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segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Histórias de mineiros: Em jeito de posfácio

Chegada ao fim a republicação destas histórias, escritas e publicadas no semanário “Barca Nova” em 1980, poucos anos após o 25 de Abril, portanto com a memória ainda viva do que foi a exploração desmedida daqueles tempos, com a memória ainda viva do que eram as condições de vida e de trabalho, cabe-me dizer umas palavras.
A primeira é de agradecimento a Augusto Alberto, por ter anuído à sua republicação. Porque, para além do interesse jornalístico que tiveram à época, impõe-se dizer que elas têm, e continuarão a ter, interesse histórico.
Os protagonistas das histórias já não existem. Augusto Alberto conseguiu ainda falar com alguns. Deixou testemunhos vivos de quem viveu e trabalhou naqueles tempos. De quem lidou, diariamente com o sofrimento, com a dor, ampliados pela violência fascista.
Desde a publicação das histórias já cresceram várias gerações. Que muito naturalmente não fazem a mínima ideia de como se sobrevivia naqueles tempos. Que muito naturalmente pensarão serem tempos impossíveis. Mas não, foram mesmo possíveis e reais. Que muito naturalmente nem sabem nem sonham que por ali, naquele lugar muito visitado, onde se passeia, se caminha, se corre ou se anda de bicicleta, existiram as referidas minas.
Como escreveu Augusto Alberto “dá jeito que essa gente saiba que por ali também gente, pelo menos há meio século, sofreu e amargou para viver”.
E pronto. Resta acrescentar, e divulgar, que estas histórias vão ainda ter mais uma utilidade. Em nome da cultura, da literatura, da memória futura: a partir delas o autor está já a trabalhar num romance. E, para finalizar, deixar aqui votos para que o talento revelado pelo escriba na crónica se manifeste também na ficção.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Histórias de mineiros (XI)

Ponto final

Augusto Alberto


Durante algumas semanas, algumas histórias de mineiros foram contadas. É chegado o momento de se concluírem estas histórias, ficando embora muita coisa para contar.
Retratar a mina é difícil, senão impossível, para quem nunca a viveu. Aquilo que se conseguiu foi o depoimento memorial dos que da mina fizeram ganha-pão. Depois houve que trabalhar a história, imaginar quadros. E foi assim que saíram durante 10 edições coisas da mina.
Foi curioso verificar como as reacções a um passado não muito distante foram de tal forma fechadas que se tornou difícil, por vezes, a recolha daquilo que interessava na história, salvo raríssimas excepções. Todos os contactados concluíam pela vida difícil, paupérrima, mas chegado o momento de desenvolver os quadros possíveis da época aparecia o enconchamento, numa recusa simples e humanamente perceptível. “Oh! Já pouco ou nada recordo!”. Ficava-se com a ideia de que os homens não queriam desenterrar um passado de privações e humilhações. Um passado cruel. E quem sabe mesmo se daí a recusa generalizada em o lembrar?
Hoje o que existe da mina sãos homens. Vivem no mesmo bairro, ontem exclusivo de mineiros, hoje compartilhado com os filhos e com outros que da mina só lhe ouviram o nome. Adquiriram as casas simples à companhia. Introduziram-lhe modificações para as tornar mais salutares, criaram anexos onde vivem os filhos e os netos. Deram um âmbito mais lato às coisas que ontem eram seu exclusivo, e hoje pertença de todos. É o caso da Festa em honra de Santa Bárbara. Santa Bárbara já não percorre as galerias e nem sequer se realiza em Dezembro. A Festa dos Mineiros adaptou-se ao sentido real da vida. Foi antecipada de Dezembro para Agosto. Recolhe a presença de emigrantes e aumenta os respectivos proventos.

Muitos dos mineiros têm filhos e netos nas sete partidas do mundo. Há como que uma continuidade histórica da incapacidade do mundo que é seu em satisfazer os seus. Se ontem era a humidade que resfriava os ossos, a fome e os maus cheiros da mina, hoje é a necessidade de recorrer a outro mundo para viver.
Muitos estão para lá há já bastantes anos. Assimilam novos hábitos, nova cultura, enquanto os mais novos, alguns já lá nascidos, engajam esses novos hábitos, essa nova cultura. De tenra idade que da mina do avô nem a mínima referência possuem.
O fascismo obrigou a emigrar e concomitantemente criou a ignorância e a exploração desenfreada. Hoje algumas dessas premissas ainda se mantêm quase intactas. Há como que um atavismo histórico.
Recordo que há bem pouco tempo uma mulher de mineiro, ao jeito triste do nosso povo, recorreu ao vizinho, mineiro reformado, para lhe ler a carta que a filha lhe tinha escrito da França. No fim desabafou:
“é triste não saber ler, mas logo de pequeninos tínhamos de ir trabalhar…”
Creio que a esta mulher talvez tivesse faltado a percepção de que o mundo dela, da mina, ao mundo de sua filha emigrante, só existe uma diferença de forma, porque o drama continua a existir. Ou não será que a saudade da filha pela terra que a viu nascer e crescer, a despedida à hora da partida, a carta que se escreve e que se lê, até talvez a assimilação forçada daquilo que é estranho, também não são um drama?
A mina lá está banhada pelas águas do oceano. Resta o local, as entradas pela serra, totalmente cobertas de arvoredo, urzes e espinhos.
Os mineiros reformados, ou os que ainda trabalham nas fábricas de cal ou do cimento, juntam-se no cantinho dos reformados, consomem horas a fio no jogo da malha, na conversa. Ambições, nenhumas. A mina cansou-os!...

domingo, 11 de janeiro de 2009

Histórias de mineiros (X)

Santa Bárbara – Padroeira dos mineiros
Augusto Alberto



Pingos grossos, varridos pelo vento agreste do mar, batiam no chão com vigor, constituindo um autêntico mar de água. Na falésia baixa, ali junto à boca da mina, o mar agitado e impelido pelo vento atirava-se contra a rocha com força, trazendo um som enorme que parecia que iria engolir a terra, ou simplesmente fendê-la, mostrando-lhe o ventre.
Tocado pelo vento, encolhido, com um samarrão coçado por cima da cabeça e dos ombros, um homem com as calças deixando ver as magras canelas, já que os pés grossos e fendidos vinham desguarnecidos e chapinhavam a água, em corrida ziguezagueante, apontava à mina.
Ofegante, parou por um tempo ligeiro na boca da mina para tomar ar, esperguir a água da chuva e enrolar o samarrão no braço. Abrigado do temporal e agora mais calmo, dirigiu-se ao nicho cavado na parede onde repousava a Santa Padroeira dos mineiros. Olhou um momento para a imagem, com a mão persignou-se e murmurou por entre os lábios uma oração. Pedia à santa sua Padroeira que a sorte o acompanhasse até ao fundo da mina, que corria por baixo do mar agora tão revoltado.
Esperou com os outros companheiros a descida.
Santa Bárbara, Padroeira dos mineiros desde tempos longínquos, repousava já dentro da mina em imagem pequena e de cândida beleza. Os mineiros devotavam-lhe uma fé e um enorme respeito. Essa fé acompanhava-os para os poços.
Uma imagem maior repousava na igreja de Buarcos, à falta de uma igreja próxima da mina.

Estava um 4 de Dezembro de uma beleza incomum para um dia de mês de Natal.
O céu limpo e de um sol com intensa luz, que não chegava para encalorar a tarde fria, constituía tempo ideal para a Festa da Padroeira dos mineiros.
Homens de figuras secas, espremidas pelo trabalho difícil, espalhavam-se pelo recinto vasto da festa, enquanto os miúdos saltavam e corriam doidos de alegria incontida.
Toda a família mineira vestia a sua melhor roupa. As mulheres enroladas no seu xaile, raramente usado e guardado por longos meses dentro da arca no meio de bolas de naftalina. Blusa nova que para aquela ocasião sempre se mandava fazer. No pé, chinela ou sandália nova e brilhante. Os miúdos, de camisolas e calças, já usadas, na maior parte de pés descalços, libertos para topadas que esfolavam ou punham em sangue os dedos dos pés.
Os homens orgulhosos: - era a sua festa!
A banda devidamente afinada e com os músicos em traje de gala marchava direita ao recinto. As pessoas prestavam atenção à banda e ficavam embaladas pela melodia da marcha. Os filhos corriam atrás da banda, em ar de marcha, com um riso gaiato. Era a felicidade em tempo de ingenuidade.
Ali ao lado, no amplo refeitório da Companhia ultimava-se a merenda para toda a gente, merenda que por tradição metia castanhas e água-pé. As mesas compridas dispostas topo a topo, cobertas com toalha lavada e recheadas de boas iguarias constituíam sempre momento apetecido para quem durante o ano enganou constantemente o estômago.
À hora prevista desenrolou-se a procissão, momento alto de esplendor religioso. Procissão grandiosa porque nela os mineiros depositavam o seu melhor.
Era um desfilar sucessivo de crianças devidamente vestidas à semelhança do santo preferido da família. Outros, os mais velhos, frequentadores da catequese, formando duas filas, seguravam grossas velas de cera. Mas o momento mais importante era o da passagem da Santa Padroeira.
Quatro mineiros calejados, transportavam o altar em movimento cadenciado e lento. Santa Bárbara, de belo vestido azul e de faces pálidas, congregava em si a fé e a esperança da multidão que à sua passagem se ajoelhava e benzia em respeitosa atitude.
A procissão percorreu vagarosamente a distância entre o seu ponto de início e a boca da mina. Aí, iniciou a descida ao primeiro poço. Viajou pelas galerias. Lento e seguro, o cortejo entranhou-se na humidade das paredes, por onde a água corria em abundância até ao chão, formando enormes charcos. O frio somava-se à humidade criando dificuldades às pessoas. O manto da Santa Padroeira tornou-se húmido, as faces das imagens tornaram-se frias e com maior brilho.
A marcha continuou em ida e volta pelo caminho diariamente tortuoso para os mineiros.
Estava cumprida com carinho e respeito a tarefa anual, suprema mesmo, dos mineiros.
Santa Bárbara regressava à Igreja que durante um ano a recolhia em repouso.
Terminada a procissão, a festa, lugar onde as mágoas e a dor de um ano eram esquecidas, retomava a sua marcha.
As castanhas e a água-pé ou o vinho novo, as iguarias e. a encerrar, o baile, constituíam momentos finais.
Amanhã era o regresso ao trabalho extenuante que quase constituía castigo imenso para os homens.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Histórias de mineiros (IX)

Propaganda de Delgado no ventre da mina

Augusto Alberto


O regime fascista estava a passar por uma grave provação. O movimento de opinião e de massas em volta da candidatura do General Humberto Delgado estava a pôr em causa o futuro desse regime podre e sanguinário.
Por todo o lado a candidatura do General se fazia sem medo, em confronto directo com as normas do sistema.
No fundo dos poços, à boca da mina, os homens discutiam, davam e recebiam novidades. A candidatura do General também ali tinha chegado e para os mineiros constituía uma esperança numa mudança de vida.
A propaganda chegava ao fundo da mina trazida voluntariamente por homens anónimos, alguns deles animadores da vida sindical local.
Estes últimos tinham motivos sobejamente fortes para quererem a mudança, daí a sua voluntária participação no amplo processo de massas em curso.
O seu sindicato, criado recentemente, constituía um longo processo de lutas e de insistências. Foi uma árdua luta contra a castração a que o regime votava tudo o que fosse pólo da organização partidária. Daí a sua redobrada consciência.
A formação de um sindicato honesto, e limpo de homens ligados ao fascismo, não era fácil. Sindicatos só aqueles que o fascismo muito bem queria e com quem muito bem queria. E a verdade é que a malha era tão apertada que muito difícil era passar por ela.

Edifício entre a Rua da República e a Rua Manuel Fernandes Tomás, onde, numa sala do 1º andar funcionou a sede de candidatura do General Delgado.


Diz-me um dos homens que foi dirigente que as peripécias foram muitas:
- “Era preciso enviar ao Instituto Nacional de Trabalho a lista com os nomes e outros dados dos dirigentes sindicais eleitos previamente em assembleia geral. Recebidos os dados, o Instituto recolhia informações suplementares junto das Juntas, da polícia local e da anterior residência dos mineiros. E a seguir ditava a sua lei como se compreenderá.
Nós vimos rejeitadas direcções sucessivas sem qualquer explicação. Era-nos enviada a lista com os nomes traçados a vermelho e com uma frase curta e seca: rejeitados os nomes propostos. Ficávamos sem saber os motivos que levavam à recusa e nem sequer tentávamos saber porquê. Mas tantas vezes insistimos com novos nomes, ou com a simples repetição de alguns, que um dia conseguimos a legalização.
Não era fácil exercer a actividade sindical nesse tempo, mas fazíamos o que podíamos. E mesmo pouco que fizéssemos, era já muito…”.
E assim, com uma consciência bem forte, homens anónimos carregavam os folhetos, listas, etc., desde a Comissão de Apoio à candidatura, a funcionar num edifício da Rua da República, até ao ventre da mina.
Também por estes lados o fascismo, à boca das urnas eleitorais, foi derrotado, mas também por estes lados recorreu à trafulhice para conseguir sobreviver e, mais do que isso, pôr fim durante um longo período às liberdades e ao voto secreto e universal.
Depois disso, com a vitória desleal forjada na pessoa do espantalho Tomás, o regime fascista ultrapassou tudo quanto antes tinha mostrado em repressão. A vida do pequeno Sindicato dos Mineiros do Distrito de Coimbra tornou-se mais difícil, mas resistiu como pôde.
Regularmente, as visitas da PIDE, a constante busca de dados sobre os seus dirigentes, não fez esmorecer os mineiros. Ao que parece, a sua pequena sede ainda se mantém no mesmo local, com toda a documentação, mas agora apenas como recordação histórica.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Histórias de mineiros (VIII)

Augusto Alberto


O luar era intenso. A floresta banhada pela luz da lua e das estrelas, que penetrava por entre as folhas e ramos das árvores, tinha um ar manso e suave.
Só pela madrugada, andando em passo estugado pela estrada negra da floresta, o homem regressava à camarata colectiva, onde os seus companheiros já descansavam. Regressava da povoação vizinha onde tinha passado uns momentos no baile.
Vinha despreocupado, sem medo, que não era homem para se “acagaçar”, habituado que estava ao trabalho duro e arriscado.
Mas eis que na sua viagem, por alturas da mina, alguma coisa lhe chama a atenção. Sente que é perseguido por um carro com os faróis desligados. Não altera o ritmo do seu passo e sente que o carro se está a aproximar. A dada altura vê-o a seu lado. Dois homens no seu interior com uma silhueta do corpo negra e de chapéu com aba descaída para a esquerda, mandam-no, com ar grave, parar. Ele pára e espera pela fase seguinte.
E eis que de dentro do carro um dos homens lhe pergunta se vinha da mina? Responde que não. E nova pergunta: - e na mina como está o ambiente? Tudo bem e normal, responde.
Após esta brevíssima e seca troca de perguntas de respostas o carro acelera e desaparece logo à frente coberto pela sombra da noite. O mineiro tinha percebido.
A polícia temia a radicalização da luta e dia e noite rondava em guarda discreta a mina.
Mas talvez mais do que isso, desejasse apanhar as pontas do movimento. Desejaria matá-lo se conseguisse apanhar os seus dirigentes de uma forma discreta e individualmente, não dando motivos de revolta colectiva na defesa dos companheiros presos. Era mais seguro actuar discretamente numa primeira fase do que fechar pura e simplesmente as portas do sindicato, mesmo naquela época.
Uns escassos dias antes os mineiros tinham tomado a decisão de reivindicar melhorias salariais.
Naquela época era um acto corajoso. O fascismo não gostava e não deixava. Além do mais a grande maioria dos homens não estava familiarizada com situações deste tipo.
Tinham sido camponeses antes de serem mineiros. Só há bem pouco começaram a formar a sua consciência de explorados. E daí à manifestação colectiva, que se consubstanciou na recusa de descida à mina, passou um longo rosário de dificuldades. Foram pois gradualmente sentindo que só em plena unidade poderiam actuar.
Foi o pequeno sindicato local, com sede em Buarcos, cujos dirigentes ao contrário da maioria dos mineiros possuíam já experiência destas lutas, colhida em S. Pedro da Cova, quem chamou à discussão no seu seio os mineiros possíveis e na hora prevista, não sem dificuldades, tomou a direcção da luta.
Foi à entrada do turno das 16 horas, num dia e ano que a memória dos mineiros já não lembra com precisão, mas que dizem se situou entre 1958 e 1960.
Os homens juntaram-se à boca da mina e em perfeita sintonia disseram não à descida. Exigiram naquele lugar a presença do Director da Companhia ao mesmo tempo que deixaram apoplécticos e lívidos de medo tantos encarregados como engenheiros., pela imagem de unidade, determinação e à primeira vista espontaneidade e, porque não? novidade.
Compareceu rápido o Director, que aflito tentou impor com um ar severo a descida aos poços. Mas o não uníssono foi determinante. O homem ficou nervoso e repetiu a ordem. A situação agudizava-se nitidamente e era preciso uma saída rápida, pois o perigo da repressão poderia ser iminente. Era preciso antes de mais evitar logo no primeiro embate o contacto com a polícia como era costume em situações idênticas. O movimento nesse caso poderia morrer por ali.
Foi então que alguém do meio dos homens rudes falou e avançou uma proposta.
- Sr. Director, desceremos aos poços se nos garantir que porá a Administração ao corrente das nossas exigências e se nos der uma resposta rápida.
O homem descomprimiu-se, tomou mais à-vontade, concordou, e os homens acabaram por descer.
O simples facto de o Director ter descido ao contacto com os mineiros e de ter acedido às suas propostas, antes mesmo de ter usado a inflexibilidade e a polícia à porta, era já de si uma vitória em tal época.
Mas em todo o caso, lá no alto, nos morros vizinhos, de onde se avistava a mina, a polícia rapidamente avisada já tinha assentado acampamento, pronta a intervir em caso de violação da “ordem e da paz” então estabelecidas.
O tempo passou com os homens esperando e dispostos a continuar. Depois veio a resposta, e não se sabe bem como, era positiva. Hoje dizem-me que foi um aumento jeitoso para aquela época.
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Ironicamente, o homem que descontraidamente regressava ao seio dos seus companheiros, deambulando de madrugada pelas estradas da floresta e que tinha por luz a iluminar-lhe o caminho a lua redonda que lhe sorria amigavelmente lá do alto, ao contrário dos homens sinistros que o abeiraram, era um dos activos dirigentes sindicais empenhados na luta.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Histórias de mineiros (VII)

Augusto Alberto

Eram bidons e latões de ferro espalhados por aqui e ali pelas galerias. Tinham uma função colectiva e neles os homens faziam as suas necessidades fisiológicas.
Destapados no geral e expostos sem serem limpos uma mão cheia de dias, 10 ou mesmo 15, ao ambiente quente e húmido da mina, exalavam cheiros podres e horríveis.
No interior dos recipientes negros e de uma imagem nauseabunda, pululavam em marcha serpenteante vermes viscosos e nojentos, marcando meandros na massa podre de dias imensos de repouso fétido.
A sua limpeza nunca era total. Subidos à superfície e virados a lixeira, era vazado o maior e a água raramente limpava as suas paredes e exteriores. Agarrados às paredes voltavam vermes e resíduos em crostas sucessivas, de uma massa, mescla de castanho, azul esverdeado e negro.
Os homens, uns atrás dos outros iam retomando a realização das suas necessidades, criando condições para a continuação do mesmo ambiente podre e soturno.
O mineiro de volta e meia sentia a ”caganeira”. A dor apertava a barriga e os homens lá corriam direitos ao latão, chapinhando na água da galeria e já com o cinto ou o cordel para não perder muito tempo. Depois vinham as fezes compactas ou meio aguadas que para ali ficavam depositadas em plataformas sucessivas durante tempos enormes.
Era como um ciclo quase impossível de modificar. Os homens habituavam-se, também eles, àquele ciclo de vida, permitindo que ele se realizasse regularmente.
Concomitantemente havia os barris com a água para saciar a sede ou para a lavagem do corpo. Também aqui havia uma situação semelhante.
Água fresca só no momento em que chegava ao fundo da mina.
Os homens iam bebendo a goles, sôfregos; iam lavando o corpo, até à total extinção da água dos barris. Podiam passar 10 ou mais dias.
A água tornava-se quente, podre, empoeirada.
Também os barris não eram limpos e no seu interior criava-se uma parede escorregadia de limos verdes. Com o tempo, poeira e limos somavam-se numa massa lodosa como a do fundo dos rios poluídos.
Assim vivendo, realizavam-se as 8 horas de trabalho e o ambiente era o ideal para doenças várias.
A doença pegava os homens. Ou era o corpo que tremia de sesões, como se um homem estivesse continuadamente ao frio e nem o bater sucessivo e sem garra da picareta na pedra lhe desse mais calor. De volta e meia vinham uns arrepios de frio mais intensos e, então, o desejo de parar; e porque as forças também se sumiam, o de deitar o corpo, esticado, num sono profundo e lânguido entre dois lençóis. Ou era a barriga em constante dor, inchada como bola de pedra, que nem o tronco se mexia em frente.
E a doença continuava. O frio, os suores, as dores, por muitos e muitos dias.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Histórias de mineiros (VI)

Augusto Alberto

O conhecimento da mina, de todos os seus segredos, fazia dos “intivadores” um corpo de homens com extrema responsabilidade. Do seu melhor trabalho resultava sempre maior confiança para aqueles que haveriam de vir depois: - os mineiros.
Dos seus braços moídos, das suas mãos calejadas e gretadas saíam golpes de precisão com a “enxó” no aparelhamento da madeira que iria escorar os tectos e as paredes das galerias.
Estavam num desses trabalhos, no escoramento de um tecto, numa posição deveras incómoda, trabalhando de baixo para cima. Suavam, martelando e serrando as enormes pranchas de madeira. De volta e meia paravam para respirar fundo e sobretudo para endireitar as costas e o pescoço que de tanto inclinado para trás lhes doía fortemente.
Depois da madeira cortada e devidamente encaixada era pregada a golpes rijos de martelo, que ao bater produzia um som gutural que ecoava pelas galerias a dezenas de metros.
A um dado momento era necessário levantar um toro de madeira pesadíssimo com uma resistência soberba, que aguentasse o pesado tecto de madeira. Houve que o segurar a força de braços para evitar que o toro rodasse ainda mais e viesse a aleijar alguém. Era um pedaço de madeira que metia respeito. Os homens aplicaram toda a sua força por longo tempo e o toro foi aguentado e metido no respectivo lugar.
Os homens suavam, recuperavam do enorme esforço, mas o “intivador”, esse ficou entalado entre o toro e a parede. O músculo saltou fora do lugar e suportava dores horríveis.
“Os meus companheiros
– diz-nos um mineiro – sentaram-no, massajaram-lhe o braço e conseguiram aliviar momentaneamente a dor”. E o “intivador” continuou, depois de aparentemente recuperado.
O dia chegou ao fim. O regresso à superfície fez-se como sempre, lento e aos sobressaltos.
O braço maltratado repousou durante a noite sem deixar de latejar.
Pela manhã o “intivador” nem sequer pensou em não descer à mina.
Era arriscado, mesmo muito arriscado a recusa em descer ao interior da mina, mesmo que se estivesse doente ou aleijado. De imediato vinham as censuras ríspidas, os maus tratos, por vezes os castigos, que por norma se traduziam em perdas de horas de trabalho.
Andou três meses – diariamente descendo à mina, subindo à superfície. Diariamente cortando e pregando. Diariamente sofrendo. E o músculo magoado, fora do seu lugar, mirrou, perdeu resistência.
Ao cabo desse tempo o “intivador” não aguentou mais. Consultou um médico que o mandou de imediato operar.
E hoje ele diz: - “Se fosse de imediato tratado teria ficado com o braço forte como dantes. Mas como só fui operado passados três meses, já foi tarde. É como vê. O músculo está completamente deformado e o braço hoje já não é o que ontem foi”.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Histórias de mineiros (V)

Augusto Alberto



Eram 10 a 12 horas dadas à mina. Oito horas eram passadas de picareta em punho, as restantes contavam-se na descida da superfície ao fundo e vice-versa e pelas enormes viagens pelos túneis de centenas de metros até se atingir o local exacto onde se iria manifestar a simbiose homem/carvão.
Logo pela manhã, 6, 6,30 horas, os mineiros depois do café com migas de broa ou da cachaça, matabicho, na tasca, lá iam pés descalços direitos á boca da mina, no Verão ou no Inverno ventoso do norte ou do vento do mar que arrastava consigo horas intermináveis de chuva copiosa e fria e que os molhava até aos ossos. Formavam bicha esperando o seu tempo de descida. As vagonas que carreavam 4 a 5 homens cada uma, numa velocidade lenta, aos sobressaltos, saltando por vezes dos carris entulhados com o carvão, embatendo nas escoras laterais e centrais, deixando os homens num sobressalto, lá iam poço abaixo.
O corredor era estreito e baixo; - tinha a largura de duas vagonas que viajavam em sentidos opostos e os homens tinham de viajar agachados evitando o toque no tecto.
Os poços desciam em plano inclinado, rasgando as entranhas da terra, alguns oceano dentro. Os tectos escorados com tábuas e barrotes eram o chão do mar. Lá por cima andava o mar revoltado ou brando, também ganha-pão duro para outros. E nos poços, de quando em vez, caíam grossas nuvens de água que molhavam os homens que na barriga da terra também buscavam o pão.
O chão dos túneis enormes, repletos de lascas de carvão e carregados de humidade, eram o tapete em que o mineiro se movia.
Os pés descalços ou protegidos por uns frágeis socos de madeira, iam chapinhando a água.
A carne dos pés rasgava-se no contacto com as lascas de pedra negra, a água de um negro barrento recebia o sangue e aparecia mesclada, tal como paleta com somatório de tons.
Corte em cima de corte, ferida em cima de ferida, não havia paragens. O sangue diluía-se na água, os pés atolavam-se, muitas das vezes o homem nem dava por mais uma ferida. Os pés grossos, gretados e deformados, eram um completo analgésico à dor.
E o sangue escorria e nem sulfamidas, mercúrio, um simples penso, para curar a carne rompida. O dia seguinte era a repetição do dia anterior.
Só passados anos e anos, com a chegada de um novo engenheiro à companhia, o mineiro passou a usar umas botas grossas, feitas de pneu. A “companhia” confeccionava-as e o mineiro, mensalmente, amortizava-as.
Ficaram os pés mais protegidos mas as marcas dos cortes, as deformações, lá estão. São como recordações vivas de um passado bárbaro. E o mineiro para que aquela vida fosse melhor entendida e a título de prova real, tirou o chinelo de enfiar e mostrou-me o corte no pé e o dedo deformado.
Não o fez por orgulho, mas por denúncia.

domingo, 30 de novembro de 2008

Histórias de mineiros (IV)

Augusto Alberto

A mesa de madeira simples, repleta de uma família numerosa, eram a única riqueza do mineiro. Os seus filhos esquálidos e com nítidos sintomas de subnutrição; barrigas ovalizadas, por uma alimentação carenciada de elementos fundamentais. Encostados lado a lado, irrequietos na sua fome crónica, com ar de meninos que nunca foram meninos; rotos, pés descalços, cabelos desgrenhados, com chagas maltratadas, lá estavam esperando o prato magro.
Eram quadros comuns e constantes: para o mineiro, dramáticos.
O mineiro abastecia-se quinzenalmente na “cooperativa” da companhia.
Trazia pouco, que o vencimento era curto e nem sequer dava para esticar um poquinho que fosse.
De cada vez que se abastecia era-lhe dado uma senha ficando a outra na “cooperativa”. E quinzenalmente, quando do vencimento, as contas com a “cooperativa” eram saldadas logo no escritório da companhia.
Saldadas as contas, pouco restava ao mineiro. Na maior parte das vezes nem tostão recebia, o mesmo que dizer que continuava o deficit com a “cooperativa”. Deficit que se prolongava para muitos. Ficavam como devedores quase vitalícios.
Mas a história não se ficava por aqui. Havia também o gamanço. “A gente não via as contas. Éramos roubados sem piedade. Íamos para a tasca e nem um copo de vinho podíamos pagar a um amigo, tal era a miséria – recorda em tom amargurado o mineiro.
Era a dependência total. A companhia decidia da vida.
O vencimento limitava os gastos e os gastos limitavam o convívio social. Um convívio social qualitativamente pobre, feito de conversas de tasca, com os corpos encostados ao balcão ou de cotovelos cravados no tampo de madeira suja e com odor a vinho.
Depois havia a providência social.
O mineiro acidentado ou muito doente, mas só mesmo muito acidentado ou muito doente, baixava ao hospital ou à sua cama.
Nos primeiros três dias o mineiro nada recebia e daí em diante passava então a vencer uma quantia muito reduzida.
O mineiro e a companheira percebiam que naquele momento se abatia sobre a família maior desgraça, maior fome.
Havia então a retracção na compra de produtos na “cooperativa”.
Os armários simples e vazios, de uma nudez empoeirada e enegrecida eram bem a imagem da fome constante.
A companheira era assediada pelos filhos de estômagos doridos. Pouco tinha para lhes dar: côdea magra e negra. Para o companheiro, magro e de olhos encrustados na face, a impotência patente em o contentar com uma refeição de que ele bem necessitava.
Era assim a vida madrasta do mineiro.

domingo, 23 de novembro de 2008

Histórias de mineiros (III)

Augusto Alberto


Ser mineiro era duro já porque o esforço produzido era esgotante, mas mais duro se tornava porque um homem era obrigado a respirar horas a fio num ambiente saturado de um pó fino e negro que se desprendia do carvão e que com o tempo se depositava nos pulmões.
E lá no fundo o mineiro suado batia na rocha e com esforço respirava. Alguns deles, já com os pulmões atulhados de pó, continuavam batendo. Sufocavam. E num esforço enorme e bárbaro engoliam ar e pó.
E a picareta batia forte, cadenciada. O peito dorido arfava na ânsia de recolher o ar que alimentasse a vida. E de novo o pó amassado com o ar e a humidade corria até aos pulmões. De instantes a instantes era a tosse, ruído grave e cavado. Era a dor aguda no peito que não se escoava. E depois era o escarro, bola negra atirada ao chão ou colada na parede.
E as mãos segurando a cabeça, ou tentando amaciar o peito na procura vã de um alívio, a água choca bebida num trago na ânsia de ser bálsamo momentâneo.
Mas ciclicamente, em tempo curto, lá vinha o arfar, a tosse, o escarro e a dor no peito.
E o mineiro não parava num trabalho esforçado.
As horas passavam lentas e difíceis. Foram dias, semanas, meses e anos assim, num cansaço desumano. O corpo mirrava em velocidade acentuada, até que um dia a dor era tão cortante e as forças se esvaíam de tal forma que o homem já não podia mais descer à mina.
Acabada a mina chegava a humilhação, porque o sofrimento continua até ao dia final.
E o mineiro aparece a falar da humilhação de um forma simples e fria:
“Em 1965 fui reformado e obtive um subsídio, pelo pó, de 120$00 por mês. Durou o subsídio até 1968. Por esse tempo a companhia mandou-me a Lisboa para fazer exame. Lá fui. Apanhei um médico grosseiro e mau. Fez-me soprar uma quantidade de vezes para um aparelho. Estava a ver que não saía de lá. Estava cansadíssimo, já nem forças tinha para respirar.
Depois, passados uns dias, fui chamado à companhia.

E, ironicamente, prossegue o mineiro: - ia passar a ser mais rico. Passaram-me o subsídio de 120$00 para 110$00 por mês…
Mas, com ironia ou sem ela, a realidade é bem mais funda.
A ganância do lucro, o desrespeito pelo homem que durante anos e anos trabalhou como uma toupeira no fundo da mina para fazer a fortuna de uns tantos senhores, não merecia mais. Dez escudos ao mineiro, por mês, não faziam falta, mas à companhia, aí é que faziam falta! Ao que parece o pobre era a companhia e o rico o mineiro…
Esta é a parte humilhante de uma outra coisa dramática, a silicose. O mineiro tem a consciência disso e continua a sua história:
- Após o “25 de Abril” decidi ir ao Tribunal de Trabalho. Mandaram-me fazer novos exames. Passado um mês, recebi uma circular para ir a uma Junta médica. Lá fui e um dos médicos disse-me: - coma e beba que o senhor está arrumado. O senhor tem pó na percentagem de 100%. É o máximo que lhe poderemos dar.
Pouco tempo mais tarde, em nova circular, fui informado que o subsídio tinha subido de 110$00 por mês para 2800$00 mensais. Hoje recebo 3000$00.

O mineiro chorou de raiva. Percebeu como tinha sido roubado.
Nem o médico nem a companhia que ao médico deveria pagar grossas luvas tiveram escrúpulos em roubar de forma tão humilhante quem tão duramente trabalhou.
E se alguma dúvida existir acerca do humanismo de tal gente e do fascismo que os serviu, aqui fica mais um exemplo entre tantos outros.
Foi o”25 de Abril” libertador que veio repor, pelo menos dar um sentido mais humano, a uma situação tão humilhante e dramática. E o mineiro não esquece isso. Ele está por dentro do tempo.


Nem eu esqueço o motor, trabalho contínuo, que o mineiro possui bem no peito. É a sua silicose. O pó agarrado às paredes dos pulmões, assim como a lapa agarrada à sua pedra.

domingo, 16 de novembro de 2008

"Histórias de mineiros" (II)

Augusto Alberto


Chamavam-lhes Malteses. Vinham do norte, das bandas do Porto e Braga, que os meios para viver por lá eram escassos. Mas também havia os serranos. Esses eram os melhores nas galerias húmidas e negras do carvão. Entravam por um poço na parte de cima da mina, em plena serra.
Os do Norte viviam num barracão colectivo. Ali dormiam, em cima de uma tarimba ou de colchão enchido com folhas de árvores colhidas na floresta. Ali comiam o que cada um sabia e podia pobremente confeccionar; que o mineiro nunca soube o que foram mimos, disse-o o mineiro: nasceu pobre, menino de pé descalço e roto. Em adolescente e adulto, trabalho duro. Sempre.
O tempo era passado a jogar as cartas ou conversando, que divertimentos não os havia.
A família, essa estava lá longe, na terra, e raramente era visitada. Ver a família era por altura de festas grandes, pela Páscoa e Natal e pouco mais. É que a viagem era longa e dinheiro não o havia.
Era uma separação cruel. Eram longos meses de separação forçada. Separação que só mais tarde teve o seu fim com a construção do Bairro de Santa Bárbara. Um bairro de casinhas pobres,
típico do fascismo, em seu entender, como convinha para mineiros.
Quem o fez talvez tivesse pensado que sempre era um pouquinho melhor do que as casas lá das suas terras ou de que viver em camaratas colectivas. É bem possível, mas só que o mineiro não necessitava de esmolas, mas que o reconhecessem como homem, que pelo seu duro trabalho mais cuidados haveria de merecer.
Logo pela manhã o mineiro ia da superfície ao fundo da mina. Ia 750 metros ao poço mais fundo.
Chamavam-lhe o “poço juda”.
Primeiro descia o encarregado com uma lanterna especial, para ver se havia na galeria “gás”. É que se houvesse “gás” o mineiro não trabalhava, porque havia perigo de explosão. Mas, às vezes, apesar deste cuidado preliminar, o mineiro era apanhado pelo “mazuque” ou pelo “grizú” e então era a explosão inevitável. E da explosão quase sempre resultava a morte na mina.
É difícil imaginar a descida dos mineiros ao poço fundo, para o comum dos homens que giram à superfície.
O mineiro, esse tinha que descer em busca do carvão.
Numa primeira fase, enquanto a técnica não chegou, eram mulas que com a sua força muscular faziam andar a vagonas com o carvão e com os homens, nas profundezas da mina.
Para os animais era também um esforço bruto. Esforço tamanho que também eles, os animais, rebentavam.
Muitas vezes, perto da exaustão, diz o mineiro: - “levavam um tiro que lhes acabava com o martírio”.
Lá em baixo, na galeria estreita, homem e vagona, num bailado comum, iam alargando a exploração.
- Às vezes o homem era apanhado pela vagona. E alguns morreram – continuou o mineiro. Outros ficaram inutilizados para o resto da vida. Mas apesar de vermos essas cenas tínhamos de descer. No outro dia lá estávamos. Era a vida. Vida muito dura, que era assim que um homem tinha de a ganhar.

domingo, 9 de novembro de 2008

"Histórias de mineiros" (I)

Augusto Alberto
Vai "Barca Nova" dar início à publicação de uma série de histórias de mineiros.
Histórias recolhidas no contacto directo com os homens que no fundo da mina sofreram uma vida tormentosa.
São homens de idade avançada, muitos deles já partiram deste mundo, que lhes foi de canseiras e lutas. De pele, hábitos e movimentos rudes, que o constante bater da picareta na pedra assim os moldou.
São histórias amargas, de uma dureza de imagens que em nós reflectem um dado tempo que desejaríamos fosse abolido de vez da nossa terra, e que devem servir de reflexão aos mais jovens, que são os que ainda não as conhecem, de recordação aos que já as ouviram e aos que as fizeram como seus directos intervenientes.

Quem subir a estrada alcatroada, sinuosa, que se empina desde o Teimoso, fica decerto a mastigar docemente o mar de tons azulados lá por baixo, a língua de areia que se estreita até aos molhes curvando em Buarcos, a rocha negra que em maré vazia ocupa dezenas de pescadores desportivos ou a dada altura vislumbra num recôndito imenso a velha fábrica de cal. Mas não imagina que mesmo ali, ao lado da velha fábrica de cal, se encontra uma mina de carvão que hoje as águas do mar alagam. Há quem diga que se haveria de tentar ver a sua rendibilidade e que talvez se justificasse a sua reabertura. Mas isso é conversa de técnicos e para técnicos. Aqui para nós, interessa-nos são as histórias de mineiros que falam de suor e dor, de trabalho, de fome e até de uma greve.
Hás dias dizia-me um velho mineiro, meio em confidência, que o preocupava a sua doença. Isto porque nos últimos tempos velhos mineiros têm partido para o descanso eterno com tromboses repentinas e ele tem de estar à tabela porque à família numerosa ainda faz falta.
Disse-lhe que pensava correcto.
É que, dizia-me ele: aquela mina puxou muito por um homem. Havia buraquitos em que um homem andava somente com as ceroulas e a picareta, completamente deitado, e ao fim de 5 minutos era de vir para fora para tomar ar que lá dentro era de rebentar.
- Tinha de tirar as ceroulas tantas vezes quantas as vezes que vinha recuperar fôlego, espremê-las até ficarem mais enxutas. O suor, esse caía em bica. De novo voltava ao buraco, de novo vinha tomar fôlego e de novo espremia as ceroulas que de tão húmidas e retorcidas, conjuntamente com o pó de carvão, rompiam a pele e punham a carne em ferida pungente.
Compreendi que tais movimentos se apresentavam quase como um ritual para o mineiro e tentei imaginar esses quadros de sofrimento e de dor. Disse mesmo para comigo que bem feliz era ao pé deste homem por nunca ter saboreado tal dor.
Naquele momento, nada poderia dizer ao velho mineiro, a não ser dar-lhe a minha maior atenção. Permaneci mudo.
E ele continuou.
- Era preciso a gente lá ir. Era um sofrimento bem fundo, mas quê! Era preciso tirar a pedra negra. Quanto mais melhor. Era sempre de esgalha. A empreitada tinha de dar mais alguns tostões. É que a família esperava pelo dinheirito.
Fiquei mais uma vez a saber quanto a exploração feroz obrigava a trabalhar duro. É que a família vivia do ordenado do mineiro. O seu suor, a água escorrida das suas ceroulas era o pão magro e doloroso que haveria em cada dia de manter em pé o mineiro e os seus.
Era preciso que ele acordasse a cada manhã. Que voltasse ao fundo da mina de picareta em punho, com as ceroulas enxutas, daí a uns instantes completamente alagadas. Era preciso, porque a iniciativa privada mais retrógrada necessitava da sua força, dos seus braços, das suas pernas, dos seus nervos, para que o carvão não faltasse. Para que os seus cofres, as suas contas bancárias, o seu luxo, as suas noites de casino, fossem sempre uma constante.
Ao mineiro, esse que se lixasse. Bastava que lhe chegasse para um pedaço de broa, toucinho e para a pinga.
Que importava se tinha mulher e filhos. Um dia também haveriam de ser mineiros.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

As minas do Cabo Mondego e as "Histórias de mineiros"

São relatos pungentes estas onze “histórias de mineiros”, arrancadas a depoimentos dos próprios homens que conviveram com o sofrimento, a dor, as agruras e amarguras de um trabalho tornado mais duro ainda pela exploração sem escrúpulos, no tempo do fascismo. Dos homens que viram soterrados com esse sofrimento, essa dor, essas agruras e amarguras, qualquer sonho, qualquer ambição de uma vida condigna. Enfim, “homens que nunca foram meninos”.
Claro que eram outros tempos. Publicadas em 1980, no semanário “Barca Nova”, falam-nos de um tempo que, não o querendo de volta, é importante não o esquecermos. Um documento importante este conjunto de reportagens em que Augusto Alberto, ao emprestar-lhes um cunho literário aproxima-se muito de uma das mais importantes correntes literárias do século XX, o neo-realismo.
É o retrato da realidade social de uma época cuja importância em recordar se torna ainda mais urgente porque vivemos numa outra em que tudo se faz para branquear a ditadura que vigorou durante 48 anos neste pequeno país. Urge também estarmos atentos para que não haja um retorno.
Ao Augusto Alberto o meu muito obrigado por ter anuído à sua republicação. Aqui estarão, aos domingos.
Depois desta balada na voz de Graeme Allwright, passo a palavra ao Augusto Alberto.




O meu amigo Alexandre colocou-me mais um desafio e como é de esperar de um amigo, sendo sério o desafio, aceitei com todo o gosto. O de republicar um conjunto de 11 histórias, publicadas há mais de 28 anos, 1980, num projecto sério e meio quixotesco, por isso fresco e alegre, como são sempre projectos deste tipo, mas que tem um fim sempre ali adiante, num mundo como este, na procura dos novos escravos, saibamos. Falo do Barca Nova, que parece ainda revolver as entranhas a gente hoje rara e civilizada, que eu conheço e que também por ali passou. E se me é permitido, a elegância e o difícil da coisa é o de vestir sempre o fato do mesmo lado. Porque quando se resolve vestir o mesmo fato mostrando, agora, o forro para fora, então, então a isso eu digo que falta estaleca para estar de espinha direita, porque o mundo não andou para adiante, antes pelo contrário, recuou e essa gente ajeitou-se. Se dá jeito agora mostrar o forro do casaco, com o desafio entendi que republicar as crónicas a que dei na altura o nome escorreito e singelo de “Histórias de mineiros”, me pareceu também, ao cabo de anos, dar jeito, para que gente que faz bem em caminhar, correr ou ciclar, naquele lugar hoje muito visitado, saiba que por ali também gente, pelo menos há meio século, sofreu e amargou para viver. Que houve ali uma mina e uma mina é sempre lugar de canseira para quem desce e mais naquele tempo doloroso de polícia, com farda ou à paisana, de gente retorcida, porque um tostão era um tostão arrancado à sua fortuna fabulosa e um copo de vinho sempre era bálsamo para as dores. Nada muda nas crónicas, recolhidas à oralidade do mineiro. Dos mineiros não resta um único. Que tenham agora a paz porque em vida rolaram tal e qual as pedras de carvão arrancadas a pulso e bagas de suor. Das pequenas casas do bairro, pouco resta do desenho inicial. Filhos e netos acomodaram-se e trataram de as adaptar do modo possível. Resta a Santa num nicho e uma placa, dulcíssima, lá no cimo da serra, numa das entradas, em lugar ventoso e belo, que diz "Couto mineiro do Cabo Mondego".
Repito, o meu maior agradecimento ao meu amigo Chana.

Augusto Alberto