sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

O papel que fala de nós

por Augusto Alberto


Dia 15 de Fevereiro, deste ano da nossa desgraça, comemorou o jornal “Avante!” 80 anos. Na tarde desse estimado dia estava um pouco verrinoso e por isso decidi deixar tudo e plantar-me em frente da TV, na esperança de que um dos canais, que à mesmíssima hora transmitem uma coisa igualíssima, “opinião publica”, viesse falar do “Avante!”, num saboroso golpe de asa, e do seu colossal contributo para a mudança das nossas vidas. Em vão.  Resolveram falar do Sporting. Em rigor, calaram a razão para falar da emoção. Decepção minha, porque falar do “Avante!”, é dizer das nossas razões, como no primeiro número é deixado claro: "um órgão na imprensa que se torna indispensável para denunciar ao Povo Português todas as tropelias, todas as maldades e todos os crimes que contra ele se praticam diariamente". Palavras sábias, justas e actuais. Falar do Sporting, é dar uso às emoções. Contudo, o que ali estava, ainda assim, era uma entorse, porque do que se falava era de futebol, e não do Sporting. Essa discussão que corre a par da emoção é quase sempre irracional e, por isso, é-me irrelevante porque se revela um longo e torto caminho.
Do Sporting, confesso, gosto sobretudo do seu excelso ecletismo, razão que o colocou uns furos acima. Recordo bem que num dos períodos mais brilhantes, o clube mobilizava com regularidade por debaixo das arquibancadas do velho José de Alvalade, milhares de amantes da ginástica desportiva, nas suas várias facetas, num tempo de indigente cultura e actividade física, dirigida de modo dedicado e superior, por uma figura grada do regime e por ironia, um figueirense. E também, por exemplo, a grande figura de Armando Aldegalega, talvez o primeiro homem em Portugal a dar sistematização ao treino da maratona. Aliás, a quem tentei, debalde, ganhar em alguns encontros, nos asfaltos das vilas e cidades desta pátria maior. Mas falar do “Avante!”, será sempre a referência a memórias racionais de gente anónima que se tornou extraordinária, porque fazê-lo e distribui-lo é contar as mais aprumadas e heróicas histórias da resistência e da democracia e por isso, porque as TV’s do regime não me deram o direito à razão, eu num ápice resolvi a questão. Fiz o zaping aconselhável e parei num dos meus absolutos canais. No Mezzo, e, nem de propósito, ainda fui a tempo de “ouver”, mais uma vez, a Sinfonia do Novo Mundo de Dvorák, tocada pela Sinfónica de Nova Iorque. A sala, enorme, é branca e austera. Os líderes do regime norte coreano acorreram ao teatro em Pyongyang, num raro momento de distensão. A orquestra e o maestro Lorin Mazel, pujantes e absorvidos, ganharam a concentração e a emoção, deixando-os quase sem contracções corporais e eu tomado pela mesma emoção, quase também. Afinal, somos todos carne e nervos do mesmo Adão.
Como ao correr se vê, não dispenso as emoções do ecletismo no desporto, dos grandes sons e sobretudo não dispenso as razões dos melhores, que são os que lutam até ao acabar da vida. Foram os que fizeram e distribuíram e os que hoje fazem e distribuem o “Avante!”, o papel que fala de nós.