quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Ella

Ouvindo Ella Fitzgerald

noite calma e pacífica. Tão velha
de milénios, porém sempre nova e única.
certamente que lá fora, na túnica
inconsútil, rebrilha uma centelha

da minha insólita estrela. (é tão fumo
já, na memória fria…). Aqui, joga-se,
enquanto, Ella, pastosa e doce, afoga-se
em nós. É assim, meu caro, teu rumo

na vida. E é bela! Conquistada! A prumo!
com o sol… no horizonte prometido…
é seca a tua fonte? – Sem sentido

seria, se de linfas mortas fosse…
é fervente, acre, com teu sangue e sumo
de fel? – É tua! Por isso te é doce





segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Há uma Ingrid que nunca me enganou

por Augusto Alberto

Ora cá está. Nunca me passou pela cabeça ver numa fotografia, Ingrid Bettencourt a banhos. Aliás, deixem-me dizer, roliça de carnes. Sim senhor… Os meus parabéns.
Mas essa fotografia remete-me para lembranças passadas, de há muitos anos, em que convivi com gente da América Latina. Brasileiros, do tempo dos generais, que me falaram da pilhagem e das torturas, talvez a mais famosa em toda a região, o pau-de- arara. Aliás, do Brasil ainda é recente a morte dos meninos pobres na Igreja da Candelária às mãos de esquadrões da morte, pagos por gente que detestava ser incomodada. Com argentinos, com quem mantive uma relação tão afectuosa que me foi difícil despedir para sempre, recordo histórias da repressão da ditadura dos coronéis. Violentíssima! Era comum despachar os resistentes empurrando-os dos aviões para o oceano. Aliás, prática utilizada pela Pide em Moçambique, para fazer desaparecer quadros da Frelimo em pleno Indico. Não vale tirar o cavalo da chuva, nem esquecermos este pedaço da história Pátria. Da Argentina fica e ainda persiste o movimento das mães e esposas da Praça de Maio, sempre na sua pergunta pelos filhos e maridos, e constantemente sem respostas, como é óbvio. Mas as histórias do Chile estavam frescas, muito frescas. O Chile ainda estava zonzo da barbárie. Aliás, é bom recordar a passagem de uma figura sinistra, que por lá e por cá passou, amigo de gente de bem, especialista em trabalho soturno, para o qual esteve sempre talhado, e bem. Carlucci, personagem também dessa coisa suez que é a história do Freeport de Alcochete. Os coirões sempre confluem no mesmo tempo e espaço.

Do Chile, contaram-me histórias de rara violência. Enjaulado no grande estádio de Santiago, falaram-me da tortura sobre o cantor Victor Jara, decepado até à exaustão. A procura casa a casa e o abate a frio sem resistência. Neruda morreu breve. Mas espantoso foi o modo como me foi explicado a preparação do golpe. Num dado momento todo o sistema de transportes foi parado e damas, que nunca tiveram fome, antes pelo contrário, durante muitos anos viveram no desperdício, sentiram naquele momento um vazio no estômago e desataram em hora marcada a bater com os testos dos tachos e panelas no chão das ruas e avenidas em sinal de protesto pela fome que passava. Uma variante macabra dessa tenebrosa oligarquia.
E agora paro eu e deixo Neruda falar, para sublinhar a verdade.
- O Chile tem uma longa história civil…e só dois grandes presidentes, Balmaceda e Allende.
- Allende foi assassinado por ter nacionalizado…o cobre… a oligarquia chilena organizou revoluções sangrentas… As companhias inglesas no tempo de Balmaceda, a norte – americanas no tempo de Allende, fomentaram e apoiaram esses movimentos militares.
- Nos dois casos, as casas dos presidentes foram esvaziadas por ordem dos nossos distintos “aristocratas”.
-Escrevo estas rápidas linhas para as minhas memórias apenas três dias sobre os factos inqualificáveis que levaram à morte o meu grande camarada: o presidente Allende.
Pouco tempo depois de ter redigido estas linhas, escritas num livro a que genericamente se deu o título, “Confesso que vivi”, Neruda morreu cansado e triste, mas dessa feita no dia do funeral a tropa sossegou e permitiu que tudo acontecesse, em paz. Mas antes de terminar, quero lembrar a quem anda distraído ou sem memória, que, como aqui conto, houve um outro 11 de Setembro, antes do 11 de Setembro das torres gémeas. Foi precisamente o do Chile em 73. Para os efeitos, convêm esquecer o primeiro. Pois é! Desiludam-se aqueles que acham que a natureza do império vai agora mudar.
A Ingrid foi a banhos e apresentou-se-nos suculenta após tempo em que esteve quase às portas da morte, disse-se, mas não sei se ela sabe que a Colômbia continua como o Chile de Pinochet. O que acho é que para ela tanto faz, logo que os banhos lhe saibam bem…

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Pedro Ferreira mais longe


O atleta da Sociedade União Operária, Pedro Ferreira melhorou em Dezembro último o seu próprio record nacional de triplo salto, na categoria de iniciados, ao pisar o solo 12,89 metros após a chamada. Foi 49 centímetros mais longe que a anterior marca. No mês passado Ferreira estabeleceu a melhor marca do ano, mas já na categoria de juvenil, aterrando a 13,32 metros de distância.
O mesmo atleta bateu também o record do salto em comprimento, ainda na categoria de iniciado, colocando a marca em 6,45 metros, que, enquanto juvenil, constitui a segunda melhor marca do ano.
Com uma margem de progressão bastante grande, segundo o seu treinador, prof. Fonseca Antunes, Luís Ferreira tem como objectivo imediato o apuramento para os Jogos Europeus da Juventude que se realizam em Junho próximo. A tarefa não é fácil, diz-nos Fonseca Antunes, pois Luís Ferreira é juvenil de 1º ano e vai competir com atletas já no segundo ano de juvenil.
Será que Álvaro Dias terá sucessor? O futuro nos dirá.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Cada um tem o Freeport que merece (croniqueta de fim-de-semana)

A propósito do caso Freeport (onde alguém estará enterrado até as orelhas, mas como se deve calcular, não haverá culpados, não estivéssemos nós num país onde a culpa morre solteira, pelo menos a partir de um determinado extracto bancário) lembrei-me de um outro caso, na Figueira da Foz que vai ilustrando este texto (as fotos são actuais), e que só por mera coincidência terá algo em comum com o atrás referido.
Conta-se em duas penadas. Aí vai:
O Plano de Urbanização (PU) estava suspenso em duas freguesias, na de Lavos, freguesia rural no sul do concelho, e na zona urbana.
Acontece que o prazo de suspensão caducou na Figueira da Foz, muito provavelmente por distracção, por incompetência, ou mesmo porque os timings das negociatas não incidiram bem na coisa. Certo é que o presidente da edilidade chegou a ser constituído arguido. Mas “pas de problème”, terão pensado os senhores da Confraria do Bitumen. E, por artes mágicas, porque isto de corrupções e xico-espertismo devem ser do reino da ficção, lá desvendaram uma solução. Nem mais: utilizaram a suspensão do PU para a freguesia de Lavos, pois ainda estava vigente. Já a venda daqueles terrenos a privados revestiu-se de contornos um tanto nebulosos.
Apercebendo-se desta tramóia os eleitos da CDU na Figueira da Foz fizeram as démarches que tinham a fazer. Dois dirigentes locais do PCP dirigiram-se ao Ministério Público e ao Tribunal Administrativo de Coimbra onde as suas queixas tiveram uma recepção favorável. O problema terá sido encaminhado como processo administrativo e não como processo-crime e lá seguiu os trâmites normais e legais.
O blogue “Outra Margem” seguiu atentamente o desenrolar desta questão, como pode ver aqui. Não será caso único, há mais atentados em preparação, como o dos antigos terrenos da Alberto Gaspar Lda., ou mesmo o do campo de jogos da Freguesia de S. Pedro, a este último já me referi, aqui e aqui, para não falar noutros apetites que por aí andam vorazes, como os terrenos da Várzea de Tavarede ou o parque desportivo de Buarcos. António Agostinho, no “Outra Margem”, tem chamado a atenção para alguns destes atentados urbanísticos.Bem, continuemos na senda da queixa dos comunistas. Que chegou a Lisboa. Ao Supremo Tribunal Administrativo. Só que chegada aqui, finou-se, fim de viagem. Foi arquivada por falta de "matéria provatória". O que se soube é que a autorização para se passar por cima do PU e utilizar o de Lavos veio directamente do Gabinete do 1º ministro.
A coincidência entre os dois casos será mínima, ou como é suposto, mera coincidência, naturalmente.
Este ano é um ano de eleições autárquicas. A Câmara da Figueira será, como habitualmente, disputada por PS e PSD. Donde se conclui que os figueirenses não terão escolha possível, irão ter mais do mesmo. Depois de anos e anos, desde o “25” até 1997, com os “socialistas”. Depois com os “sociais-democratas”, com a retumbante vitória de Pedro Santana Lopes, até à data actual. E nada mudou. A “coisa” manteve-se perenal. Aliás, é perene.
Até um dia.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Os senhores do mundo... e arredores


Já aqui escrevi sobre a famigerada associação semi-secreta de malfeitores conhecida por Clube Bilderberg, sobre o qual um jornalista canadiano, Daniel Estulin, escreveu uma extensa obra, “Clube Bilderberg: os senhores do mundo”. O livro foi editado em Portugal mas houve pressões, e é a razão deste post, para não se tornar a fazer reedições, o que acentua de certa maneira o cariz um tanto ou quanto secreto da pandilha. O certo é que não foi novamente editado. Em pleno século XXI, no Portugal do socialismo moderno e socretino, aí temos o neo-liberalismo em todo o seu esplendor. Até a censura tem outros meios e modos. Ainda dizem que não há progresso.
Ai vão alguns extractos da obra:

“Manter a maioria da população num estado contínuo de ansiedade interior funciona, porque as pessoas estão ocupadas, assegurando a nossa própria sobrevivência, ou lutando por ela, assim como, para colaborar na constituição de uma resposta eficaz. A técnica do Clube Bilderberg, repetidamente utilizada, consiste em submeter a população e levar a sociedade a uma forte situação de insegurança, angústia e terror, de maneira a que as pessoas se cheguem a sentir tão transtornadas, que peçam, aos gritos, uma solução, seja ela qual for. Explicarei detalhadamente neste livro como aplicaram esta técnica com as faixas nas ruas, as crises financeiras, as drogas e o actual sistema educacional”.

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Com respeito ao âmbito educativo, também é imprescindível dar a conhecer que os estudos realizados pelo Clube Bilderberg demonstram que conseguiram baixar o coeficiente intelectual da população, obrigando principalmente a redução da qualidade do ensino”.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Mea culpa

Achei justo um comentário de um anónimo no post anterior. Há erros que se podem justificar e erros indesculpáveis.
Tentei tão só relembrar que a Paz, para os angolanos, teve um preço exacerbado: o de ter caído no seio do império. “Desconsegui” e reconheço-o.
Apesar de continuar a ser simpatizante do MPLA, é claro que não me revejo neste “MPLA”. No do Dos Santos, do Amorim das Cortiças e de outros nababos, portugueses e não só, que nada produzem e “comem tudo”. Que dominam, controlam, sugam, apoiados por uma burguesia local, reduzida, endinheirada e apoiada pelo capitalismo internacional.
A situação não é estranha, só para quem anda distraído, já que, ainda nos anos 80, em plena guerra, o “MPLA” assistiu pela primeira vez, embora como observador, a uma reunião da internacional socialista. Significa isto que a ocidental democracia, o imperialismo, lá foi dando a volta por cima, tendo depois deixado cair o seu grande cabo de guerra, Jonas Savimbi. Lembro, também, já que estamos em maré de lembranças, que os que agora se dão muito bem com Dos Santos se davam muito bem com o homem da Jamba, até chegaram a cair de uma avioneta abaixo e tudo.
Apesar disto, vale e valeu a pena a paz, vale sempre, mas, repito, teve e tem um preço muito alto. Que os angolanos não merecem pagar.
Mas mesmo assim, um qualquer Almada angolano poderá escrever: “ao menos isto passa-se numa terra de mulheres bonitas”.
“Putaqueospariu”.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Miss Angola 2007


Micaela reis

4 De Fevereiro


Angola – Hino Nacional

Oh Pátria, nunca mais esqueceremos
os heróis de 4 de Fevereiro
Oh Pátria, nós saudamos os teus filhos
tombados pela nossa independência

Honramos o passado e a nossa história
construindo no trabalho o homem novo
Honramos o passado e a nossa história
construindo no trabalho o homem novo

Angola, avante!
Revolução pelo poder popular
Pátria unida, liberdade
um só povo, uma nação.

Levantaremos nossas vozes libertadas
para glória dos povos africanos
marcharemos combatentes angolanos
solidários com os povos oprimidos

Orgulhosos lutaremos pela Paz
com as forças progressistas do mundo
Orgulhosos lutaremos pela Paz
com as forças progressistas do mundo






Hoje comemora-se uma das datas mais importantes da História recente de um país recente.
Foi a 4 de Fevereiro de 1961 que se deu início à luta armada em Angola, depois de Oliveira Salazar se ter sempre negado a negociar ou entrar em conversações com os nacionalistas. Foram 14 anos de luta, que para o povo angolano se prolongaram por mais alguns. Hoje, pelo menos, há Paz.
A evocação da data fez-me recordar um poeta, meu conterrâneo. E revisitar páginas de Jorge Amado. Aqui.

Foi a estiagem/ E o silêncio depois

por Augusto Alberto


Numa madrugada radiosa de África, foi um grupo de seis furibundos fundistas, numa carrinha de caixa aberta, sentadas em cadeira de pau, atadas aos taipais de madeira, para percorrer, ir e vir, 400 km, ora por estrada asfaltada, ora por picada, numa relação meio por meio, embrulhados em pó e sede, rumo à vila do Mussuril, terra sem estrada asfaltada mas com uma longa avenida em terra batida que desaguava no majestoso Índico. Um local idílico e celestial. Outras picadas se uniam a essa enorme avenida, e por ali se fez o grande prémio da Vila em atletismo. Escusado será dizer que essa equipa de fundistas ida da cidade capital provincial, Nampula, sem descanso e sôfrega por água, foi “esmagada”sem apelo. A equipa do “pé descalço” do Mussuril, foi formada por nativos recrutados e treinados por uma personagem parda, um alto quadro do governo “provincial”, apaixonado pelo atletismo e em particular pela área dos lançamentos, dado que era homem alto e forte. Dado de barato o resultado, sem importância, fica-me o gozo de ter participado em tamanha aventura e experiência.
Mais tarde esse alto quadro foi colocado em Nampula e logo tratou de preparar um triangular, disse-nos, Moçambique, Rodésia, Malawi. Para formar a equipa de Moçambique, tratou de recrutar os seus atletas do Mussuril e colocá-los na cidade de Nampula em condições indignas e encarregou-me de os enquadrar e treinar do ponto de vista técnico e físico. Um dia, deparei-me com a recusa ao treino. Perguntei-lhes porquê? Muito justamente, tinham fome e desejavam voltar à sua terra. O alto quadro não estava a cumprir o seu papel de acolhimento, como era então usual à época e no lugar. Sosseguei-os e garanti-lhes que iria tratar do assunto. Dirige-me ao senhor e indiquei-lhe que teria de assumir o compromisso tido com aquela gente, que para ele, evidentemente não seria, e o mais adequado era de imediato dar-me dinheiro para que o pudesse levar às pessoas para poderem comprar o seu alimento tradicional, arroz e peixe seco e de seguida devolve-las à sua terra, porque não era possível continuarem daquele modo abjecto e o triangular parecia-me ser uma treta. Mas não foi. Foi o modo da personagem engrossar mais um pouco à custa de dinheiros públicos. Este jeito já tem barbas. Tudo acabou de modo breve.

Quero aqui dizer que Moçambique basicamente não tinha indústria transformadora, mas possuía já na altura, estruturas pesadas, portos de águas profundas, como os de Lourenço Marques e Beira e uma longa rede de caminhos-de-ferro. O comboio transportava os recursos naturais e os portos tratavam do seu escoamento para o Mundo. Nesta matéria, é bom dizer, muitos dos recursos naturais nem pela “metrópole” passavam, rumavam direitos a outras paragens. E do respeito pelas pessoas, como aqui dou nota, uma falácia.
Se darem por esta realidade, a qualidade de vida das classes alta e média, ocidental e da Europeia em particular, foi feita à custa dessa bravata colonial, feita da sistemática, cruel e nunca assumida pilhagem. Armando de Castro fala-nos dessa realidade na sua obra, o sistema colonial Português em África. Aliás, é bem sabido como os quadros da administração colonial inglesa eram de fina linhagem e é bom não esquecer a cruel política, feita através do método da canhoneira, executada pelos americanos em toda a América Latina, ou quase toda. Fica de memória a exploração petrolífera e mineira, e recordo aqui, muito em particular, a bestial política negreira da United Fruits, que enriqueceu à custa do trabalho escravo. Boa parte desta classe média sempre educada a olhar para o seu umbigo e sistematicamente convencida de que vive de modo celestial, está hoje à rasca e tonta e novamente sem perceber nada mas sempre disponível para embarcar nos cantos do primeiro trauliteiro que lhe apareça.
Ao que se diz a crise de hoje não é da produção nem dos mercados, mas da especulação financeira sobre a riqueza criada. Talvez assim seja, mas também me parece que as dificuldades em pilhar os recursos naturais são hoje maiores. Alguns países e povos sistematicamente pilhados, começam hoje a dar sinais de querer comandar os seus destinos, apesar de multiplicas dificuldades e contradições. Oxalá vingue…
Quero acabar, com as palavras do título, citando uma bela poesia de Mário de Andrade, para que, ao contrário das palavras, no contexto da época, se fale para sempre:

Foi a estiagem
E o silêncio depois.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Esse Agostinho do nosso contentamento

por Augusto Alberto

Esse Agostinho do nosso contentamento, vitima já aqui o disse, de uma violenta queda motivada por atropelamento a um cão, deixou o país órfão de um dos seus mais admiráveis talentos desportivos. Nenhum desportista deu razões para tantos e tão brilhantes relatos dos seus feitos. Pela mão do talento de um jornalista desportivo de “a bola”, Carlos Miranda, que descreveu de modo delicioso o mourejar pelas “Franças” de um português singular, errático, bondoso, fiel, quase escravo dos compromissos assumidos, sem escola e impreparado para vencer num mundo já na altura muito disputado, que fez de Joaquim Agostinho, um não atleta de alta competição. Esta requer a conjugação de um conjunto de valores só ao alcance dos que não hesitam. Por isso é que alguns são campeões olímpicos e a outros só o levantar da “caminha” logo pela manhã, faz dores de barriga. Não tem que saber.
Está-me na memória, as inúmeras vezes em que Agostinho deu a alta competição de barato, pela obstinada consciência solidária.
Saído da guerra em África, aventurou-se tardiamente pelas dificuldades do ciclismo. Aportou a França e logo no primeiro Tour, deixa a imagem de um colosso físico. Era então tecnicamente um podão. Numa das etapas do seu primeiro tour, em vez de correr no asfalto, cruelmente cortou por valetas de rompão, desfaçelado e em sangue, cruzou a meta com a sua bicicleta às costas. No dia seguinte lá estava para continuar. Para espanto, consegui ficar no top 10 dos eleitos. Voltou, fez pódios várias vezes, e fica para a história como o único capaz de vergar Eddy Merkx, ainda o maior ciclista de todos os tempos, mesmo no terreno em que era imperial, o contra relógio. Aqui quero recordar duas geniais etapas em que se portou como um homem bom e não como um atleta de alta competição. Numa daquelas míticas etapas de que é feito o tour, depois de ter deixado apeado Eddy Merkx, os minutos já eram muitos a seu favor, resolveu apaixonadamente esperar pelo campeão. Miranda perguntou-lhe no final da etapa, o que é que lhe tinha dado para assim entregar a etapa e provavelmente a vitória no Tour. Disse-lhe:- um campeão merece respeito. De outra feita, o fabuloso Gimondi, o grande campeão Italiano, desesperava por alimento, dali já não era capaz de ir. Esgotado Gimondi, Agostinho seu companheiro de fuga, sempre solidário, passou-lhe o seu alimento e deixou o italiano continuar e Agostinho como é bom de ver, ficou-se. Um colosso! Era assim e não admitia réplicas.
Multiplas vezes enganado e roubado, raro reagiu violentamente, e era homem para deitar abaixo qualquer um. Foi roubado na última etapa de uma volta à Suiça que comandava, porque lhe deram a informação, premeditadamente errada, relativamente ao tempo da fuga que corria, e que deixou Agostinho sossegado no meio do pelotão convencido do controle das operações. No final da etapa, um suiço acabou por amealhar o mísero segundo que lhe permitiu ganhar na sua terra. Fora enganado, mas nem por isso se exasperou. Também enganado numa volta à Espanha que comandava, exactamente com uso da mesma estratégia, que permitiu a um espanhol ganhar em suas estradas. Foi lugar-tenente ou o segundo, de gente sem arcaboiço para resistir às agruras de voltas medonhas como são o Tour, a Vuelta ou o Giro, como no ano em que foi segundo de “Perico”, Pedro Delgado e lhe foi fiel até ao dia em que este desistiu por exaustão física. Ficou Agostinho, mas já tarde para galgar minutos. Miranda perguntou-lhe porque não atacava e Agostinho respondeu-lhe: - pagam-me para fazer o trabalho de “o” levar e eu respeito em absoluto esse compromisso. E quando foi ele o chefe de fila, ironicamente, nunca teve equipa para o ajudar. Era ele sempre quem dava a cara e o corpo, porque dos outros não reza a história.

Fica-me desse tempo a admirável vitória no troféu Baracci, troféu com nome de um italiano comendador, homem rico e apaixonado por bicicletas. O troféu tinha uma única etapa num contra-relógio a dois, de 120 km e Agostinho fez dupla com um belga, rolador excepcional, de seu nome, Van Springel. Contou que quando Agostinho amochava a cabeça no guiador não havia meio de o fazer acalmar para que ele, Van Springel, fizesse o seu natural trabalho de divisão do esforço. Gritava-lhe, mas Agostinho não tinha ouvidos, só tinha pernas. No final Agostinho disse que não estava para mariquices. Foi uma retumbante vitória.
O drama de Agostinho teve o país suspenso mais de um mês. Era um homem bom, o português ingénuo. Só a espaços se chateava e nesses momentos a coisa ficava preta. Deu de nós a melhor imagem colectiva de Povo, de mourejadores, sofredores, capaz de aguentar quase até à exaustão, canalhas, trapaceiros, bufarinheiros e corruptos e incapaz de dar umas guinadas e rebelar-se. Não deveremos esquecer Agostinho, tivesse cultivado a tempo a alta competição, teríamos nele o maior desportista de sempre e por muitos séculos. Esperemos também que como Povo, saibamos ser em toda a plenitude, porque já vai sendo tempo.

sábado, 31 de janeiro de 2009

O país dos cães abandonados

por Augusto Alberto

Numa fatídica volta ao Algarve em bicicleta, Joaquim Agostinho, atleta dos nossos contentamentos, atropelou um cão vadio, caiu e bateu com a cabeça no chão e apesar de muito combalido, ainda arranjou forças para acabar a etapa e depois de a ter acabado, acabar no hospital, acabando por entrar em coma violento e acabar morrendo para nosso desconsolo. E eu por esses tempos, claramente muito mais novo, correr diariamente 30 km, era coisa consensual e sem leve esforço. Levíssimo este rapaz. Um dia numa dessas corridas pela lindíssima Serra da Boa Viagem, porque foi antes do arrasador fogo de 1993, decidi mudar de rumo, alterar o trilho e experimentar passar por lugar diferente e inabitual. Meti por vereda abaixo, com o plano oceano, a lindíssima enseada de Buarcos e a cidade, sempre em frente aos meus olhos. E eis que num dado momento sou obrigado a estancar porque ao caminho me saíram dois corpulentos cães doberman. Claramente assustado, parei sorrateiramente em frente ao portão do quintal da habitação que os cães guardavam. Sem me mexer e rezando à minha sorte para que os bichos não perdessem a tramóia e compostura, fiquei sossegadinho, sem um movimento, para além do acto autónomo da respiração. Os cães devem ter percebido que afinal eu não era ladrão, atenciosos, ficaram sentados sobre as patas traseiras com os olhares ferrados em mim. Passados curtos minutos, mas longos para o efeito da libertação, decidi arriscar sair dali e comecei pé ante pé a recuar calmamente, até atingir a estrada principal, de que nunca me deveria ter apartado. Os cães sempre vigilantes, educados ou com pena, sem esboçar qualquer intenção violenta, quando chegados à estrada, despediram-se e eu respirei fundo e retomei o que faltava para acabar os 30 km da corrida diária, em paz e sem mais contratempos. Estes cães não eram vadios, estavam superiormente educados, fizeram o seu trabalho de modo enxuto e para meu consolo, sem pinga de sangue, o que a verificar-se, ter-me-ia sido fatal. Foi o meu maior susto em dezenas de anos, muitos, de corridas, ainda que por ora esteja a ser vítima de outras sociais ferradelas.
Nos dias de hoje, vá-se lá saber, a cidade e as freguesias que eu percorro a pé ou bicicleta, porque o automóvel é bicho que me não assenta, está infestada de cães abandonados e por isso vadios. Alguns bem tratados, ainda com coleira nova, a dizerem-nos que os donos se fartaram. Talvez porque o dinheiro já não chega para as sopas da família, que fará para a ração do cão e então, rua. Talvez porque o estado de ética e empenho moral das pessoas esteja a ser levado, como o mar cão, em dia de temporal, leva a areia da praia. Não sei…O que sei é que esta pátria está a ficar exaurida e por essa causa, a perda de referências sociais são também uma evidência, e por estas razões os cães também são obrigados a pagar a crise, tal qual os humanos donos. Mas tenhamos calma, porque neste entretanto, nem todos somos iguais, tal como os cães, cirandam para aí uns que são mais, muito mais cães do que outros. Há uns cães que se enroscam em tapetes, alguns persas, será? Outros que repousam o focinho em fofas almofadas, outros ainda rosnam de sono em sofás espampanantes. Outros, que sabemos nós, outras riquezas têm como por exemplo, cobram a sede bebendo champanhe em finas taças. São os que eu chamo de cães “pavlovianos”, porque salivam mesmo de pança cheia.
Mas os rafeiros e os abandonados, sofrem, porque primeiro sofrem os donos, que socialmente abandonados, correm com os cães para as estradas e veredas deste país. E eu, apesar de cidadão respeitoso e de ter levado um susto há mais de vinte anos, de volta e meia, ainda hoje, levo com cães às canelas e por isso ainda me assusto. Não sei que mal eu fiz, porque o raio dos cães não me largam. E a vós? Será que a sorte é a mesma? Será que a sorte que acompanhou Joaquim Agostinho naquela fatídica volta ao Algarve em bicicleta, acaba por ser a sorte que nos está permanentemente a acompanhar? A ser verdade, então deixai que vos diga que vai sendo tempo de ir à procura de outras sortes.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Pronto. Estou desolado

Estou completamente desolado pelo facto de o "anónimo neo-liberal" não ter comentado os últimos posts aqui publicados.
Será por estar embatucado porque o chefe está a ser descoberto? E será solidariedade ou é tão sério quanto o chefe? Ele (o chefe) falou há pouco na TV sobre aquele caso do... do... free qualquer coisa, pronto, e não disse nada de concreto. Pelo menos algo que eu entendesse, nada. Tergiversou quanto pôde, e, diga-se em abono da verdade, tegiversou talqualmente um artista em cima de um trapézio. Foi espectacular, o chefe. Quase diria que gostei.
Um dia destes falo do referendo na Bolívia, pode ser que o distinto anónimo, agora embatucado, volte a deixar por cá um comentário. A não ser, bem entendido, que o senhor tenha começado a comentar em blogues ingleses. Nunca se sabe, mas que tinha piada, lá isso tinha.
Agora dou asas à minha imaginação. E imagino, por exemplo, que o "anónimo neo-liberal", pensando no chefe, solte uma expressão talqualmente igualzinha a um verso de um poema de António Botto: "Enfim, gosto".
Vai daí também o senhor Vital Moreira iria fazer um blogue em inglês. Admiravam-se? Para defender o chefe, vale tudo. Ou não?

Um azar nunca vem só…



José Freeport, perdão, José Sócrates, o já inefável primeiro-ministro de Portugal, anda mesmo em maré de azar. Problemas jurídicos e familiares. Daqueles, ele são as autoridades inglesas a darem-no como suspeito, estes sucedem-se, é o tio não anda bem da carola, é o primo que está na China, diz-se que em recolhimento espiritual. Pronto, há recolhimentos desses muito oportunos. E doenças da carola também.
A modos que para minorar o sofrimento do nosso primeiro, e como solidariedade, pois também é necessária, aqui vos deixo um link para verem(lerem) uma resenha do que foi a sua perfomance na acção governativa durante este mandato que está quase-quase a finar-se.
Porque é bom, e importante, relembrar. Pode evitar que cometamos o mesmo erro.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Isto está a pedir uma varada

por Augusto Alberto

Está mau tempo por todo o País e nesta tarde apetece-me reflectir sobre pequenas coisas do quotidiano da semana. E a primeira é sobre a possibilidade de um cão de água Português ser o cão eleito para a Casa Branca. Magistral! Ocorre-me o comentário de que estamos em boa verdade perante um presidente americano um pouco mais culto do que muitos dos seus concidadãos, que por regra bolça verdadeiras e vastas baboseiras. Este, enfim, sabe que existe um país nesta costa ocidental, bem mais velho do que o seu e de história, ao que se diz, também imperial, que se chama Portugal. Americanos, não raro, referem-se a esta pátria como não conhecendo ou como uma província de Espanha. Ainda não é razão suficiente para eu apreciar o homem, eu sei, mas com outras tantas como esta, sou capaz de me entusiasmar e quem sabe se não mudo a visão das coisas. Por oposição, e confirmando a tal sábia ignorância de muitos americanos, ocorre – me reflectir também que o anterior presidente do império deverá enfileirar no número dos distintos analfabetos, porque para além de se ter esquecido dessa figura que completou um bando a 4, Durão Barroso, foi o único que não levou “chapa”, pelos actos bondosos a favor das terrificas guerras, ainda por cima se lhe referiu, como “Borroso”, se lhe somasse outra gafe, ainda dirá, para mim, com todo o propósito, “ranhoso”, e me parece tão só que os Açores lhe pareceu uma sua quinta, ou sei lá, mais um estado do Império. Que digo eu.
Mas como em bom pano pode sempre cair uma mancha em dissonância, porque alguns defeitos esta pátria haverá de ter, no meio de tantas santas virtudes, meninos por aí, fizeram gazeta às aulas porque o frio lhes entorpecia os ossos. Apetece-me dizer que cá para mim, o Ministério, avaliado, chumbava já sem discussão e sem grande perda de tempo com reuniões e outros tantos trabalhos burocráticos, mesmo contra a vontade daquele grupelho, que no beija-mão, se reuniu em conclave no Largo do Rato. Era canja…
Mas não se julgue que estas coisas são novas, ressalvando a admirável história do cão de água, que um dia poderá ser presidencial cão, não me recordo de outra semelhante, então eu quero aqui socorrer-me de palavras sábias de um distinto português, este Obama não conhece de certeza, Eça de Queirós. O que disse, então? Passo a citar, das suas crónicas de uma campanha alegre, escrita a meias com outro Português insigne, Ramalho Ortigão, para as “farpas”.
…a escola por si oferece igual desorganização… são na maior parte uma variante torpe entre o celeiro e o curral… nada torna o estudo tão penoso como a fealdade da aula. (Março 1872)
- O País está atrasado, embrutecido, remendado, sujo, insípido. (1871)
- Mas esse Povo não se revolta? – O Povo às vezes tem-se revoltado por conta alheia. Por conta própria, nunca. (1871)
- Um país geralmente corrompido, em que aqueles mesmo que sofrem não se indignam por sofrer. (Janeiro 1872)

Estas palavras têm 140 anos e ao que parece o sentido das coisas não muda e então pior fico, confirmando Eça, quando numa ronda pela imprensa diária me deparo com notícias das sabujices na pátria que nos pariu e que infelizmente nos deu esta gente carregada de imundice. De tão mascarrado, resolvo continuar em rede, na tentativa de me sossegar e aliviar e vou direito ao sítio do jornal “granma”, o jornal da Ilha, e deparo-me, enfim, com notícias decentes em país do terceiro mundo, que falam do reconhecimento por parte da Organização Mundial de Saúde dos notáveis avanços na área das tecnologias e dos cuidados sanitários na Ilha. Reconhecimento feito, aliás, pela Presidente da Argentina, Cristina Krichner, na sua visita a Cuba e ao seu instituto Finlay de biotecnologia.
E eu a julgar que no terceiro mundo só existem más noticias e que para ter boas, só no primeiro. Enganei-me. Ora porra!