domingo, 20 de dezembro de 2009

Virá o dia em que Chevrolets e Buicks…

Augusto Alberto


Nos anos 20/30 e 40 do século passado, o Mondego foi a Meca do remo Nacional. A Figueira por uma semana era uma babel de línguas e costumes. Só para termos a noção da diversidade, também a Croácia inscreveu o nome na lista dos vencedores da belíssima Taça Vitória. Depois, o fascismo, sem apelo, deu a primeira pancada e empurrou o Mondego para fora, tornando a maravilhosa Avenida Saraiva de Carvalho numa via para carros, e com o ganho, construiu a aberração que é o porto comercial, naquela que deveria continuar a ser a solene frente ribeirinha. E a diversidade cultural e linguística acabou.
A família mudou-se para Aveiro no início dos anos 50, na procura de melhores dias. Uma família de figueirinhas com um profundo gosto pelos barcos e por isso, em fim de semana de campeonato Nacional de Remo, a realizar no notável recanto do Rio Novo do Príncipe, um dos rios que desagua no fabuloso delta que faz a ria de Aveiro, a família alugava uma limusina de 12 lugares e partia rumo ao rio. Num lugar encantador e limpo, houve um ano em que a barcaça que fazia a transferência do povo de uma margem para a outra, na procura da melhor sombra dos choupos, para assentar e abrir o farnel, por demasiada carga, afundou. Por sorte, o rio ali não tinha mais de metro e meio de profundidade e isso permitiu que o povo se mantivesse em pé, sem outro perigo, para lá de uma boa molha numa água absolutamente cristalina. Mas sucedeu o sacrilégio. As saias longas e rodadas das mulheres camponesas, subiram até à superfície e as pernas e cuecas ficaram à mostra. Foi um gozo, em tempo cinzento.
Mas depois foi ali construída uma fábrica de papel e o Rio Novo do Príncipe tornou-se um lugar impróprio. Nos últimos campeonatos, nos anos 80, atletas pararam e foram levados para o hospital e outros recusaram competir. Havia uma massa esbranquiçada, espessa e nauseabunda, que os barcos rompiam a custo e por isso o oxigénio à tona de água rareava.
E agora o Mundo continua sujo e incapaz de chegar às medidas necessárias para o tornar mais terno e viável.
Na biodiversidade, os que não tem voz e incapazes de se organizar, ainda que sejam os mais corpulentos, como os ursos polares, por exemplo, são afinal os mais frágeis.
Hoje, em Copenhaga, os chamados países em vias de desenvolvimento reclamam dos países ricos, porque para serem desenvolvidos, sujaram em demasia e por hora, acham que devem ser exactamente a eles a quem os maiores esforços deverão ser pedidos. Mas os países ricos, para manter o nível, não querem baixar a fasquia e acham que os países em vias de desenvolvimento deverão ser os mais esforçados. E o mundo, nesta espécie de democracia vira latas, está assim em desacordo, porque os pobres estão fartos e por uma vez, estão, e muito bem, a mostrar os dentes.
Evidentemente que o homem, sobretudo o rico, que é quem mais suja, o único a quem esta biodiversidade deu o tino, vai ter que saber que, ou atina ou então, poderá ter quilómetros de asfalto em auto-estradas, mas vai haver um dia em que vai deixar de haver gente para guiar os fabulosos chevroletes e buics, ainda que a gasolina esteja ao preço da uva mijona, e não haverá alguém, como o Presidente Lula, para dizer, “merda, como é que se faz marcha atrás”. Não será possível, porque tiraram a mudança.

É global…



O desenvolvimento de Angola através dos séculos esteve sempre condicionado pelos problemas endógenos da sociedade portuguesa.
Pelos vistos, décadas após a independência aquele país africano continua a usufruir das “virtudes” da potência colonizadora. Qual papel químico.
O povo tem o nível de vida que se sabe mas o país tem estádios de futebol novinhos em folha, a estrear, pós modernos e tudo. Derivado da realização do CAN. Após o que, nem devem saber o que lhes hão-de fazer.
E lá como cá, além da institucionalização da corrupção, também a banca progride. Segundo o jornal on-line “O País”, em 2008 os lucros desses especuladores aumentaram 98%. É obra!!!

“O Estado sou eu”


Os tiques autoritários do “partido socialista”, nesta época conturbada por falta de maioria absoluta, vêm ao de cima. Esta de se confundirem com o Estado está demais. Agora é o desplante de nem o Presidente de República poder tornar públicas as suas preocupações com o estado da economia, do desemprego, enfim, do estado do país, sem ser acusado de se ingerir na agenda do “ps”.
Nem quero saber se as preocupações do Presidente são tão genuínas como as minhas, mas, de qualquer maneira, as declarações de Sérgio Sousa Pinto foi um enfiar da carapuça, tanto que Cavaco não se intrometeu na agenda do “ps” sobre casamentos homossexuais, referiu antes outras preocupações.
Mas se é assim, também me tenho ingerido, confesso que inadvertidamente, na agenda dos “xuxas”: a pedofilia, a corrupção, os freeports, as sucatas, o estado degradante da nação preocupa-me do mesmíssimo modo que me preocupa a velha questão de nunca haver culpados.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Como esta democracia, afinal, não é bem a que o meu amigo deseja. Mas eu trago sempre uma no bolso, que vos apresento

Augusto Alberto

Tenho um amigo que anda desiludido e apreensivo. Cruzamo-nos muitas vezes na avenida, local de encontros, partilhas e dores. Basta ouvir os desabafos, que nem mesmo o mar consegue diluir. Hoje, pela manhã, estava uma temperatura de amêndoa, porque o vento suão, que nos carregou com o frio, resolveu dar-nos descanso. Havia alguma vaga e uma neblina muito ténue, que faz da Figueira nesta data, um lugar manso e de presépio, e por isso já havia pescadores pela praia, surfistas empoleirados nas pranchas, empurrados pela força da vaga.
Colei-me a esse meu amigo e como sempre, abri a conversa: - “então novidades?” “Nenhumas”, disse-me, “a não ser as de sempre, que nos falam de um país de ladrões e aldrabões”. Ouvi o desabafo uma outra vez e como naquele momento estava mais para ouvir do que para falar, deixei que continuasse. E o meu amigo foi ao desafio.
- “Ouvi o João Salgueiro dizer que isto vai acabar mal”. Ai, atirei: “Esses são agoiros de gente que quer que sejam sempre os mesmos a pagar a crise, sem que nada mude, até que nova crise virá, porque é fêmea, e voltarão os mesmos, sem responsabilidades, a ter de pagar. Enquanto essa gente não for chamada à responsabilidade e estiver na primeira fila do acerto de contas, está fora do baralho”.
Mas o meu amigo descrente, voltou: – “É preciso mudar de sistema. Já não voto, nem sequer em branco. Então disse-lhe: - “Razão tinha o Saramago quando sugeriu o voto em branco, mas caiu o Carmo e a Trindade. Mas com a sua demissão do voto, vai ainda mais longe. Mas isto é a democracia, meu caro. Diga-me qual é a alternativa?”
- “Eu só volto a votar, quando previamente me apresentarem uma lista com os melhores”. “Alto”, disse eu. “O que quer você fazer homem, uma revolução? Olhe que o que propõe não é coisa própria de uma democracia universal e parlamentar”.
- “Bem sei, mas só voto quando me forem propostas listas com os melhores, porque listas carregadas de trafulhas, nunca mais”.
Ora cá está, como este meu amigo, que há anos foi eleito autarca independente numa lista de um dos partidos do poder cá da terra, acaba por intuição, por dar um passo adiante. Dir-se-á que não sendo tudo, já é alguma coisa. Pois é.
É verdade que perante este desejo intuitivo, deixei-me ficar à defesa, levado pela neblina e a modorra, sem nervo para mais, mas agora, sempre adianto, que afinal o que o meu amigo propõe, por intuição, é uma revolução.
Sabem que há um lugar assim, como só agora quer o meu amigo. Que não tendo riquezas materiais, uma costa rica em peixe, notáveis florestas, ricas em madeira e borracha, por exemplo, rios capazes de produzir energia limpa, ouro ou diamantes, petróleo do mais fino, o que tem é ruim e espesso, de difícil refinação, e por isso só dá para produzir alguma iluminação, mas também não tem cidades engolidas pela natureza, por força do descuido dos eleitos, como foi em Nova Orleans, ou como Caracas, ou São Paulo, porque por lá os que dirigem, são eleitos, porque são os melhores, e porque são os melhores, ficam com a obrigação de zelar pelo bem social, e por isso, por norma, a natureza agride, mas quase não mata.
Não admira que os seus eleitos, o sejam sempre acima dos 95%. Quem diria!

Um bom Natal, cheio de prendinhas



Mesmo em tempo de “crise”, o Natal não deixa de ser um tempo de prendinhas. É, desde há muito, menos um período de reflexão do que uma das várias épocas propícias ao aumento do negócio.
Confesso que também entro na onda, que também pratico as prendinhas. Até a mim próprio me ofereço algo extra, desculpando-me com a quadra.
E assim faço uma sugestão.
No ano passado foi um livro, desta vez é um disco, cuja capa reproduzo acima. São quatro belas e talentosas moçoilas que interpretam as palavras de um genial poeta.
Como se pode ver, ofereço-me sempre coisa boa. Até me apetece parafrasear um certo fumador de charutos: “Contento-me com o melhor”.
E aqui ficam, também e como não poderia deixar de ser, votos de um muito bom natal e um ano de 2010 (que se aproxima) um pouco melhor que 2009 a todos os visitantes desta aldeiazinha.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Nem direito aos cem dias de graça? (croniqueta autárquica)

cartoon de Fernando Campos


Decididamente, os figueirenses têm uma enorme dificuldade em escolher os seus representantes autárquicos. E eleição após eleição a coisa agrava-se. Ao ponto de o actual executivo camarário nem ter tido, sequer, os tradicionais 100 dias de graça.
Ao trigésimo dia, mais ou menos um terço dos cem, o seu líder, um juiz que veio de fora mas que não é de fora, diz, numa entrevista a um jornal local: “ainda não deu bem para reflectir quais as questões mais preocupantes”. Ora, penso que um político quando se candidata a umas eleições terá de saber de antemão tanto as dificuldades que vai encontrar como quais as suas prioridades.
Outro caso, este tão caricato como o primeiro, daria vontade de rir se não fosse absurdo, é o que se passa com a Figueira Grande Turismo. Que dava prejuízo, coisa e tal. Na oposição, os “socialistas” chegaram a defender a sua extinção. Agora elevam de 3 para 5 o número dos membros do Conselho de Administração. É um forró.
Para acabar, e ainda dentro dos “cem dias”, temos uns festejos de arromba na passagem de ano. São três dias, 31, 1 e 2, “de grande festa e divertimento”, com um programa digno de se lhe tirar o chapéu. Para quem estava preocupado com a situação económica da edilidade e até fez uns ajustes meramente estéticos para reduzir a despesa, não está mal, não senhora.
Está bem que apresentaram a candidatura das Falésias do Cabo Mondego às “7 Maravilhas de Portugal”. Mas nem mesmo isso sei se é positivo ou se trás água no bico. É que sabendo o que a casa gasta, não me admiraria que já estivesse em marcha mais um grandioso empreendimento turístico para o local.
De qualquer maneira também eu poderia propor o Fortim de Palheiros a monumento de interesse local, se eles não o tivessem cortado ao meio, por motivações imobiliário-especulativas.
Para muito menos de cem dias não se poderia exigir mais, não é? Ou poderia?

Uma explicação possível como qualquer outra. E plausível...



(recebido por e-mail)

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

O Português do tédio e do almoço

Augusto Alberto

Está em vias de choque a sociedade de consumo em Portugal. Pelos vistos, os funcionários das grandes superfícies preparam-se para um dia de greve no próximo dia 24, baralhando os muitos milhares que parecerão tontos na procura do último consumo. Melhor dizendo, os sindicatos desse sector têm um pré – aviso de greve. Evidentemente que da pretensão dos sindicatos à adesão desse povo trabalhador, vai um tempo que em norma é difícil de perceber, mas de qualquer modo, cá estamos para ver.
E greve porquê? Ora porquê, porque pelos vistos, já não basta haver portugueses escravos aqui ao lado em Espanha, na Europa do grande projecto social, no regresso ao sono nos bidões e nas tarimbas, e na completa dependência do negreiro, à semelhança de histórias com mais de 100 anos, como nos contou Ferreira de Castro no seu livro a “Selva”, parece que por cá se caminha alegremente para o regresso a esse passado, mas de todo o modo, perfeitamente legal. Aliás, melhor não poderia estar o representante da associação das empresas de distribuição, eufórico, quando regista a total legalidade da coisa.
Nem mais, caríssimo povo. Por incrível que pareça fica sabendo que aqueles que te obrigam a chegar ao batente pelas 5.00 horas da manhã para carregares prateleiras, e dentro em breve, por a trabalhar 12 horas por dia, estão em linha com a lei. Não sabes porquê. Pois não, porque sem mácula, tens dormido muito e aprendido pouco.
Pois é bom que saibas que, há pouco e de novo, te dignastes democratizar esse modo de escravatura, que é a possibilidade de estares ao serviço do chefe 12 por dia. Evidentemente que não tens ideia de que um dia te alertaram para o facto de vir aí um código de trabalho a definir novas e duras regras? Nenhuma! E por isso, bem me parece que para lá de te continuares a por a jeito, continuas sem saber ao que andas. Elegestes exactamente as pessoas que, simultaneamente o criaram, o aprovaram e estão democraticamente mandatados para o aplicar. Portanto, povo, vai sendo o momento de perceberes como colocastes a tua vida na mão de gente que só vê cifrões, nem que seja à custa das mais trauliteiras relações, mas vai sendo a altura, também, de começares a abrir o olho, sob pena de cedo verificares como apesar da família ser uma flor, está em vias de se tornar numa batata.
Outro dia, um dos teus manifestou apreensão quanto ao futuro dos seus filhos e futuros netos. Logo lhe disse que não se preocupasse, porque rapidamente se adaptarão. Esse é o grande dilema, porque em boa verdade, não foi para escravo que os teus pais te pariram, mas infelizmente, absurdo, tens legalizado o teu carácter sisudo e escravo.
Como diz um eminente português, transmontano, e a viver a diáspora na riquíssima Holanda, és um povo do tédio e do almoço. Tem razão. E fica sabendo que os negreiros sabem disso e por isso, se cagares fora do penico, estão desde já disponíveis 700 mil Portugueses, para começar a encher prateleiras, cortar o bacalhau e escalar bifes.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

“A Fontela é assim”





Carlos Certo e Fernando Maltez, mundialmente conhecidos na Figueira da Foz, e na Festa do Avante, assinam um dos pontos altos da revista levada à cena pelo Grupo de Instrução Musical da Fontela.
Um interessante e divertido trabalho, do Grupo Cénico Monteiro da Silva, daquela colectividade. Onde são “apontados”, com humor e não só, alguns dos graves problemas do planeta, e nossos, claro, como por exemplo o aquecimento global do esférico. Estão, pois de parabéns.
Quanto à famigerada dupla acima citada e ilustrada, num dos sketches, deliciam a plateia ao relembrar duas das figuras mais populares da cidade no último quartel do século XX: quem não se lembra ainda do “filósofo” Paulino e do “burguês” Visconde de Vila Verde?

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Uma tal América mestiça

Augusto Alberto


As fotografias de Alberto Korda, o fotógrafo de Fidel, Che e sobretudo, da Revolução Cubana, andam pelo mundo a falar, para lá da história, também de afectos. Aliás, vi outro dia um documentário, filmado um pouco antes da sua morte, em que Korda nos disse que em Cuba, terra onde as coisas sempre foram difíceis, os meninos não arrastam os pés pelo chão nem sofrem com feridas postulentas e muito menos têm o abdómen abaulado, a dizer-nos que a fome os atacou. Também os cubanos não chapinam com os pés nos esgotos a céu aberto, ao contrário do que se passa ainda no Brasil, por exemplo e que levou, aparentemente, o Presidente Lula, num acto público de apresentação do plano nacional para o saneamento, ao desbragamento, dizendo que está ali para tirar o povo da merda. A este presidente sindicalista falta-lhe o perfume na ponta da língua, quem sabe, mas se tal perfume existir, não consegue iludir o cheiro à merda, ainda que muitos palermas achem que sim.
Há uns dias, durante a cimeira Ibero-Americana, uma TV enviou uma jornalista a Havana para fazer reportagem. A jovem deu ares de não perceber bem ao que ia e por isso talvez tenha zarpado com ideias feitas e a realidade a tenha fintado. Acabou a dizer, que afinal tinha visto hospitais, em terra pobre, que pedem meças ao que de melhor há nos países desenvolvidos. Gostaria de lhe dizer, que isso já a gente sabia e que o melhor é pensar em ter formação em criatividade, sob pena de ter de mudar de arte e firma, porque uma evidência daquelas, poderá não agradar ao boss.
Mas da América mestiça, quero lembrar de como a legalização de um golpe de estado teve a bênção do último prémio Nobel da Paz, para assim ficarmos a saber como a democracia pode ser endrominada.
Do México, terra de mariaches e de gente que para ganhar a vida salta em queda livre e com estilo, para a água, de penhascos, que só de olhar para baixo dá medo, como na cosmopolita Acapulco, o que eu quero sublinhar, é que o narcotráfico quase que engoliu o estado, que está em aflições, ao ponto de já ter pedido ajuda internacional para se aguentar. São milhares os mexicanos que já caíram nesse modo do tiro contra tiro, do negócio da droga, sem que uma ponta de segurança lhes chegue. É o México dos vários modos. A dos mariaches, a dos saltos para a água e a dos tiros como passaporte para ir do inferno para o céu. Nada mudou nesse México, desde que Frida Kahlo e Diego Rivera o pintaram. E já foi há muito.
Mas não quero deixar de referir, também, como se morre de fome na Guatemala. E não sou eu que o digo, mas o seu distinto presidente, homem sisudo, que só agora tomou consciência de como na sua pobre pátria se morre à míngua por falta de um prato de sopa. Sendo assim, bardamerda caro senhor.
Ora cá está como a democracia é azougada. E de tão azougada, até parece que afinal, alguns sofistas encartados em paladinos da democracia e da liberdade, acham que afinal o que deverá mudar é Cuba.
Desgraçadamente, já não é só a ramela que não os deixa ver bem, mas também a puta da inteligência que se lhes vai minguando.


segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Corta-Mato: modalidade olímpica, já



Foi nos jogos de 1924, em Paris, que esta especialidade do Atletismo fez a sua última aparição.
Foi uma prova realizada em condições terríveis que obrigaram à desistência de 40 dos 55 concorrentes que alinharam à partida. Disputada sob uma temperatura muito pouco própria de 45º, aliada a um terreno igualmente pouco próprio, porque bastante duro. Alguns atletas foram hospitalizados, mesmo alguns dos que cortaram a meta terão ficado algo maltratados. Das 7 equipas só 3 concluíram, pois a Espanha, Inglaterra, Suécia e Itália não conseguiram fechar com o terceiro atleta.
Mas banir esta especialidade dos jogos até aos dias de hoje parece-me um castigo inusitado. Tanto mais que o vencedor da prova, o lendário finlandês Paavo Nurmi, venceria no dia seguinte a prova de 3000 metros. O que me parece que às condições acima descritas será legítimo pensar-se que a preparação da maioria dos atletas não seria a ideal.
Outros tempos. Nos dias de hoje será, certamente, impensável a existência de uma conjugação daquelas condições.
Há opiniões a defenderem o regresso do Corta-Mato ao calendário olímpico, ainda que integrado nos jogos de Inverno.
Sejam nos de Inverno, sejam nos de Verão,junto-me a elas. À importância do Atletismo junta-se a beleza desta especialidade.
Penso que o colaborador deste blogue, o antigo atleta Augusto Alberto, corroborará a minha opinião.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Campeonato Europeu de corta-mato

Augusto Alberto


Está um dia frio e por isso talvez o almoço me tenha sabido bem. Aliás, melhor me soube, porque vi uma superlativa equipa feminina portuguesa, digo portuguesa, porque para lá de Portugal e da Europa, há mais mundo e nesse outro mundo, mandam outras mulheres, a sagrar-se Campeã da Europa de corta-mato por equipas. Numa pista muita difícil, pesadíssima, porque a lama era muita, a exigir grande capacidade muscular, e grande capacidade de resistir ao desgaste físico. Na véspera da competição, a pista esteve interdita a treinos dado o estado difícil provocado pela chuva. Devo dizer que a prova colectiva neste corta-mato, suplanta em interesse o resultado desportivo individual e desse ponto de vista, a equipa feminina actuou sempre muito junta, abdicando da possibilidade de um resultado individual de algum relevo. Aliás, será bom dizer também que cada equipa poderá ser formada por 6 atletas e que pontuam para a classificação final, as quatro melhores. A equipa lusa foi de tal forma eficaz, que mesmo que algum percalço tivesse ocorrido com uma das suas 4 atletas melhor classificadas, a sua última atleta, a veterana e resistente, Ana Dias, bastaria para resolver a questão do título. Estão de parabéns estas meninas de Portugal, ainda que por vezes se distraíam, sobretudo quando a competição se coloca a um nível superior a um Campeonato da Europa. Mas isso, é a vida. As coisas são o que são e cada um de nós deverá saber bem o lugar que poderá ocupar em cada momento.

A equipa masculina, melhorou um pouco relativamente ano passado. Terminou em 5º lugar, à custa de alguma renovação entretanto já realizada. Longe vãos os tempos das grandes conquistas. Aliás, é interessante dizer que hoje, muitas equipas da Europa, inclusive Portugal, absorveram jovens da diáspora africana, que ajudaram a enriquecer uma disciplina que desde há muito é dominada por africanos. Atrevo-me a dizer que o último grande atleta das sagas dos atletas brancos, talvez tenha sido Carlos Lopes. Dos seis atletas, terminaram somente 4. O veterano de 41 anos, José Ramos, diz bem do estado a que as coisas chegaram, e o seu colega, Alberto Paulo, este vítima de um trambolhão logo após a partida, deve ter ficado mal tratado, desistiram.
Do fundo português, sobretudo o masculino, será bom dizer que as coisas vão sucedendo um pouco como em outros tempos. Ainda outro dia, um dos nossos melhores atletas, creio que fez parte desta equipa, confessava que começa o dia cerca das 6.00 horas da manhã, de seguida vai rebocar ou levantar paredes e volta pela tarde às sapatilhas e à estrada.
Dir-se-á que as coisas são o que são. Mas eu acho que terão de ser diferentes, porque um pedreiro com jeito para a corrida, deverá, num país a sério e com uma politica desportiva decente, ser corredor e não pedreiro. Aliás, como Ronaldo se tornou o melhor jogador do mundo e não noutra coisa qualquer, para gosto dele próprio e de muita outra gente. Deste ponto de vista, voltamos muito atrás e já lá vão as vantagens criadas com o desporto para todos, que Abril nos deu. Estamos muito, como nos tempos de Salazar e na merda da primavera marcelista, na fase do futebol e Fátima. Já lá vai o Europeu, mas vem a alta velocidade, os mundiais. Talvez o santo padre para o ano quando nos visitar, faça um milagre. O problema é que estas coisas são bem mais terrenas, ainda que de quando em vez, possa haver um bambúrrio.

Que falta de “democracia”

Jerónimo de Sousa, ontem, na Figueira da Foz

Que a Figueira da Foz é uma terra muito “sui generis”, seja lá o que isso queira dizer, já toda a gente sabe.
Agora que os "comunas" também queiram ser muito “sui generis” já passa das marcas.
Reparem que convidaram o secretário-geral para um almoço. Ele veio, acedendo ao convite. Óspois, teve de ir para a fila para ter direito ao chop-chop. Mas pelos vistos a caldeirada estava boa pois ele não se queixou. Aliás, nunca ninguém se queixou de uma caldeirada confeccionada pelo Baptista. E no fim até botou discurso.
Chato, chato, foi a camarada Cátia Susana ter de interromper a sua almoçarada para ir fotografar o homem na fila.
Mas prontos! Foi uma jornada de luta, de convívio, de fraternidade, de alegria.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Nobel da Paz, o Senhor da Guerra

Não é a primeira vez que o Prémio Nobel da Paz é atribuído a um senhor da guerra. Isto anula o valor de alguém que o receba, merecendo-o. Que os senhores que o atribuem tenham outros valores, e negócios, nitidamente diferentes dos meus, é uma coisa que, não me dizendo directamente respeito, incomoda-me. A menos que chamem outro nome ao famigerado prémio.
Contudo, orgulho-me de ter assinado uma petição pela candidatura de Pete Seeger. Ele, sim, cantou a solidariedade, a paz. Perdi. Perdemos todos. Com as promessas do novo Nobel da Paz e senhor da guerra de intensificar os conflitos em que se meteram sem serem chamados, e com a recusa, também, em assinar o tratado de Ottawa.
Há tempos, numa conversa, ouvi uma afirmação que me provocou uma reacção que nunca teria julgado possível: pura e simplesmente arrepiei-me. E continua a arrepiar-me. “Em Angola ainda estão para nascer pessoas que hão-de morrer vítimas das minas”.
Portanto, penso que me perdoam a má educação: “Obama, fuck you, son of a bitch”.
O Pete , já a seguir, e bem acompanhado, canta para nós:

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

O “Hera”, esse cadáver da arqueologia naval

Augusto Alberto

Estava uma manhã de chuva, mas como não desisto de uma corrida ou marcha, enfiei o impermeável, que me cobre até às canelas e que sobrou da China, e pus-me a andar pela avenida até ao charco dos patos, esse local de culto. Estava o local completamente encharcado, porque a vala que escoa a água, na embocadura com o mar, por força da maré, estava carregada de areia e impedia o seu escoamento. A intempérie estava rija e dos patos, nem penas. As máquinas que fazem o prolongamento do molhe norte, que vai longo, estavam paradas porque a vaga carregava violentamente na pedra. Pescadores à linha na praia, também nem um. Surfistas, também não se viam, porque as vagas estavam acima dos 5 metros, e longe de terra começavam a desfazer-se em espuma. Voltei pela praia, com os sapatos a enterrarem-se na areia molhada e a ficarem encharcados. A cara dura e fria, porque a água empurrada pelo vento noroeste, tocava impiedosamente. Mas eu, resoluto, sempre a caminhar para o norte.
Parei no porta-aviões, um maciço de pedra, em frente ao farol do Cabo Mondego, que na sua parte interior, faz uma autêntica piscina, lugar de perdição de pescadores, e no Verão da juventude do meu lugar. Regressei contente ao fim de quase três horas de marcha dura, e o corpo quente, apesar da chuva abundante.

foto: O que resta do m/v "Hera" , fotografado em 1996 por João Viana

No regresso pela praia, sempre com a água e vento pela proa, fui pensando no que se deveria fazer do “Hera”. Perguntarão, mas o que é o “Hera”? O “Hera” é um cargueiro, cujo cadáver repousa exactamente encostado ao molhe norte. Estava eu a entrar na adolescência, talvez, em 64/65 do século passado, numa noite de invernia e também de mar feio, o “Hera”, sem motores e leme, veio à garra, empurrado pela vaga, e lá ficou. Evidentemente que foi desmontado, com os meios da época, mas a carcaça, com o tempo, ficou enterrada na areia. Há uns anos atrás, o mar roubou muita praia e o cadáver ficou à mostra. Foi um gozo, porque ao povo o que é do povo. As crianças chapinhavam e nadavam nas pequenas piscinas interiores, que de vez em quando o mar fazia.
Ora cá está. E mais pergunto: Como se poderá aproveitar o cadáver? Numa terra em que os dois partidos do poder se guerreiam para mostrar aos figueirinhas as suas fantasias, que em regra não são para realizar. Lembro aqui a ponte pedonal para a outra margem, o túnel pedonal para a outra margem, o hotel de topo na Gala, ao lado do Hospital, a reconversão do doido do projecto hoteleiro do Vale do Leão, outra vez, em coisa fina, o palácio das convenções, na quinta da Borboleteira, e para acabar, o complexo desportivo, basicamente falhado. Aproveito, humilde cidadão, para deixar aqui, ao poder, ideia mais modesta. Porque não pensar em dar uso ao cadáver do “Hera”? Muito simples. Depois de trabalhos de remoção das areias, e sua consolidação, possibilitar que o cadáver fique como um ponto de arqueologia naval ou que se torne no Verão, na tal piscina oceânica, que os miúdos já adoraram. Achar-me-ão maluco. Seja. Mas eu acho que o cadáver do “Hera” deve ser dado ao povo. Porque ao povo, os cadáveres…
Perguntar-me-ão, porque não vendo eu esta terna ideia ao meu partido. Como é óbvio, uma ideia destas só poderá ser vendida a quem pode ser poder, para evitar que ela fique escrita numa folha, que com o tempo, amareleça debaixo de um vão de escada. Por isso, cá está o contributo deste figueirinhas, divertido, que se subscreve.