segunda-feira, 14 de abril de 2008

E sempre que Abril aqui passar... (IV)

Também os velhos são uma bandeira
(José Martins, in jornal Barca Nova, 3 de Março de 1978)


Estes dois velhos guardarão das suas vidas muitas recordações. Mas deixaram-nas apagar, como a um deles aconteceu com o cigarro. De que lhes valeria, também, recordar os tempos idos? A vida foi dos outros, dos que brincaram em meninos, dos que frequentaram a escola, dos que puderam seguir um rumo certo e definido. Agora eles!... terão alguma vez sido meninos? Tudo quanto se sabe é que chegaram à derradeira etapa com uma certeza aterradora: a de que os esperava um lento agonizar às mãos da caridade.

E no entanto, ninguém vai garantir que não foram trabalhadores dos mais esforçados, que não deram o melhor do seu suor na defesa do ofício que abraçaram sem escolha. Mas quando o fim chegou, quando os braços caíram e o corpo pediu descanso, toda uma vida que já fora de sacrifício, de privações e de trabalho, se esfumou na esmola de uma sopa.
Há no gesto destes dois homens todo o calor e o encanto da solidariedade. Mas não há apenas isso. Se virdes bem, também há todo o retrato de uma época que queremos ver desaparecida; há o alento para uma luta que desejamos ver continuada; há o alvorecer de uma jornada que precisa ser defendida; há uma bandeira que se nos dá para empenhar e progredir; há todo um Abril que nasce na expressão dos dois velhos.

4 comentários:

António Agostinho disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
António Agostinho disse...

Como lembro o que me disse o Zé, já lá vinte e muitos anos, num fim de tarde, na Tipografia Económica, perante a prova de página para rever (ainda com aquele cheiro característico, que nos inebriava e que nunca mais me largou, de que contínuo também a ter saudades, tal como do Zé), onde estava a foto dos velhos:

"Agostinho, estes velhos são uma ternura, não são?"

Claro que são. Foi isso que voltei a sentir perante este post. Ternura.

Anónimo disse...

É vital para a lucidez própria, compreender que cada história é datada e tem contexto e, assim, deve ser visitada. Viver dela, esquecendo o tempo que passa, é pateticamente insensato.Não o descernir, faz com que a mente se enrede no novelo fatal dos limos velhos. É esse o caminho dos náufragos da História.

Anónimo disse...

Importa-se de traduzir?