sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Crónicas em desalinho (II)

A propósito de uma reflexão de um leitor, anónimo, à minha "Crónica da China"

por Augusto Alberto (texto e fotos)


Aldrabões, agiotas, sacanas, coirões que nos massacram, com todas as estrelas, trajam a rigor, com fato e gravata, fraque e laço, passeiam-se em festas pelos brilhantes salões, beijam e são beijados, bajulam e são bajulados. São hoje o santo e a senha, o forte e o comum. Como não hei-de estar desiludido? E o meu anónimo leitor, sem dar por isso, descobriu num tipo desiludido, um cidadão simples e sério. Nem mais! A este meu leitor que quer ser anónimo, acredito que me conhece, aproveito para lhe chamar a atenção que tarda em perceber que ser simples e honesto nos dias que correm, é uma raridade. Gente assim, arrisca-se a enfileirar no reino dos dinossauros e a viver desconfortável, aqui sim, no meio daquela tralha. Começa a ser a normalidade. Mas há quem se dilua ou suporte, mas eu não.
Também lhe devo dizer que apesar de estar desencantado não estou baralhado nem com desconforto ideológico. A vida, tal como os movimentos sociais, tem avanços e recuos e eu espero em vida ver ainda muita coisa. Mas de facto, hoje, aquilo a que o mundo assiste é um colossal embuste e recuo, que sei como começou mas não sei como vai acabar. Logo veremos!

Falou-me do partido único e por antítese, de democracia. Encantado! Se por democracia é esta coisa de o meu caro poder comentar a minha singela e honesta crónica e de seguida eu poder dar algumas serenas e calmas réplicas, como o estou agora a fazer, então eu digo que é curto. A verdade é que ambos vivemos numa Pátria de 10 milhões de almas, em que mais de 2 milhões, cerca de ¼, estão mergulhados na indigência. Nem um pequeno sopro de democracia para aconchegar estômagos famintos. Temos partidos, temos bufarinheiros, jornais e fazedores de opinião, mas, talvez uma social-democracia e um “ socialismo de merda ”. Estes sim.
Bem sei que o gonçalvismo, a reforma agrária, que um dos pais da democracia, António Barreto, hoje eminência parda, sociólogo e fazedor de opinião, abjurou e ceifou. Nem sei se de novo o Alentejo não terá alguma coisa de feudal? Que as nacionalizações, a indústria pesada, etc., foram coisas que atrapalharam a democracia. Talvez mais democrático tenha sido o facto de os pides terem acabado os dias chafurdando na malga “democrática”, com razoáveis reformas ou empregos e os que nos cansaram e atrasaram durante meio século, tenham tido o tempo para continuar. Fique sabendo, porque eu já sabia, que as democracias são sempre ternas e meigas. É preciso saber perdoar como democraticamente se diz, e faz.
Como não hei-de estar desiludido?
Quero ainda remetê-lo para a leitura de um livro muito sério, o Império, escrito por Gore Vidal. São histórias com mais de um século. Escrito como se o autor estivesse sentado num banco de pé alto, para ter a possibilidade de ver e examinar o mundo americano lá em baixo, ao redor dos seus pés. Notável livro, que nos remete para uma espécie de manual de intenções, pela qual as administrações americanas se guiaram durante o último século e pela qual andamos a pagar as tropelias e desejos do império. Lido, compreenderá porque existe esta fobia com a China, que teve o seu auge na sistemática tentativa de diminuição dos Jogos de Pequim. Sem êxito. Porque um povo que consegue construir, sem olhar a montanhas e vales, aquela milenar, estóica e fabulosa muralha de 7.000 km, a pulso e músculo, e entrar pela modernidade com os seus fabulosos Jogos, só merece ser credor de respeito e admiração. Então cabe perguntar, porquê tanta vontade em dilacerar de novo esta Nação? A quem servirá? Com esta minha curta passagem, percebi ser evidentemente impossível atrasar e humilhar de novo a Nação Chinesa, e isso faz ranger os dentes a muita gente.

Lá ao lado, na Índia, considerada a maior democracia do Mundo, terá muitos partidos, mas a democracia continua anos a fio a fabricar indigentes e famintos, numa democracia feita de camadas, melhor dizendo, por castas, que me parece ser uma coisa detestável e imunda. Não o incomoda? Leia o insuspeito Salman Rushide.
Por último, desejo-lhe dizer o seguinte. O facto de haver muitos partidos não é sinónimo de mais e melhor democracia. No império existem dois partidos democráticos, com certeza. Como é comum por lá, o agiota com jogo na democrática bolsa, subsidia o partido republicano em 50% e o democrata em também 50%. Nada mais justo! Empata a democracia e quando há necessidade de a desempatar, sempre existe um juiz que não dá um chuto nessa democracia, porque a tornará feia e abstrusa, mas uma bondosa e democrática chapelada. É por isso que o Bush, eleito, não esqueça, é tolo e pacóvio de tanto lhe baterem na cabeça por lhe querem enterrar aquele chapéu.
Caro senhor, meu leitor, dir-lhe-ei que a democracia não pode ser assim uma coisa tão curta e injusta, mas sempre aproveito para lhe dizer que eu cá, quando há necessidade, do ponto de vista político, claro está, sou por umas democráticas porradas.
Antes de sair, quero dar um enorme abraço ao meu grande amigo Guimarães.

3 comentários:

Guimaraes disse...

Trabalhei 6 anos na China (Macau) e julgo ser útil dar uma achega à discussão, até porque a grande maioria dos portugueses tem como referências da China os longínquos filmes do Lin Chung e de Kung Fu, bem como os acontecimentos de Tien Am Men.
Muita gente me falou da devolução de Macau à China em 1999 como "independência" de Macau e do medo de acontecimentos semelhantes aos de Angola e Moçambique em 1975.
Ora, há que considerar que a China tem um território semelhante em área ao da União Europeia e 4 vezes mais habitantes, constantes de 60 povos, com línguas diferentes, sendo a grafia comum, e com rivalidades étnicas ancestrais, como acontece, na Europa, com os povos do Cáucaso e dos Balcans. Acresce que este país saiu da Idade Média há pouco mais de 50 anos, com a revolução maoista, que aproveitou a estrutura mental do antigo império para manter a unidade nacional.
Estão a fazer uma abertura económica gradual, mas que, dada a ganância das pessoas, tem os seus laivos de capitalismo selvagem, como se vê agora com a questão do leite.
Não quero discutir partidos ou ideologias. Isto são os factos e é preciso conhecê-los para poder fazer juizos de valor sobre este povo, que esteve ao nível dos gregos no tempo de Péricles, chegou a Moçambique 80 anos antes do Vasco da Gama e já tinha escolas de música e dança no tempo do sr. D. Afonso Henriques.

António Agostinho disse...

Estes democratas anónimos são um espanto...
Tantas liberdades e não conseguem sair do limbo?...
Homenzinho: critique, mas assuma, ponha o nome, cresça... e, depois, sim, apareça... estamos na SUA democracia. Qual é o SEU problema para se refugiar no anonimato?
Augusto Alberto, mais uma vez estiveste ao teu nível...
Gostei de ler. Um abraço

Anónimo disse...

Que pena o Augusto Alberto não ter continuado no registo de repórter de impressões e passar para o papel de crítico agreste de opiniões! A nossa razão não é maior quando rejeitamos a divergência. Desejo-lhe a maior sorte na vida, mas não creio que vá ver o mundo que pretende.