segunda-feira, 29 de junho de 2009

Um prémio d’ Outra margem


O blogue “Outra Margem” atribuiu este prémio ao “aldeia olímpica”. Será sempre subjectivo saber se é merecido ou não.
Mas agradecendo desde já ao Agostinho, penso que o talento que o meu amigo Augusto Alberto, colaborador aqui da “aldeia”, revela na crónica, poderá dar um pequeno contributo para a sua justificação.
“O selo deste prémio foi criado a pensar nos blogs que demonstram talento, seja nas artes, nas letras, nas ciências, na poesia ou em qualquer outra área e que, com isso, enriquecem a blogosfera e a vida dos seus leitores”.
Agora a parte difícil, a de atribuir o prémio a sete outros blogues. Difícil porque, necessariamente, alguns terão de ficar de fora. Comete-se, assim, alguma, não propositada mas assumida, desculpo-me já, injustiça. Aí vão, pois, e por ordem alfabética:

domingo, 28 de junho de 2009

Afinal sempre há dia de eleições



Por uma vez Cavaco Silva lá cedeu ao bom senso. Penso que as teorias que defendem a realização das eleições autárquicas e legislativas no mesmo dia por redução de custos não têm razão de ser. Os actos eleitorais são necessariamente previsíveis, logo a república tem de contar com esses gastos, em nome do próprio regime democrático. Numa ditadura é que se poupa o erário público, uma vez que as eleições se realizam quando “eles” querem. Outro argumento seria, ou gostavam os defensores do acto simultâneo que fosse, a diminuição da abstenção. Também aqui penso que é uma treta, porque quem quer votar vota, quem não quer, não vota, seja no mesmo dia, seja noutro dia qualquer.
O que me parece pacífico é que são dois actos completamente diferentes. Nas autárquicas podem aparecer coligações que nas legislativas serão impensáveis ou, melhor, mais difíceis. Ou vice-versa. Ou o contrário.
Vejamos, por exemplo, este caso aqui na Figueira da Foz: os dois candidatos independentes à câmara municipal, da área social-democrata, o que concorre pelo PSD e o que concorre como independente, nas autárquicas vão ser adversários. E nas legislativas?
Daí a pergunta:
Dá para imaginar a esquizofrenia de uma campanha em que de manhã os candidatos estivessem coligados para a Câmara e lá mais p’rá tardinha já fossem adversários na outra campanha?!
Ou vice-versa.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Quando a cantiga é uma arma

Para o mais consequente discípulo de Zeca, Samuel, cantor e compositor, não é só a cantiga que é uma arma. Também o humor, utilizado com inteligência, seja subtil ou corrosivo, mas sempre elegante, se revela uma arma de construção massiva. Aliás, como pode ser testemunhado diariamente no seu blogue “Cantigueiro”. Ei-lo, pelo traço de Fernando Campos e, ao vivo e em pessoa, interpretando António Gedeão.
Ah, falta dizer que Samuel é candidato ao parlamento na lista da CDU pelo distrito de Évora. Aqui ele explica porquê.




Morra o Dantas, pim…morram estes economistas, pum…

Augusto Alberto


No Portugal dos manifestos, não será deste último, dos 28 economistas, + 2, de que gosto em particular, antes pelo contrário.
Esta gente aparentemente não se enxerga, antes pelo contrário, tomam frequentemente ares de presunção. Se olharmos para o caderno da história, dá ideia de que não acertam uma, mas que se saiba por aquela seita a taxa de desemprego é zero e também não consta que a seita tenha dificuldades para saldar empréstimos à banca, antes pelo contrário, também por esse caminho, fizeram da usura uma arma…como agora sabemos. Cada tiro, cada melro, porque esta gente nunca se engana.
Muita destas celebridades, de um modo ou de outro, passou durante estes 35 anos pelo poder político, teve alavancas importantes na mão, na banca e nos seguros, nas grandes empresas e ainda hoje são presidentes de coisas várias. E de todo o modo, volta e meia, dando ares de sábios e de consciência moral do regime, reflectem em conclave naquela coisa, parda, que dá pelo nome de “sedes”. Mas vistas bem as coisas, o seu contributo para a causa exangue da pátria, é um dado relevante.
De um modo muito assertivo, liquidaram tudo o que produzia, colocando a pátria na sofredora situação de quase tudo importar e por isso, na cruel dependência. Das suas cabecinhas engalanadas com os títulos de esfuziantes economistas e gestores, apostaram em liquidar, à conta dos superiores interesses da livre iniciativa privada, sem freio nos propósitos, e em clara missão de classe, por exemplo, com a nossa indústria pesada, de tal modo que hoje não temos siderurgia para fazer um simples lingote de ferro ou metalomecânica pesada que molde uma simples barra ou um simples perno que permitirá fazer os carris e demais apertos às sulipas, ou lamine uma simples chapa para fazer uma porta de uma carruagem dos comboios. Esta é a questão central, que se não deverá esquecer.

Vieram agora, depois do nosso 1º ministro passar a cordeiro, acabaram por agora os pinotes, e em muito manifesta sintonia com este Presidente da República, que mais parece um bocejo, mas que no privado, deve ser para a economista em falta no manifesto, a drª Leite, uma espécie de dedal para o dedo dela.
É por estas e por outras que neste mundo e muito em especial em Portugal, há uns que vão dando o corpo ao manifesto, outros que se aproveitam desse facto para se manifestarem mais do que todos e que manifestamente deveriam estar era caladinhos. Mas, de todo o modo, há um manifesto de que em especial gosto, “ o manifesto anti Dantas”, que com um pequenino arranjo, se lhes pode aplicar com todo o propósito, porque bem vista as coisas, a este bando dos 28 economistas + 2, o economista presidente e a economista putativa “leite”, são contra a modernidade e o futuro.
…Uma geração que consente em deixar-se representar por “28 + 2”, é uma geração que nunca o foi! É um coio d’indigentes, d’indignos e de cegos! É uma resma de charlatães e de vendidos, e só pode parir abaixo de zero.
Por isso, morra o Dantas, pim…morram estes economistas, pum…

quarta-feira, 24 de junho de 2009

"Gracias a la vida"


A senhora da foto nasceu em 1935 na Argentina, chama-se Mercedes Sosa. É conhecida por “La Negra” devido aos seus longos cabelos negros. Cantora muito popular na América Latina, tem um dueto com a cantora de samba Beth Carvalho, cada uma no seu idioma.
Aqui pode ouvi-la, numa sugestão da Sal, interpretando uma muito conhecida canção da autoria de Violeta Parra.

O bloco que o Bloco quer

"O manifesto de 28 economistas pedindo ao Governo que reavalie os grandes investimentos públicos é uma bomba política: pelo momento e pelo relevo dos protagonistas.
A novidade foi a reacção do Bloco de Esquerda: Louçã, talvez afligido por Vitalino Canas ter sido remetido para uma merecida obscuridade, liderou a defesa do Governo: increpou os autores de "ministros de pouca fama", insinuou manobras de "máfia financeira" e socorreu as grandes construtoras com um desvelo tal que o cheguei a imaginar, daqui a alguns anos, sentado entre Jorge Coelho e Dias Loureiro na administração de alguma delas.
Mas a causa imediata do achaque de Louçã deve ser outra – o Bloco já sonha em ir para o Governo com o PS, após as Legislativas, e convém ir mostrando serviço".


Carlos Abreu Amorim, Jurista (in Correio da Manhã, 22/06/2009)

terça-feira, 23 de junho de 2009

Um novo estádio para investir? (Croniqueta futebolístico-imobiliária)




Não sou propriamente um entendido em futebol. Nem sequer sou o que se chama treinador de bancada. Sou mais treinador de sofá.
Mas há dias, através de alguns blogues, tive conhecimento de que o presidente da Naval defendeu que “a falta de um estádio é o principal travão ao investimento”.
Como isto ultrapassa o real domínio do pontapé no coiro, atrevo-me a dizer que um novo estádio é, já por si, um investimento. E, no caso da Naval seria, na compreensão que tenho da coisa, escusado por vários motivos: primeiro, porque o actual, melhorado quando da subida da Naval à 1ª Liga, tem condições satisfatórias, tanto que ainda não há muito tempo foi palco de um jogo internacional. Segundo, a capacidade do estádio atinge os 12.000 lugares e, como é sabido, a assistência média por jogo não atinge as mil almas. Ao que julgo saber nem o FC Porto nem o Sporting o conseguiram lotar. O único que o consegue é o Benfica, mas com seis milhões de adeptos também era melhor que o não conseguisse. O azar é que o “glorioso” só cá vem jogar uma vez por época, duas se calhar uma eliminatória para a Taça de Portugal.
Agora, antes de pensar no que não faz falta, os navalistas deveriam ter duas preocupações. Seriam as minhas se fosse navalista. Sem as enumerar por ordem de prioridades, passo a citá-las:
A construção de uma sede social, porque desde o incêndio em Julho de 1997 nunca me apercebi de alguma preocupação dos dirigentes do clube nesse sentido. É uma urgência.
A outra seria uma política correcta para o futebol de formação. Isso sim, seria um investimento. A muitos níveis. Desde a alimentação do plantel profissional, que seria composto a um preço mais barato e levaria mais gente ao estádio pois iriam ver jovens figueirenses, passando pela possibilidade de vender jogadores, o que constituiria uma mais-valia na aquisição de receitas. Mas o que nos é dado ver é isto.
E, já agora, quanto ao jogo de magistrados, este poderá ser contraproducente para um dos candidatos à Câmara Municipal…
A menos que, para manter o equilíbrio democrático, e aquela coisa de oportunidades iguais, se empreste o relvado para um jogo de professores, já que a candidata da CDU é professora. Assim eles podiam, sei lá, fazer um jogo entre socretinos fura-greves e os outros. E também para um jogo de engenheiros. Mas aqui os candidatos Duarte Silva e Daniel Santos teriam de jogar na mesma equipa. São ambos independentes.

Decálogo

O húmus na esperança da terra:
Eis o pão!

A carícia nos dedos do vento:
Eis a água!

A liberdade na paz dos homens:
Eis o trabalho!

A estrela no murmúrio da fonte:
Eis o pensamento!

O amor no leite da mulher:
Eis a poesia!

O direito no sol do mundo:
Eis a justiça!

O equilíbrio na paz dos astros:
Eis a ciência!

A harmonia no silêncio do mar:
Eis a música!

A luz no calor do sangue:
Eis a pintura!

O segredo na voz da floresta:
Eis a imaginação!


António Cardoso (Angola, 1933-2006)

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Celeste (II)

Por razões alheias à nossa própria vontade não foi publicada a totalidade da crónica “Celeste”. Aqui fica a segunda parte, com as respectivas desculpas ao Augusto Alberto e aos leitores.


Augusto Alberto

Há anos, numa manhã de sábado, dirigi-me ao velho posto náutico da Avenida Saraiva de Carvalho e não consegui abrir a porta. O telhado do velho edifício ruiu sobre os barcos e o atrelado que os transporta. Os escombros entravaram a porta. Percebi o pior. Logo dei pela perda.
Não sei quantas vezes o Celeste ainda remou depois da tragédia de 1930. Se calhar poucas. Ou mais nenhuma. O que sei é que ficou completamente destroçado. Fiquei muito magoado e hoje carrego uma dúvida. Provavelmente não fiz tudo para o salvar. Quantas vezes reclamei para que dali fosse retirado? Quantas? Pressentia que aquilo haveria de suceder. Mas também é certo que nunca ninguém me ouviu. Garanto-vos que hoje, conhecendo a forma como acabou, tê-lo-ia colocado à porta do museu, único lugar onde deveria repousar.
Celeste, em honra à mulher mais bela. Construído em Itália, Livorno, teve curta vida, aquela foi a sua regata de estreia, e história complicada.
Nesse dia de desconsolo, do último folgo do Celeste e do velho posto náutico, houve um prenúncio. Um prenúncio de que haveriam de suceder coisas bem piores. Se se tem reflectido sobre os escombros da Avenida Saraiva de Carvalho, talvez se tivesse evitado a desgraça da rua da República, que foi o fogo que destruiu a notável sede da Associação Naval 1º de Maio. A perda de uma preciosidade.
Estamos sempre a tempo de parar para reflectir. O futuro será sempre aquilo que cada um de nós quiser. Para o bem e para o mal.
Mas curioso é o facto de no mesmo dia do trágico acidente e quase à mesma hora, ter estado a minha mãe a empurrar para a luz do dia o seu primeiro filho, o meu irmão mais velho, que veio ocupar demograficamente o lugar do Cachola. Pelo menos por aqui, que bom que foi.


Esta é a história sublime de uma regata de remo. Permanece obscura, mas fui a tempo de a recuperar na oralidade do meu pai, que se hoje fosse vivo teria mais de cem anos e do próprio Edmundo, de quem os ingleses um dia disseram ser o remador mais valente que alguma vez remou nas memoráveis regatas da Taça Vitória, no conjunto das regatas internacionais da Figueira da Foz, da primeira metade do século passado. Taça Vitória, com fim também trágico, devorada pelo fogo da rua da República. Que infelicidade!
Por fim, aproveito desde já para responder a uma insidiosa pergunta feita por um anónimo, aqui nesta “aldeia olímpica”. O que faço eu hoje, ainda no remo? REMO, caro anónimo, sempre REMO.

CELESTE

Augusto Alberto


Faz hoje, 22 de Junho, 79 anos, a história mais sublime do desporto da cidade, que quero aqui recuperar, depois de a ter contado em Dezembro de 1997, no extinto “A linha do Oeste”. Algumas alterações são exigidas, porque o tempo de hoje, não é o tempo de 1997, ainda muito povoado pela tragédia da Rua da República. Para que se conheça e se reflicta sobre a importância das coisas e do melhor da minha cidade.
É incontornável que a história da primeira metade do século XX não pode negligenciar o contributo soberano dos clubes da cidade. Neste particular, a história dos primeiros 50 anos da Associação Naval 1º de Maio possui um encanto muito particular. Cidade e clubes entrelaçam-se.
Desse período fica como momento mais sublime, o dia 22 de Junho de 1930. Estava uma manhã calma, de calor sanjoanino e dos “5 irmãos” partiram à mesma voz os dois shell 4 com timoneiro, da Naval e do Ginásio. Em disputa estava o Campeonato Regional de fundo. A luta saiu dura. O normal. Era a honra dos dois eternos rivais que se jogava então.
A velha ponte, lugar mítico das últimas acelerações, imutável, viu os dois conjuntos confluir para o mesmo pegão. Conheciam bem as correntes os dois timoneiros, experientes e timoratos. Entraram forte, até que o inevitável acontece, sobretudo quando se joga bem alto a bandeira.
O sol e o esforço fizeram esgotar as energias. Bátegas de água e suor molhavam os corpos. As mãos a tangerem subtilmente os remos. Nunca se apertam!
Os remos movem-se sincopadamente. O timoneiro dá mais um puxão nos baldrocos, uma guinada de leme. O aperto foi de mais. E zás! A proa do Celeste entra completamente por debaixo do barco do Ginásio. O leme, lâmina fina do barco ginasista corta e rebenta a tela da caixa-de-ar do Celeste. Chocam! Os barcos perdem velocidade e param. Os nervos rebentam frágeis e ainda hoje não se sabe, nem ninguém nunca saberá, os motivos, António Cachola alivia os pés do seu pau-de-voga, salta do seu lugar e entra na água cristalina do Mondego. O grande Edmundo salta também, mas submerso sente um remo debaixo dos seus pés e pula de novo à superfície. Finca as mãos na borda do barco e aí permanece. Cachola não sabe nadar. Os outros três também não. Só o timoneiro sabe dominar as marés. O tempo corre. Os presentes, toda a multidão que sob o tabuleiro da velha ponte saudava a regata, dão-se conta do pior. Saltam à água dois homens destemidos. Salta à água um adversário ginasista. Mas Cachola afunda-se. A Cidade agita-se e logo chora.
Vinte e quatro horas após, o corpo aparece frio, junto à velha ponte, mãos fincadas no pilar, que a tudo assiste.
Não é minha intenção ao cabo de 79 anos ajustar a história. Aliás, não há ajuste possível. Foi, sê-lo-á por todo o sempre, comum, os encontros, o entrelaçar dos remos. Só que agora os barcos são de matéria dura e não é assim do pé para a mão que rebenta uma caixa-de-ar. Para além de que saber nadar, é uma regra certa.
As exéquias de Cachola foram monumentais. Toda a cidade se juntou no infortúnio. A imprensa nacional registou o momento. António Cachola ficou como símbolo do clube. Todos os anos os velhos navalistas se deslocam ao seu mausoléu.
Mas, e o Celeste? O barco?
Não acredito no destino. Acredito no potencial dos homens e instituições. Na vontade e inteligência. O resto são misticismos de gente que mendiga, rasteja e é incapaz. A sorte e o azar são coisas do jogo da vida.

domingo, 21 de junho de 2009

Um barco chamado “Celeste”


A actividade e a rivalidade dos dois grandes clubes da Figueira da Foz, a Associação Naval 1º de Maio e o Ginásio Clube Figueirense, são parte integrante e marcante da história da cidade.
Poder-se-ia contar muitas estórias das refregas entre os dois, muitas delas cómicas. Mas também a tragédia invadiu algumas vezes o cenário. Augusto Alberto foi aos confins da memória resgatar, provavelmente, a mais pungente delas. Amanhã. Porque amanhã faz 79 anos que um barco chamado “Celeste”…

Um estranho e lindo rio...


Já imaginou um rio a desaguar num deserto? Então não imagine. O rio Cuango, que nasce no sul de Angola, desagua no deserto do Kalaári. E em delta. Pode ver aqui.

sábado, 20 de junho de 2009

A vitória do shell8+ foi há 5 anos


Entrevista


Augusto Alberto: "É muito difícil repetir"

O maior feito do remo figueirense, a vitória do shell8+ do Ginásio no campeonato nacional, fez 5 anos no passado dia 15. Porque poderá parecer estranho ser esta vitória ainda única numa cidade virada para o desporto e em que esta modalidade tem grandes tradições, a “aldeia olímpica” entrevistou um dos obreiros desse feito: Augusto Alberto. Para quem poderá não saber era o treinador e o timoneiro do conjunto vencedor. Depois de ter passado pela selecção principal e pela sub-23 está agora com o projecto paraolímpico.
Ele mesmo, o colaborador deste blogue, teve a gentileza de responder a algumas questões. Ei-las.


Antes da prova equacionaram a hipótese de chegar à vitória?
Reunidas as condições humanas necessárias, e estando consolidada a base material e logística, claramente se colocou como o único objectivo, pela primeira vez, a vitória no Campeonato Nacional.

Numa cidade onde o remo tem forte implantação como se explica que este êxito seja único? Que significado poderá ter?
É preciso esclarecer que a modalidade passou por um longo período de apagamento, por razões várias, entre o início da década de 50 e o início da década de 80, do século passado, três décadas. Este apagamento colocou a modalidade numa situação de aflitiva inferioridade, logo à partida, do ponto de vista material. No início do seu período de recuperação, o remo da Figueira não reunia condições materiais e logísticas para se afirmar do ponto de vista da qualidade. Do mesmo passo, necessariamente não foram criados atletas de qualidade, com o hábito do treino e da competição de um modo sério, consistente e contínuo. Desse modo, não poderia existir, especificamente, tradição do treino e competição neste barco. Quando a modalidade principiou a sua recuperação, naturalmente as cautelas e o receio de competir, sobretudo num barco tão rápido e exigente, foram sempre muitas. O percurso foi feito paulatinamente noutros barcos, ao mesmo tempo que se foi criando o hábito do shell 8 nos escalões de formação, com inteiro êxito, diga-se. Foi, pois, necessário romper com o medo de treinar e competir neste barco e isso foi um longo processo.
À medida que as condições se foram reunindo, foi necessário estar atento à vontade dos atletas. Essa vontade está sempre datada no tempo, porque nem sempre se conseguem reunir com vista a este desafio, que é enorme, porque é complexo, tanto do ponto de vista do treino técnico, físico e de grande exigência do ponto de vista da estabilidade emocional. Por outro lado, são precisos entre 10/12 atletas, sendo que no final só 8 são os eleitos e essa escolha é sempre muito dramática para o treinador, que é quem decide em última análise…

E se decide mal? É frequente isso acontecer neste desporto?
…bem, a questão foi que começamos com 10 atletas à partida com hipóteses de remar no shell 8 e acabamos com 9. Foi necessário decidir finalmente o atleta não legível, que trabalhou do mesmo modo, competiu também no conjunto das regatas que suportaram a preparação da equipa, mas acabou por não ser o escolhido. No dia da escolha o treinador sofreu e sofreu o atleta, que apesar de ser o 9º atleta, criou inicialmente expectativas sérias a propósito de um objectivo que era muito relevante do ponto de vista do seu espólio desportivo. Com a agravante do atleta em causa, ser o atleta de maior relação afectiva e cumplicidade com o treinador. Ambos travaram muitas batalhas desportivas juntos e estiveram juntos na equipa nacional, mas, verdadeiramente, a escolha do ponto de vista do treinador, tinha de ser essa.
A margem de erro nesta modalidade é relativamente mais baixa porque ela é mensurável e não casuística, embora como em tudo na vida, o erro é sempre possível. Aliás, nesta matéria, os melhores são sempre os que melhor decidem, porque aumentam a sua taxa de êxito.
Mas como estava a dizer, no ano dessa vitória, estavam resolvidas as questões basilares, com um modelo de treino em linha com um esforço máximo de 6 minutos, número redondo, físico e técnico, e com uma óptima estratégia, que definiu que durante a época, apesar de múltiplas competições neste barco, só uma nos interessava, o titulo nacional. Nessa época, só por duas vezes a equipa foi ganhadora. O campeonato Nacional e 15 dias após, a vitória na Taça de Portugal.

foto: www.ginasiofigueirense.com. A tripulação ginasista perto da meta, à frente do Caminhense e do Náutico de Viana.

Que hipóteses existem de se repetir, uma vez que as condições para a prática da modalidade são, pelo que se ouve, boas?
Existe sempre hipótese, desde que criada a tempo, mas a questão, é de que na falta da tradição de competir sistematicamente para os lugares do topo, as dificuldades vão aumentando.
Se foi difícil a primeira vitória, pelas razões acima descritas, mais difícil é repeti-la, porque na falta da tradição que disse, não é fácil, dados os grandes sacrifícios exigidos aos atletas, como por exemplo, treinos a acabar cerca das 11.00 horas da noite, repetir com os mesmos atletas, o mesmo desafio. Porque um atleta é um caso, alguns não estão disponíveis para novos e renovados sacrifícios. Ficam alguns, mas só alguns não chegam, porque também a base de recrutamento não é assim tão vasta, em linha com as necessidades. Estamos, apesar de tudo, a falar, mesmo em termos de remo nacional, de atletas acima do 1.85 metros e dos 85 kg. Não é fácil. Alterando-se as condições, volta tudo ao ponto de partida. Será preciso, procurar de novo a conjunção dos factores em referência e estar atento ao momento ideal, que poderá ter de esperar anos.

Já que falaste no recrutamento, achas que o futebol e o basquetebol têm um efeito eucalipto, aqui na Figueira? Quer dizer, ao encaminharem muitos jovens para lá sem terem a mínima queda para a coisa…
Não creio que a questão central seja essa. Por razões várias, como disse, o remo passou trinta anos em profundo coma e isso necessariamente deixou marcas. A tradição da modalidade fugiu durante esses trinta anos e não existia como oferta simplesmente lúdica ou de modo competitivo. Naturalmente, o futebol e o basquete, este com um período muito pujante, nesse entretanto, implantados, recolheram as preferências e mantêm até hoje a sua cultura e poder de atracção. É um direito que lhes é próprio, que somado a algum mediatismo local, regional e nacional, tem esse efeito de maior recrutamento. Contudo, já no período de nova estabilidade do remo, a modalidade tem tido, à custa de uma boa e suada politica de recrutamento no âmbito dos dois clubes da cidade, uma boa relação com a juventude, e agora, creio que de modo muito curioso, com atletas mais velhos, veteranos. Alguns que regressaram de novo aos barcos, outros ainda, e isso é muito significativo, fizeram da experiência na modalidade, uma nova oportunidade.
A questão não é pois a do recrutamento, que como digo, anualmente é muito bem feita, são outro tipo de questões, muitas e complexas, que por isso não cabem nesta resposta, até porque, se se fizer o balanço dos últimos trinta anos do remo na Figueira, se verá como a modalidade envolveu muita gente e ainda envolve e os resultados foram muito significativos, tanto do ponto de vista da competição nacional, como das varias experiências internacionais.
Em termos absolutos, eu direi que a modalidade tem de ser mais do que a modalidade que na área das escolas e da formação, está muito bem, mas que tem de ser consistentemente adulta. Isso implica ter coragem para tomar de modo regular, as boas decisões. E às vezes não é fácil.
Será preciso esclarecer ainda, que 4 dos 8 atletas constituintes da equipa campeã nacional, na época anterior não tinham relação com o clube, o Ginásio Clube Figueirense. Ou seja, 3 deles são oriundos de Coimbra e o outro com origem em Viana do Castelo, embora vivendo à data em Coimbra. Foi possível reunir vontades, razões antropométricas, que no ano seguinte já não foi possível reunir, ainda que o clube tenha estado presente na final nacional que decidiu as medalhas.

No coments

Realmente não consigo dizer absolutamente nada. Fiquei literalmente sem palavras. Limito-me a "roubar" o texto ao "Cravo de Abril". Talvez o leitor consiga tirar alguma ilacção.
"A notícia chegou e disse:
Gustavo Villoldo era um empresário cubano - representante da General Motors em Cuba - e pai de um filho com o mesmo nome.
Em 1959 a sua empresa foi nacionalizada por decisão do governo revolucionário, aplicada pelo Che, então presidente do Banco Nacional de Cuba - e Gustavo Villoldo, inconformado com o facto, suicidou-se, tomando uma dose elevada de comprimidos para dormir.
Gustavo Villoldo (filho) fugiu para os EUA e, em 1967, integrava o comando de agentes da CIA que perseguiu e assassinou o Che na Bolívia.
Agora, o filho intentou uma acção contra Fidel e o Che, acusando-os de responsáveis pela morte do pai.
E um juiz norte-americano não só lhe deu razão como condenou Fidel e o Che a pagarem-lhe uma indemnização de 700 milhões de euros.
A notícia só não diz como é que a sentença vai ser executada, e o que acontecerá aos acusados se não pagarem a indemnização ao acusador...
Esta justiça norte-americana é danada para a brincadeira... - mas nem mesmo a brincar deixa de exibir o seu conteúdo de classe".

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Um canto à paz

Aqui dei a conhecer uma interrogação sobre a “Marselhesa” do cantor francês, já conhecido na "aldeia", Graeme Allwright. Trata-se do hino francês, um canto de guerra, de 1792, da autoria de Claude Joseph Rouget.
Graeme escreveu uma nova letra, gravou-a, e canta-a. É um hino à paz, à solidariedade.
Quanto à petição, penso que ela continua a decorrer.
Segue a proposta de Graeme, que ele nos faz o favor de cantar, de seguida:



Pour tous les enfants de la terre
Chantons amour e liberte
Contre toutes les haines et les guerres
L’etendard d’espoir est leve
L’ etendard de justice et de paix
Rassamblons nos forces, notre courage
Pour vaincre la misére et la peur
Que régnent au fond de nos coeurs
L’ amitié la joie et le partage
La flamme qui nous éclaire
Traverse les frontières
Partons, partons, amis, solidaires
Marchons, vers la lumière.










Pelo direito ao contraditório, deixo a letra original, cujo primeiro nome foi “Chant de guerre pour l’armée du Rhin”.



Allons, enfants de la patrie
Le jour de gloire est arrivé
Contre nous de la tyrannie
L’ etendard sanglant est leve
L’ etendard sanglant est levé

Entendez-vous, dans les campagnes
Mugir ces feroces soldats?
Ils viennent jusque dans nos bras
Egorger nos fils, nos compagnes

Aux armes, citoyens!
Formez vous bataillons
Marchons, marchons
Qu’un sang impure
Abreuve nos sillons.