sábado, 31 de outubro de 2009

Eleição da Mesa da Assembleia Municipal

Da falta de coerência dos "grandes partidos democráticos" já nós estamos conversados há muito tempo.
Mas sobre o que se passou, ontem, na primeira Assembleia Municipal deste mandato que agora começa, sobretudo na eleição para o presidente da dita, pode-se dizer que é caricato, à altura dos protagonistas.
A opinião de um dos deputados, Nelson Fernandes, da CDU:
"Apesar da votação secreta é fácil fazer contas:
As duas abstenções são da CDU e do Bloco de Esquerda. Os cinco votos da lista C são do Movimento 100%. Os restantes votos distribuem-se pelas listas A e B. Apesar de ter menos deputados municipais ganhou a lista A. É verdade que Lidio Lopes fez o trabalho de casa. É verdade que o discurso de despedida de Vítor Pais comoveu a plateia. Mas cá por mim penso que entre militantes do PSD escolheram aquele que tinha as cotas em dia. E está bem!"

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

As rectas, os biltres e o elefante Solimão

Augusto Alberto
Há portugueses escravizados em Espanha, e por portugueses. A gente sabe que há e por isso, nesta notícia, já não há originalidade. E sabemos com toda a certeza que vai continuar a haver, disso não tenhamos dúvidas. São os portugueses vulneráveis, dizem os biltres do regime.
Mas há outros portugueses, também escravizados, mas que são um pouco diferentes. São os da lufa-lufa das estradas.
São os portugueses, europeus, assalta-me a dúvida, que arrancam pela calada da noite ou pela madrugada de domingo, e é vê-los a fazer quilómetros danados nas rectas que logo começam após a fronteira e continuam por Ciudad Rodrigo, Salamanca, Valhadolid, estão em Castela e, Miranda de Ebro, vão para o Pais Basco. Sexta-feira, frenéticos, regressam pela tarde a entrar pela noite e madrugada. Mas as rectas são falsas, porque convidam à velocidade em cima do cansaço, da moleza e do sono.
Para o caso, reflicto também sobre a viagem épica do elefante Salomão para a Áustria. Das canseiras, dos trabalhos épicos do seu tratador e dos trabalhadores que lhe iam mantendo a estrutura e dos desgraçados dos militares que providenciaram acompanhamento e segurança.
Sabemos que o elefante Salomão, aportou à Áustria e por lá ficou. Não se fatigou em idas e voltas. Teve tratador, ração, o banho merecido e indispensável e morreu de velho. Mas isto foi na corte, lugar de onde um modo geral as pessoas nascem com o cu virado para a lua e ele, sortudo, porque um elefante não pede, acabou no sossego. E é assim que a vida deve ser. Nascer, viver com calma e morrer depois de uma velhice de modorra e farta.
Mas volto aos Portugueses, que a pátria despreza, num atavismo, que ficam aqui ao lado, porque foi o que se arranjou, e por isso vão e vem. Algumas vezes, vão, mas já não voltam, ou vem, mas já não vão. Ficam-se nas rectas, esgotados, e por isso, melhor sorte teve o elefante Salomão, que de pança cheia, morreu velho, de modo respeitável, como deverá morrer todo o bicho, excepto, o bicho português, emigrante, que às vezes não chega a lado nenhum.
Dir-se-á que é sina de pobre. Não é sina, nem pode ser um anátema, apesar dos portugueses andarem nisto há séculos. Eu diria antes, que na verdade, os portugueses estão a ser vítimas de um tal, socialismo de rosto humano, recordam-se? Que foi feito dele? Foi peditório para o qual eu nunca dei, confesso, e sempre tive dúvidas quanto à sua bondade, mas que ainda anda por ai a entreter, olá se anda…
Por isso, apetece-me dizer, que gosto bem mais do Saramago, serralheiro mecânico, comunista e Nobel, isto é que os fode, inventor de tremendas histórias, para o caso, a do elefante Solimão, e do Saramago que não acredita em deus. Por isso, façam o favor de continuar a ser o que são, uns biltres, que também foi coisa que deus, se existe, criou.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

De vento em poupa…


Isto está verdadeiramente tudo a aquecer. E a condizer. Até parece que acompanhamos a situação climatérica, em que o Outono pura e simplesmente desertou. Ele são os democratas, um estranho paradoxo, que não se dão com a democracia, não sabem funcionar sem maioria absoluta, o que vai proporcionar aquelas negociatas que já todos estamos habituados, mas que já provocou demissões de presidentes de junta democraticamente eleitos, como em Quiaios, ele é a operação Face Oculta, que, também como já estamos habituados, e a bem dos brandos costumes, não deve dar em nada, assim como não deu em nada outros casos que ainda estão frescos na memória, como o do Freeport, por exemplo.
Em Espanha, pelos vistos, a coisa pia mais fininho. Mas por aqui a culpa sempre foi solteira. E há-de morrer solteira.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Uma pergunta interessante

se deus não existe quem foi o filho da puta que criou as moscas e os imbecis?

Da “savonarola” de Buarcos ao “medici” de Matosinhos

Augusto Alberto

O largo da Má-Língua em Buarcos, se assim se diz, foi porque foi lugar de aveludadas ou diabólicas conversas. Por sobre a sua calçada passou no início do século o americano. Transporte feito de uma carruagem que se deslocava sobre carris, puxada por uma dupla de cavalos ou mulas, num tempo em que a Figueira, fruto de várias influências, estava na vanguarda. O americano transportava pessoas, bens e carvão, desde a mina do Cabo Mondego, passando a má-língua e o ténis, começava a bordejar a praia do peixe e o Mondego, até à estação do caminho-de-ferro da cidade, fim ou o início da linha da Beira Alta. Em anos mais modernos, foi ainda fim de linha dos transportes públicos urbanos, e por debaixo, no areal, deram-se os primeiros pontapés na bola. Sempre foi um admirável miradouro sobre o areal, as gaivotas em bando, o mar calmo ou revolto, a espuma e a bruma que banha e encobre o molhe que ajuda a uma melhor entrada dos barcos no rio. Continua local de culto, porque apesar de vicissitudes e de uma arquitectura sem grande nota, que a delimita, continua a manter a traça de vila piscatória. Contudo, tem um prédio com duas fachadas, forradas com um belíssimo azulejo azulado, em cuja aresta que as liga, existe um pequeno nicho, tapado com uma pequena cúpula, em forma manuelina, que recebe no seu interior, a virgem com o menino nos braços.
Há dias, por lá, seguia uma senhora cerca de dez metros à minha frente, a quem eu chamo a “savonarola” de Buarcos, mulher que diariamente calcorreia a avenida até à Figueira e volta, pregando a fé de Cristo contra a vida pagã. Quase sempre transporta uma pequena moldura que embeleza uma figura do menino e um livro, que bem poderá ser o dos salmos. Em dias de chuva e frio, torna a penitência mais cruel, porque com os chinelos na mão, caminha, com a planta dos pés chapinhando na água. De modo geral reza alto, pede graças para o povo, a reconversão e clemência para os desavindos.
Pois foi esta “savonarola”, que nesse dia de quase encontro, me assustou, quando inopinadamente se voltou para trás e exclamou: “ai meu menino que gosto tanto de ti”. No assombro, estremeci, porque já deixei de ser menino e porque nunca tive qualquer relação com a penitente, mas logo me recompus, porque percebi que o gesto era para o menino que repousa lá no nicho no colo de sua santa mãe.
Não sei se esta “savonarola” assistiu ao límpido e santo debate entre o Padre Carreira e Saramago. Mas presumo que tanto lhe fará, porque nela nada muda. De qualquer modo, se a senhora tiver oportunidade de ler este singelo texto, sempre aproveito para lhe dizer que nos tempos que correm é bem mais importante discutir e alertar sobre coisas mais materiais do que sobre coisas da fé. Aliás, em linha com as preocupações terrenas de Narciso Miranda, que excomungado, diz, ainda não perdeu a fé no “socialismo”, por isso não o discute, mas está materialmente preocupado, com medo das perseguições de que é vítima por parte dos seus, ainda, camaradas.
Dando de barato que Narciso foi um “quadrão” do “socialismo”, caído de repente em desgraça, confesso que exagera um tanto, porque me parece que no renascimento de Matosinhos, ainda não medrou outro papa Alexandre nem um novo Médici e por isso, não há perigo de fogueira em praça pública.

A água vem á baila



Já se sabia que a Figueira da Foz é um dos municípios que tem a água mais cara do país. O blogue “Outra Margem” faz uma resenha deste “caso” que já chegou aos jornais. O que admira é que tenha chegado só agora, dado o desplante, para não dizer pouca-vergonha, deste evento.
Acrescento só duas curiosidades: quem começou com a privatização, ou concessão, vai dar no mesmo, pois servem ambas para os privados tirarem os respectivos lucros de um bem público que devia ser de todos, foi o partido socialista, ou auto-denominado socialista, como queiram.
A segunda é que a CDU foi a única força que colocou no seu programa a municipalização da água. Não houve debate, claro. Quem pode, pode, e quem pode, manda. Ou quem sabe sabe, e o "ps" é que sabe.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

O admirável mundo velho

Augusto Alberto

Num jornal diário, cuja linha editorial cruza o mais sincero fervor católico com fotos de belas mulheres com pouca roupa, ou simplesmente nuas, uma autêntica desgraça, há dias, na sua última página, trouxe uma pequena fotografia de um português, um mimo, para disfarçar a vergonha, afirma o jornal, com um cartaz em que literalmente se desnuda socialmente e que diz: - tenho fome. A minha imaginação leva-me a admitir que o mimo com fome se expressou ali para os lados do Rossio. E porquê? Porque ali há movimento, e foi por isso que, nos finais dos anos 60 do século passado, a populaça viu ser largado um porco, com galonas de almirante. A algazarra foi muita. Carros a fintarem o porco almirante, a polícia e os pides, completamente destrambelhados à procura do dito, e o povo aos gritos: - agarra que é almirante. Eu que andava por perto, também dei conta do rebuliço, sem contudo ter a sorte de por o olho em tamanho marinheiro. Foi um mimo.
Isto foi para acabar com o país da penúria, de para lá e para cá, dos Montes e das Berças, cujos filhos desfilavam pela Rocha de Conde Óbidos, antes de subirem ao Pátria, ao Uíge, ao Infante D. Henrique ou ao Vera Cruz, muitos deles, convencidos de que iam matar “pretos” para retemperar a Pátria.
Veio a Revolução do 25 de Abril, e foi para isso que se lançou à praça o porco almirante, e nesse momento, convencemo-nos de que os mimos com fome jamais voltariam. Engano! Porque logo após, os filhos, os netos e os bisnetos do 24 Abril, regressaram. E têm feito coisas espantosas. De volta e meia, para sossegar os espíritos, trazem à santa Cova da Iria, o santo papa. Constroem estádios e montam campeonatos, um que já foi, da Europa e já vão cantado, que um campeonato do mundo de futebol está no papo, e em surdina, deixam-nos de novo, com cerca de 40% de mimos famintos, a fazer fé em dados falados num conclave de doutos economistas, por pessoa que julgo, com critério.
Entretanto, veio agora um dirigente do sistema, dizer-nos da completa incompetência para gerir esta pátria. Propõe-nos que se impluda o estádio que foi do Europeu na cidade de Aveiro. Confesso que a minha surpresa foi muita, mas lamento que se tenha esquecido de propor também, a criminalização de quem decide sobre estas coisas, porque só o julgamento político, uma espécie de farta penitência, não chega, porque, por isso mesmo, eles vão continuar por ai a criar mais mimos com fome.
Na instituição onde trabalhei 31 anos, houve uma senhora de que todos gostávamos muito e a quem chamávamos “tia”. Era uma penitente admiradora do católico António Guterres e sempre esteve convencida, evidentemente, de que os “socialistas” vieram ao mundo para acabar com os mimos com fome. Outro engano.
Estou completamente convencido de que essa nossa “tia”, continua convencida das virtudes “socialistas”, mas ela que me desculpe, ao fim de todos estes anos, se lhe disser que afinal, voltámos, muito rápido, ao admirável mundo velho.

Espelho meu



Como as coisas mudam. No “Tempo das Cerejas” Vítor Dias conta o estranho caso de um admirador do Bloco de Esquerda se insurgir pela beleza e juventude de Rita Rato, a nova deputada do PCP.
Faz-me sempre lembrar que em eleição anterior alguém me dizia, com um sorriso maldoso, que agora também o Bloco de Esquerda tinha deputadas feias, o que eu achei então de muito mau gosto.
Nelson Fernandes

Carta aberta a um amigo

Se se nota desilusão neste teu texto também é verdade que só se desilude quem anda iludido. Fizeste-me rir quando disseste que Portugal deveria ser uma democracia limpa.
Por várias razões. A primeira, é que democracia não existe. Como já deverias saber, é um conceito muito vago, muito discutível. A segunda é que “democracia burguesa” (o sistema vigente) limpa é coisa impossível, já que a classe dominante não é limpa. Estamos a ser governados por porcos e pelos seus seguidores. Repara que as duas obras mais perduráveis de dois dos governantes portugueses das últimas três décadas são autênticos recuos civilizacionais. Vejamos: Durão Barroso disse-nos que ia acabar com as armas de destruição massiva do ex-aliado dos americanos e destruiu um país, mas acredito que a consciência não lhe pesa pelos milhares de vítimas civis que causou e ainda causa, José Sócrates prepara-se para deixar Portugal, dentro de um ano, com um milhão de desempregados. Estes dois actos, não sou ingénuo, não foram lapsos, enganos, incompetências. Foram e são perpetrados, fazem parte das suas políticas. E não falo do incêndio à embaixada espanhola, nos idos de 75.
Também me fizeste rir quando disseste que isto tem de mudar. Sabes que isso não muda porque quem tem o poder não quer mudar, só largando-o, e isso só violentamente, porque também recorre à violência para o manter.
Agostinho, fizeste-me lembrar também o “velho Quim”, o que ele te disse uma vez, lembras-te?
Deixo-te um poema de Cândido da Velha, poeta angolano nascido em Ílhavo. Um poema que fala do teu mar:

É do mar que vêm estas vozes

é do mar que vêm estas vozes
silabando a linguagem das marés,
gravando na areia estranhas grafias
onde, quem sabe ver, desvenda o rumo
no sobressalto das ondas.

este permanente arfar marinho
desperta a ressonância do oculto escuro
de obscuros templos submersos onde o coração,
descompassadamente, se perturba
na iminência do segredo revelado.

cheiros de primeira pátria,
nesta urgência de sal em nossos membros,
atrai as pegadas para a líquida planura
pela saudade de verde glauco
que estira os corpos na fronteira do mar.

reminiscência da primeira voz,
neste marulhar à concha dos ouvidos,
desperta nossa cólera e angústia
de malograda fuga e de nos vemos,
na bagagem das águas, de olhos vítreos,
adormecidos peixes sobre a areia.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Temos governo



O que não é novidade nenhuma, pois também já tínhamos. O que também não é novidade nenhuma é que vamos ter mais do mesmo. Na tomada de posse o novel primeiro-ministro, que é o mesmo que lá estava, definiu prioridades. E as que definiu contradiz a sua própria política levada a cabo pelo anterior executivo que liderou.
A primeira, enumerou ele, é o combate à crise, apostando no crescimento económico e defendendo o emprego.
Aqui há a considerar que o código de trabalho aprovado pelo seu governo cessante, o XVII, este é o XVIII, é um importante instrumento para o alastramento do desemprego. Dados da OCDE dizem-nos que no final de 2010 Portugal terá 650.000 desempregados. Indicadores posteriores realçam já números bastante mais altos, tornando simpáticos os dados daquela organização.
Como segunda prioridade, José Sócrates coloca a modernização da economia e da sociedade. Penso que sobre isto estamos conversados. Não acredito que, na sua própria política, irá incrementar uma viragem de 180º. E não acredito em nome da determinação, da teimosia, da inteligência e coerência que o primeiro-ministro tem patenteado.
A terceira prioridade, não se riam mas foi o que ele disse, é a justiça social.
Não ouvi o discurso todo, não tenho pachorra para tanto, logo não me posso pronunciar se a perseguição aos professores vai continuar, uma perseguição em que nalguns casos tocou a raia da humilhação, como é do conhecimento público. E uma medida meramente economicista, a crispação social que provoca não justifica semelhante política.
Mas, embora com pézinhos de lã, que vamos ter mais do mesmo não restarão muitas dúvidas.
E estou de acordo com o cartoonista: este ano é p'ó Benfica!!!

domingo, 25 de outubro de 2009

Os 59.900 burros

Augusto Alberto


Há uns anitos, viajei com a família pelo Minho e parei em terra lindíssima, elevada a património histórico. Pela viagem, a barriga disse-nos que estava na hora de dar de comer ao gosto e resolvemos aportar e entrar por porta aberta, mesmo a calhar. O espaço soberbo e em linha com o espírito descontraído do passeio. Descontraído, estava também à espera do bacalhau, quando me deparo com a entrada de uma figura notável do “socialismo”, seu porta-voz para os assuntos económicos. Nada de especial, mas não tardou o espanto tomar conta de mim, porque logo de seguida, outra figura, entrou. A Sr. Deputada, Zita Seabra, que hoje, reafirma o seu contrário e à época, na crista, editou uma coisa meia apasquinada, rancorosa e despeitada. Vai lá entender-se. Evidentemente que os dois deputados passaram aos cumprimentos que se estenderam às respectivas famílias. E eu disse para mim; - podes estar sentada e descansada, mas desde já te digo, que não me vais estragar o almoço. E assim foi. Saboreei, paguei, sai e a vida continuou e confirmei que aquela gente sabe ao que e para onde vai e portanto, eu não me tinha enganado.
Regressei aos costumes e ao batente e nunca me esqueci deste encontro, e se aqui lhe dou nota, é porque é boa altura para voltar à história.
Partilhei-a naturalmente com amigos, e a um conhecido socialista, contei-lhe o encontro que logo me atirou em cheio. -a senhora mudou, dizes tu. Pois só não mudam os burros. Fiquei-me com o sopapo, com o ar de burro, mas sem nunca esquecer, como se diz na minha terra, que há mais marés do que marinheiros. Nem de propósito, porque a fazer fé no adágio, e ainda, porque o baú do socialismo é grande, está chegando o tempo de lhe deitar a mão e servir o troco a frio.
Há uns tempos atrás, foi-nos dito que o Partido Socialista teria cerca de 60 mil militantes. Admitamos. Para o caso desta história, tanto faz.
Entretanto, ficamos a saber, e eu não estou a inventar nada, que a comissão distrital do partido socialista do Porto prepara a expulsão de cerca de 100 militantes. E porquê? Porque nestas coisas não se pode estar com um pé dentro e outro fora e a verdade é que alguns importantes socialistas do norte fizeram um manguito ao partido e mais do que isso. À volta de Narciso Miranda em Matosinhos e Maria José Azevedo em Valongo, estiveram movimentos de gente danada que se mobilizou, tremendamente, com um destino, escavacar o partido que ontem serviram e os serviu. A seu tempo, e porque os partidos tem de ter algum músculo, entendo eu, o partido socialista quer colocar as coisas no devido lugar, como é justo e normal e coloca como indispensável, para quem ainda não largou o cartão, a respectiva expulsão.
Não desesperando, confiando que nunca se perde pela demora, e lembrando-me do remoque e da lógica das dissenções defendidas pelo meu distinto conhecido socialista, está na altura de eu lhe dizer o seguinte.
Quem de 60.000 tirar 100 inteligentes, ficará, se a matemática não falha, com 59.900 burros.
É certo que tardou, mas estas coisas não podem cair em saco roto, ainda que me custe. Ao meu conhecido, quero ainda dizer-lhe que está na hora de ter estofo, porque eu também o tenho tido.


sábado, 24 de outubro de 2009

SARAMAGO E A BÍBLIA

Nelson Fernandes


A controvérsia de Saramago com a “Bíblia”, as “religiões” ou o que quer que seja, a propósito de Caim o seu mais recente livro, motivou intervenções diversas, umas interessantes outras nem tanto.
Por mim leitor compulsivo da bíblia, vício que ficou da educação religiosa que recebi, chamar-lhe “manual de maus costumes” é, não uma leitura literal como diz o padre Carreira das Neves, mas sim uma leitura “parcial” no sentido de só encontrar aquilo que se deseja. Mas confesso que o episódio da relação de Deus com Caim e Abel marcou-me, porque tal como em Saramago deixou-me uma marca de descriminação e de injustiça, que se resolve através da queixada de burro. No drama sente-se que a injustiça transformou Caim em assassino. Sente-se a inocência de Abel e a sua transformação em objecto de vingança. Sente-se a ansiedade de Deus ao perguntar “onde está o teu irmão Abel?” E sente-se o arrependimento, e até alguma amarga e velada censura a Deus na resposta “por acaso serei eu o guarda de meu irmão Abel?” Vou ler Caim.
Da Bíblia a Igreja Católica Apostólica Romana seleccionou os conteúdos (entre muitos outros), determinou as interpretações dos conteúdos e conforme as conveniências adaptou-os aos tempos, em resumo fez da Bíblia a História Sagrada, isto é, Deus é simultaneamente o Personagem por excelência mas também o Historiador. Ora a Bíblia é um conjunto de livros escritos em épocas diversas portanto muito heterogéneos na forma e no conteúdo expressando naturalmente as contingências de cada época. É um conjunto de livros escritos por homens e que reflectem naqueles escritos tudo o que é humano. É pois natural encontrar na Bíblia do mais miserável ao mais sublime; “nada do que é humano me é estranho” como dizia Marx nas “Cartas a Kugelman”.
Saramago está a ajustar contas com Deus. Se partirmos do princípio que o homem é criação de Deus este também ajustará contas com Saramago e ficarão “quites”. Mas se partirmos do princípio que Deus é uma criação dos homens Saramago está a esgrimir contra moinhos de vento. E não é que essa esgrima nos tem dado páginas admiráveis?

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

“aldeia olímpica”: 2 anos

Há um ano referenciei o primeiro aniversário com fotografia. A aldeia olímpica de Pequim’08, fotografada pelo colaborador deste blogue, Augusto Alberto, treinador da selecção paraolímpica de Remo.
Este ano, o segundo, a comemoração é com poesia.
E assim, homenageando a minha absoluta condição de lusófono e a minha divertida e convicta condição de francófilo, aqui vos deixo dois poemas: um, da poetisa portuguesa de expressão alentejana, Ana Tapadas, e outro da francesa Claude Delecluse, este superiormente musicado e interpretado pelo grande Jean Ferrat, que gentilmente acedeu a cantá-lo aqui na aldeia, logo a seguir à leitura dos poemas.
Com as devidas desculpas à Ana pela “expressionista” brincadeira, aqui fica um grande abraço a todos os visitantes do blogue.
Agora, silêncio.



Dois

Era no tempo
Em que brincava com as palavras
Sonhando cada momento...
Era um tempo perdido
De infâncias passadas
Que, às vezes, renovadas
No obscuro encantamento,
Eram nas manhãs cristalinas,
Enevoadas pelo pensamento
Que fugia...
Rebelde e indomável.
Era um tempo amável,
Frágil...
De loucos sonhos, negros e poucos!
Era a inconstância
De ser...
Era no tempo em que as palavras
Tinham atracções magnéticas e doces!
Desesperadas...
Em abismos frenéticos e húmidos.
Era um tempo por viver
E o arfar de dias desertos,
De cálidas mãos amigas
Que vieram depois...
Suaves, serenas, certas!
Dois.


Ana Tapadas







Deux enfants au soleil

La mer sans arrêt
Roulait ses galets
Les cheveux défaits
Ils se regardaient
Dans l'odeur des pins
Du sable et du thym
Qui baignait la plage
Ils se regardaient
Tous deux sans parler
Comme s'ils buvaient l'eau de leurs visages
Et c'était comme si tout recommençait
La même innocence les faisait trembler
Devant le merveilleux
Le miraculeux
Voyage de l'amour

Dehors ils ont passé la nuit
L'un contre l'autre ils ont dormi
La mer longtemps les a bercés
Et quand ils se sont éveillés
C'était comme s'ils venaient au monde
Dans le premier matin du monde

La mer sans arrêt
Roulait ses galets
Quand ils ont couru
Dans l'eau les pieds nus
À l'ombre des pins
Se sont pris la main
Et sans se défendre
Sont tombés dans l'eau
Comme deux oiseaux
Sous le baiser chaud de leurs bouches tendres
Et c'était comme si tout recommençait
La vie, l'espérance et la liberté
Avec le merveilleux
Le miraculeux
Voyage de l'amour

Claude Delecluse








quinta-feira, 22 de outubro de 2009

O regresso das OPV's



É por intermédio do artista Fernando Campos que o capitalismo continua a mostrar a sua pujança, desta vez através de um Oferta Pública de Venda.
Mas o artista não tem os critérios pouco escrupulosos dos verdadeiros capitalistas ou seus servidores. Diz que até faz um preço muito em conta.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Reavivar a memória



Os economistas (seja lá o que isso for, mas leva-me a crer que é mais alcunha) do regime ou são completamente incultos, ou têm mesmo a memória muito curta ou, então, não se importam de fazer triste figura para agradar aos mandantes e seus donos.
Não que eu tenha algo a ver com isso.
Mas é à força de tanto mentirem que chegam às brilhantes conclusões, estudos, previsões, eu sei lá mais o quê. E que dá no estado em que o pais está. Porque pensado e governado por medíocres, que vão inventando uma realidade à medida.
Um exemplo dessa realidade inventada.