia destes falo do referendo na Bolívia, pode ser que o distinto anónimo, agora embatucado, volte a deixar por cá um comentário. A não ser, bem entendido, que o senhor tenha começado a comentar em blogues ingleses. Nunca se sabe, mas que tinha piada, lá isso tinha.
Agora dou asas à minha imaginação. E imagino, por exemplo, que o "anónimo neo-liberal", pensando no chefe, solte uma expressão talqualmente igualzinha a um verso de um poema de António Botto: "Enfim, gosto".
Vai daí também o senhor Vital Moreira iria fazer um blogue em inglês. Admiravam-se? Para defender o chefe, vale tudo. Ou não?

Um azar nunca vem só…



José Freeport, perdão, José Sócrates, o já inefável primeiro-ministro de Portugal, anda mesmo em maré de azar. Problemas jurídicos e familiares. Daqueles, ele são as autoridades inglesas a darem-no como suspeito, estes sucedem-se, é o tio não anda bem da carola, é o primo que está na China, diz-se que em recolhimento espiritual. Pronto, há recolhimentos desses muito oportunos. E doenças da carola também.
A modos que para minorar o sofrimento do nosso primeiro, e como solidariedade, pois também é necessária, aqui vos deixo um link para verem(lerem) uma resenha do que foi a sua perfomance na acção governativa durante este mandato que está quase-quase a finar-se.
Porque é bom, e importante, relembrar. Pode evitar que cometamos o mesmo erro.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Isto está a pedir uma varada

por Augusto Alberto

Está mau tempo por todo o País e nesta tarde apetece-me reflectir sobre pequenas coisas do quotidiano da semana. E a primeira é sobre a possibilidade de um cão de água Português ser o cão eleito para a Casa Branca. Magistral! Ocorre-me o comentário de que estamos em boa verdade perante um presidente americano um pouco mais culto do que muitos dos seus concidadãos, que por regra bolça verdadeiras e vastas baboseiras. Este, enfim, sabe que existe um país nesta costa ocidental, bem mais velho do que o seu e de história, ao que se diz, também imperial, que se chama Portugal. Americanos, não raro, referem-se a esta pátria como não conhecendo ou como uma província de Espanha. Ainda não é razão suficiente para eu apreciar o homem, eu sei, mas com outras tantas como esta, sou capaz de me entusiasmar e quem sabe se não mudo a visão das coisas. Por oposição, e confirmando a tal sábia ignorância de muitos americanos, ocorre – me reflectir também que o anterior presidente do império deverá enfileirar no número dos distintos analfabetos, porque para além de se ter esquecido dessa figura que completou um bando a 4, Durão Barroso, foi o único que não levou “chapa”, pelos actos bondosos a favor das terrificas guerras, ainda por cima se lhe referiu, como “Borroso”, se lhe somasse outra gafe, ainda dirá, para mim, com todo o propósito, “ranhoso”, e me parece tão só que os Açores lhe pareceu uma sua quinta, ou sei lá, mais um estado do Império. Que digo eu.
Mas como em bom pano pode sempre cair uma mancha em dissonância, porque alguns defeitos esta pátria haverá de ter, no meio de tantas santas virtudes, meninos por aí, fizeram gazeta às aulas porque o frio lhes entorpecia os ossos. Apetece-me dizer que cá para mim, o Ministério, avaliado, chumbava já sem discussão e sem grande perda de tempo com reuniões e outros tantos trabalhos burocráticos, mesmo contra a vontade daquele grupelho, que no beija-mão, se reuniu em conclave no Largo do Rato. Era canja…
Mas não se julgue que estas coisas são novas, ressalvando a admirável história do cão de água, que um dia poderá ser presidencial cão, não me recordo de outra semelhante, então eu quero aqui socorrer-me de palavras sábias de um distinto português, este Obama não conhece de certeza, Eça de Queirós. O que disse, então? Passo a citar, das suas crónicas de uma campanha alegre, escrita a meias com outro Português insigne, Ramalho Ortigão, para as “farpas”.
…a escola por si oferece igual desorganização… são na maior parte uma variante torpe entre o celeiro e o curral… nada torna o estudo tão penoso como a fealdade da aula. (Março 1872)
- O País está atrasado, embrutecido, remendado, sujo, insípido. (1871)
- Mas esse Povo não se revolta? – O Povo às vezes tem-se revoltado por conta alheia. Por conta própria, nunca. (1871)
- Um país geralmente corrompido, em que aqueles mesmo que sofrem não se indignam por sofrer. (Janeiro 1872)

Estas palavras têm 140 anos e ao que parece o sentido das coisas não muda e então pior fico, confirmando Eça, quando numa ronda pela imprensa diária me deparo com notícias das sabujices na pátria que nos pariu e que infelizmente nos deu esta gente carregada de imundice. De tão mascarrado, resolvo continuar em rede, na tentativa de me sossegar e aliviar e vou direito ao sítio do jornal “granma”, o jornal da Ilha, e deparo-me, enfim, com notícias decentes em país do terceiro mundo, que falam do reconhecimento por parte da Organização Mundial de Saúde dos notáveis avanços na área das tecnologias e dos cuidados sanitários na Ilha. Reconhecimento feito, aliás, pela Presidente da Argentina, Cristina Krichner, na sua visita a Cuba e ao seu instituto Finlay de biotecnologia.
E eu a julgar que no terceiro mundo só existem más noticias e que para ter boas, só no primeiro. Enganei-me. Ora porra!

sábado, 24 de janeiro de 2009

É como na farmácia: há de tudo

O caso Freeport ainda irá dar muito que falar. Se, como tudo indica, ou não estivéssemos em Portugal, não for encerrado por falta de provas, aliás como é habitual sempre que os implicados sejam tubarões ou seus fiéis servidores.
Mas desde a construção numa Zona de Protecção Especial do Estuário do Tejo, à existência de um decreto-lei aprovado 3 dias antes de umas eleições legislativas precisamente para se alterar a impossibilidade de aí se construir, passando pelas suspeitas por parte das autoridades inglesas de fraudes fiscais, desvios de verbas e sabe-se lá mais o quê, os condimentos são muitos e variados. Ou seja, evidências a mais para não existirem culpados.
Estranho, estranho mesmo, é a existência daquele decreto-lei sem o conhecimento do responsável máximo da respectiva tutela. Enfim, até parece que dá jeito isto parecer a república das bananas.
Isto é que vai um autelete e um alca “gate”.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Da Casa Pia com muitos e bons laços

por Augusto Alberto


Em 1957 rumei à Casa Pia de Lisboa e percorri os colégios masculinos fundamentais da Instituição. No ano anterior, um lancinante momento modificou para o mal, que sei eu, a minha vida. Perdi a minha mãe, tinha 7 anos. Confesso que puxada atrás a memória, não consigo descobrir nenhum azedume com esse tempo e essa fatalidade. O pior veio depois, porque houve momentos dolorosíssimos, sobretudo, no início da tomada de consciência e da percepção das coisas. Mas não é desse azedume que aqui quero falar, é de outro, como adiante direi.
Passei então pelos colégios de referência da Instituição e tenho desses anos uma única relação amarga, uma fase de adaptação muito longa, mais de um mês em que estive só, numa enorme enfermaria, sem companhia, mas depois, de seguida, fiz muitos e belos afectos. Na primeira etapa, com passagem pelo colégio Nuno Álvares, em Belém, num amplo palacete de vários andares, com corredores altos, longos e largos, onde o som ecoava esplendidamente, com amplo recreio, onde tudo se passava, as aulas nos edifícios bordejantes ao longo pátio em terra batida, até às enormes salas que nos guardavam do frio, da chuva e do vento, dos banhos memoráveis de água fria, pelas 6.30 horas, para nos tornar mais fortes. Um mundo de histórias que nos floreava a imaginação, porque muitas delas com um estranho e delicioso sentido conspirativo, de ladrões que se atreviam a pular os enormes e robustos muros, que eram afastados ou caçados pelos nossos vigilantes nocturnos, estes os nossos verdadeiros heróis, como é bom de ver. Eu era um menino bem comportado e por isso recebi várias recompensas das nossas preceptoras, que vivam em absoluto ao nosso lado. Só me lembro de lhes sentir alguma folga, quando nas tardes de sábado ou de domingo, quando bem ataviados íamos fazer um longo giro pelos jardins da Praça do Império, frente aos Jerónimos, e elas fugiam fugazmente para ir ao encontro do namorado. Por norma, eram jovens no limite dos 30 anos. Formávamos grupos entre os 30 e 40 alunos, que ocupavam enormes camaratas, com camas de ferro individuais, e eramos vigiados em permanência.

Tornei-me um menino de referência, aluno de nota alta e no limite da idade para permanecer no Nuno Álvares, foram três anos, fui transferido para o colégio dos colégios, o Pina Manique. Foi mais um tempo de profundos laços e emoções, mas não consigo saber porquê, ou sei, o rendimento escolar caiu abruptamente. Depois do melhor, o pior. De qualquer modo, as memórias que guardo são perenes, porque me marcaram muito para o bem, apesar desse entorpecimento. Lembro-me de pintar muito, durante muitos anos gostei imenso. Hoje já não sei? De ter feito duas personagens em duas peças de teatro sequentes. Pelo Natal, a figura do menino. Que belo menino… Pelo Carnaval, fiz de polícia bêbado, figura popular muito causticada, num período de fraco respeito pelas pessoas. E agora que democrático respeito? Era muito comum passar as tardes de domingo, no estádio do Restelo, logo ali por cima. Fica-me na memória, como já aqui referi, um fabuloso Matateu, de seu nome. Passear pelos claustros dos Jerónimos, sair nos Jardins da Praça do Império, e tomar o ar do Tejo, logo ali em frente era,em absoluto, uma tentação.
É importante que diga, para se perceber como o colégio de Pina Manique se tornou o “ómega” dos colégios nacionais, e este é o tal ressentimento de um “ganso”, que todos éramos órfãos e estávamos sujeitos ao absoluto internamento, e nem por momentos saíamos desacompanhados ou estranhos invadiam o espaço que era comum a centenas de jovens, que iam dos 10/11 aos 18 anos. A disciplina, o rigor e a inviolabilidade do espaço, eram certezas adquiridas.
Parece-me, só me parece, que a grande questão que resulta na péssima imagem de um colégio de referência, está exactamente na alteração da circunstância do internato, e na sequente abertura diária a um mundo externo, em desbragada degradação e que teve a oportunidade de calcorrear, abeirar e penetrar dentro de uma instituição que formou gente do melhor que este País já teve. Como “Ganso”, fui-o durante 5 anos, lamento muito que gente menor, tenha aproveitado numa desgraçada oportunidade, deixada ali à mão, por culpa do laxismo de gente que sobre nós trepou, à custa de truques e passes de mágica, para conseguir degradar uma Instituição, que acolhe (u) meninos com vida difícil, e que hoje estão em séria dificuldade em se reequilibrar.
E isto só foi possível porque somos o povo que somos e que, exactamente por isso, temos permitido que gente de calibre voraz e medíocre, tenha conseguido invadir os nossos espaços e vidas. Não sei por quanto tempo ainda mais. É que eles pressentem que em terra de cegos quem em tem um olho é rei, e esta é a questão central.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

A greve dos professores

Ele há cada cromo que mais parece uma besta quadrada. O que é aflitivo e grave, gravíssimo, é haver gente que à partida deveria ter uma certa responsabilidade no que diz e no que faz e... nada. Há quem chegue ao desplante de ser tão patético ao fingir que não conhece o Artº 57 da Constituíção da República Portuguesa e que vivemos num estado de direito.
Gente com responsabilidades, aqui e agora, que parece que adormeceu no dia 24 de Abril e ainda não acordou.


O Sr. Albino, a Sra. Ministra (mais os seus lamentáveis secretários) e Sua Excelência o Senhor Presidente do Conselho, imaginam-se a falar para um universo de professores e de cidadãos sem cérebro. Estão muito enganados!

Parabéns aos professores, por mais esta sonora afirmação da sua vontade e determinação!

Ufff!!!! já só falta um...


Deste bélico quarteto ainda continua um tratante no activo. Mas nem por isso o mundo vai revelando melhoras. O problema de fundo está no sistema.
O que faz lembrar, por isso, um antigo ditado catalão: "Se todos os filhos da puta voassem, nunca mais veríamos a luz do sol".
Que deles há para aí, não é?



segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Histórias de mineiros: Em jeito de posfácio

Chegada ao fim a republicação destas histórias, escritas e publicadas no semanário “Barca Nova” em 1980, poucos anos após o 25 de Abril, portanto com a memória ainda viva do que foi a exploração desmedida daqueles tempos, com a memória ainda viva do que eram as condições de vida e de trabalho, cabe-me dizer umas palavras.
A primeira é de agradecimento a Augusto Alberto, por ter anuído à sua republicação. Porque, para além do interesse jornalístico que tiveram à época, impõe-se dizer que elas têm, e continuarão a ter, interesse histórico.
Os protagonistas das histórias já não existem. Augusto Alberto conseguiu ainda falar com alguns. Deixou testemunhos vivos de quem viveu e trabalhou naqueles tempos. De quem lidou, diariamente com o sofrimento, com a dor, ampliados pela violência fascista.
Desde a publicação das histórias já cresceram várias gerações. Que muito naturalmente não fazem a mínima ideia de como se sobrevivia naqueles tempos. Que muito naturalmente pensarão serem tempos impossíveis. Mas não, foram mesmo possíveis e reais. Que muito naturalmente nem sabem nem sonham que por ali, naquele lugar muito visitado, onde se passeia, se caminha, se corre ou se anda de bicicleta, existiram as referidas minas.
Como escreveu Augusto Alberto “dá jeito que essa gente saiba que por ali também gente, pelo menos há meio século, sofreu e amargou para viver”.
E pronto. Resta acrescentar, e divulgar, que estas histórias vão ainda ter mais uma utilidade. Em nome da cultura, da literatura, da memória futura: a partir delas o autor está já a trabalhar num romance. E, para finalizar, deixar aqui votos para que o talento revelado pelo escriba na crónica se manifeste também na ficção.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Histórias de mineiros (XI)

Ponto final

Augusto Alberto


Durante algumas semanas, algumas histórias de mineiros foram contadas. É chegado o momento de se concluírem estas histórias, ficando embora muita coisa para contar.
Retratar a mina é difícil, senão impossível, para quem nunca a viveu. Aquilo que se conseguiu foi o depoimento memorial dos que da mina fizeram ganha-pão. Depois houve que trabalhar a história, imaginar quadros. E foi assim que saíram durante 10 edições coisas da mina.
Foi curioso verificar como as reacções a um passado não muito distante foram de tal forma fechadas que se tornou difícil, por vezes, a recolha daquilo que interessava na história, salvo raríssimas excepções. Todos os contactados concluíam pela vida difícil, paupérrima, mas chegado o momento de desenvolver os quadros possíveis da época aparecia o enconchamento, numa recusa simples e humanamente perceptível. “Oh! Já pouco ou nada recordo!”. Ficava-se com a ideia de que os homens não queriam desenterrar um passado de privações e humilhações. Um passado cruel. E quem sabe mesmo se daí a recusa generalizada em o lembrar?
Hoje o que existe da mina sãos homens. Vivem no mesmo bairro, ontem exclusivo de mineiros, hoje compartilhado com os filhos e com outros que da mina só lhe ouviram o nome. Adquiriram as casas simples à companhia. Introduziram-lhe modificações para as tornar mais salutares, criaram anexos onde vivem os filhos e os netos. Deram um âmbito mais lato às coisas que ontem eram seu exclusivo, e hoje pertença de todos. É o caso da Festa em honra de Santa Bárbara. Santa Bárbara já não percorre as galerias e nem sequer se realiza em Dezembro. A Festa dos Mineiros adaptou-se ao sentido real da vida. Foi antecipada de Dezembro para Agosto. Recolhe a presença de emigrantes e aumenta os respectivos proventos.

Muitos dos mineiros têm filhos e netos nas sete partidas do mundo. Há como que uma continuidade histórica da incapacidade do mundo que é seu em satisfazer os seus. Se ontem era a humidade que resfriava os ossos, a fome e os maus cheiros da mina, hoje é a necessidade de recorrer a outro mundo para viver.
Muitos estão para lá há já bastantes anos. Assimilam novos hábitos, nova cultura, enquanto os mais novos, alguns já lá nascidos, engajam esses novos hábitos, essa nova cultura. De tenra idade que da mina do avô nem a mínima referência possuem.
O fascismo obrigou a emigrar e concomitantemente criou a ignorância e a exploração desenfreada. Hoje algumas dessas premissas ainda se mantêm quase intactas. Há como que um atavismo histórico.
Recordo que há bem pouco tempo uma mulher de mineiro, ao jeito triste do nosso povo, recorreu ao vizinho, mineiro reformado, para lhe ler a carta que a filha lhe tinha escrito da França. No fim desabafou:
“é triste não saber ler, mas logo de pequeninos tínhamos de ir trabalhar…”
Creio que a esta mulher talvez tivesse faltado a percepção de que o mundo dela, da mina, ao mundo de sua filha emigrante, só existe uma diferença de forma, porque o drama continua a existir. Ou não será que a saudade da filha pela terra que a viu nascer e crescer, a despedida à hora da partida, a carta que se escreve e que se lê, até talvez a assimilação forçada daquilo que é estranho, também não são um drama?
A mina lá está banhada pelas águas do oceano. Resta o local, as entradas pela serra, totalmente cobertas de arvoredo, urzes e espinhos.
Os mineiros reformados, ou os que ainda trabalham nas fábricas de cal ou do cimento, juntam-se no cantinho dos reformados, consomem horas a fio no jogo da malha, na conversa. Ambições, nenhumas. A mina cansou-os!...

sábado, 17 de janeiro de 2009

Um tal complexo suspenso de um dedo (Crónica em desalinho)

por Augusto Alberto

Um cidadão que por esta nossa terra possui interesses patrimoniais, em desalinho com a juíza que julgou, ou julga ainda, nem sei, uma questão, exactamente à volta desses seus interesses patrimoniais, azedou na hora do frente a frente no tribunal e sortido de arma branca, para cagaço de toda a gente, rapa de uma faca, disse, comprada na feira da Tocha e zás, deu três facadas no dedo, para não dar na justiça, e claro está, ficou a ficar com menos um dedo na respectiva mão.
Não discuto as razões de tamanho acto, podem ser nobres na perspectiva desse, só pode ser, inconsolável cidadão, mas já agora quero aqui lembrar, para além das razões patrimoniais, que parece se prenderem com um terreno que deverá suportar um putativo parque desportivo da cidade, um conjunto de histórias com história.
No ano do descalabro eleitoral do P.S no concelho, também eu fui cabeça de lista à eleição para a Assembleia da minha Freguesia, e como é bom de ver, também fui de rompante. Quem podia acreditar num tipo como eu? Estive eu, e os cabeças de listas do P.S., confrangedoramente derrotado e o do P.S.D., amplamente vencedor, num debate na rádio da cidade e lembro-me logo ali de o candidato do P.S. ter oferecido obra de estofo, uma piscina no miolo da praia. Se alguém julga que me benzi, pode tirar o cavalo da chuva, porque não sou de missas e igreja, e já há alguns anos pouco impressionável, mas fiz sentir ao meu amável adversário que isso poderia ainda vir a ser coisa, mas porque raio tendo sido o P.S. poder quase 20 anos de carreirinha, nunca lhe tinha passado pela cabeça semelhante decisão? E, mais lhe disse, naquele instante de agonia eleitoral, que o P.S. haveria de pagar nessas eleições, pelo que não fez e pelo que de mal fez à cidade, e foi muito, diga-se. É evidente e bem, o meu adversário não gostou do remoque, mas como bom democrata, lá encaixou.
No rescaldo dessa derrota descomunal do P.S., apareceu por cá, o tal, o coiso, o outro, aquele que tem andado por aí… o Dr. Santana Lopes, e chegou o tempo das festanças e andanças e logo o P.S. entrou em desconforto e orfandade e de seguida, ruminando sobre tão sôfrega derrota, fez à cidade um conjunto de propostas, que de cabeça recordo, entre outras, o tal complexo desportivo, multiplico, para atletismo, rugby, e creio que um sobranceiro campo de golfe. E como não há pacote, pensaram, com destino a pacóvios, sem brinde, ainda acrescentaram um túnel pedonal para a outra margem. Um brinco este brinde. Ora ai estava o P.S. raivoso, porque nunca se permitiu pensar em perder o concelho de modo magistral e ainda por cima para o outro… e vai de propor atabalhoadamente e entrando pelos caminhos da amnésia, esquecendo que foi poder quase 20 anos ininterruptos e que nessa altura é que deveria tudo isso ser proposto e realizado. Quando a amnésia nos apanha, ficamos em regra desorientados.
Depois o coiso andou por cá e em matéria de desporto quis atrelar a Cidade a um faraónico estádio, que a Cidade, desta vez não estando felizmente distraída, resistiu. Entretanto, o tal complexo desportivo continuou sempre inscrito, mas até agora, nada, e não se sabe ainda para quando. Eu aqui quero fazer um compasso, para dizer que já existe espaço desportivo nesta terra e só é o que é e está no estado em que está, porque outros interesses se levantam, como é bom de ver. Eu estou á vontade para falar do actual parque desportivo porque andei por lá muitos anos como atleta e treinador e com um pouco de vontade, está ali a solução para as necessidades da cidade. Mas querem-nos continuar a levar por parvos, o que é que se lhes há-de fazer…
Entretanto o tal complexo continua enguiçado e vai de certeza ser promessa mais uma vez, tanto de uns como dos outros na próxima contenda autárquica e pelos vistos, ainda vai passar pelos interesses de gente que acha que por ali ainda os tem, e este sujeito que assim desbaratou o dedo em tribunal, é um deles, apesar de o tribunal ter dito que sim, que tudo pode começar, embora me tenha parecido que o Sr. Presidente da Câmara não tenha ficado muito folgado. Então para acabar, eu atrevo-me a dizer que se calhar mais rápido fica um cidadão sem um dedo da mão do que a cidade com o tal complexo e, por isso, se trata de facto de coisa complexa.

... com que a força da vida

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Não me desuno nem abjuro recordações muito precisas. A factura está a ser bem alta. (Crónica em desalinho)

por Augusto Alberto


Em 1974 viajei de comboio, via Paris, para a União Soviética. Começou aí uma experiência de que não me arrependo. Viajamos numa companhia, wasteles, de triste memória. Sem água e aquecimento tornou-se uma tortura, sobretudo a viajem de regresso, rente ao Natal. A passagem dos Pirenéus foi dolorosíssima. Os nossos emigrantes, com escassos meios, utilizavam este comboio, com carruagens como se de choças se tratasse. Escravatura, em comboio de brancos. Uma desumanidade!
Da União Soviética tenho recordações muito precisas, embora, apesar de ser um jovem e estar naquele momento na procura de uma maior informação, já pressentia que as coisas não iam bem. Este lado estava a ganhar a batalha e por lá a atrapalhação era um facto. Breznev tinha percebido, mas sobretudo Andropov, só que este viveu pouco, muito pouco para obrigar a produzir os efeitos desejados. Chegou essa figura melíflua, Gorbatchev, que a história haverá de qualificar. É só esperar.
Recordo desse período de 1974 raros momentos, como a minha única experiência ao vivo, na ópera, no grande teatro Bolchoi, a Cármen. O lago dos Cisnes e o fabuloso D. Quixote no Palácio dos congressos. Os concertos no teatro Pushkin, ali ao vivo, a 9º sinfonia, que me deixou colado à cadeira. O fabuloso espólio da galeria Tetreakov. E do ponto de vista desportivo, escasso dias antes de regressar, uma visita ao torneio do jornal Novidades de Moscovo de patinagem no gelo. O par, Irina Rodnina, Alexandre Zaitzev, campeões olímpicos multiplas vezes, em preciosas linhas curvas e saltos fugazes, bem como essa elegantíssima Mossaiewa, vindo do ballet clássico do Bolchoi, de desenhos plácidos. John Carre, um notável patinador inglês que naquela noite patinou delicadamente, deslumbrou e derreteu corações, apesar de patinar no gelo.
Em 1980, assisti pela televisão aos Jogos Olímpicos de Verão, em Moscovo. A União Soviética tudo fez nesse momento para dar andamento a pretensões de maior modernidade, mas decisões discutíveis, suicidas, atrevo-me a dizer, permitiram o apertar da tenaz. Desses Jogos, recordo na cerimónia de encerramento, aquela última lágrima a descer pela face do urso siberiano Misha. Um adeus! Um prenúncio da desgraça que por aí haveria de vir.

E num dia desses ouvi comentários do embaixador reformado, José Cutileiro, que um dia poderá explicar que técnicas se usam para desmembrar um país, como a Jugoslávia, a propósito das manobras conjuntas da marinha russa e venezuelana precisamente em águas venezuelanas, que a marinha russa de hoje está bem longe da grande marinha soviética. Sublinho, grande. Fogo-fátuo e decadente, sublinhou. Também um jornalista russo em entrevista há bem poucos dias, reafirmou que a Rússia é hoje um país de terceiro mundo. Deserdada, com vasta imoralidade, falta de auto estima, etc, etc. Tudo o que qualifica as misérias. E eu estou à vontade porque conheço o verdadeiro fracasso da equipa olímpica russa de remo. Dirigentes e atletas envolvidos sofregamente no álcool e a deitar mão da dopagem para poderem sobreviver desportivamente num mundo física e tecnicamente muito exigente. De tal modo foi a humilhação, que na hora de colocar o barco na água para iniciar a competição, foram impedidos pelas autoridades desportivas. Um autêntico fracasso desportivo e descalabro moral. Exactamente tudo aquilo de que era acusada a ex-União Soviética, onde nada disto era possível, apesar de sérios equívocos, que se continue a reafirmar.
Nunca mais voltei à Rússia, mas tenho bem noção desta hecatombe moral, ética e social. Talvez um dia eu vá por lá confirmar imagens de gente, muita dela jovem, em farrapos, que dorme nas avenidas das grandes marcas que fazem do absurdo consumo o alfa e o ómega da sociedade contemporânea, por isso, hoje, completamente zonza, tal como eu no penúltimo dia do ano de 2008, quando pelas cerca das 9.00 passeei pela baixa lisboeta, no dia em que fui à capital tratar da minha aposentação e vi muita gente a dormir enrolada em cartões, pasme-se, por baixo das arcadas do teatro Nacional D. Maria e na sala de visitas do Terreiro do Paço, local de ministérios, protegidos da chuva e do frio. E se já não bastasse, aquela baixa que eu já há muito não visitava, de modo tão sorrateiro, desde que deixei Lisboa e regressei à minha terra natal, suja, e imunda. Aquele arco da rua Augusta, negro. Um pavor, como a vida daqueles que dormem enrolados por trapos e cartões. Uma capital que me parece governada sem paixão e amor. Apetece perguntar, oh povo, oh capital, de que pátria sois?
Democratas e liberais de agora, tenham vergonha, porque já vai sendo tempo. E não me venham com merdas, porque eu não me desuno nem abjuro recordações muito precisas. A factura está a ser bem alta.