terça-feira, 23 de setembro de 2008

Crónicas em desalinho (I)

Crónica da China

por Augusto Alberto

Se julgam que na China anda tudo fardado e vestido do mesmo modo, é um erro e podem tirar o cavalo da chuva, porque é perda de tempo. Se também acham que é possível 20 ou 30 pessoas falarem sobre a mesma coisa, para que nada se decida e tudo fique na mesma, e no fim, são uns poucos e sempre os mesmos a capitalizar a falta de decisão e o caos, tal como cá, também podem tirar o cavalo da chuva. Para que não restem dúvidas quanto à comparação, quero aqui deixar o exemplo do processo Parque Mayer, com o arquitecto Gery a amarrotar uma folha de papel A 4, e a dizer, aqui está o projecto, e o adorado do “Pedrinho” a colocar-lhe na mão 500 mil contos e o Gery, como é óbvio, todo gostoso e quem sabe, a soletrar, pa-có-vios!
O que a China nos ofereceu foi uma magistral obra física, o complexo olímpico e a sua Aldeia. Não é possível descrevê-las, só sentindo-a, e uma cidade, Pequim, impregnada de modernidade. Modernidade que aumenta por camadas, à medida que nos vamos aproximando do espaço do complexo olímpico. Para tentar dar uma imagem mais próxima das coisas, cito novamente e comparo o momento de modernidade que foi o agora chamado Parque das Nações, antes a Expo’ 98, e que, como sempre, nesta Pátria, acaba mal. A escala de grandeza naturalmente é a favor do espaço olímpico, tanto pela imponência da área, como a da qualidade paisagística. Alias, quero aqui expressar, em minha modesta opinião, pois não sou arquitecto, mas tenho gosto, a notável presença da arquitectura de paisagem, magistral, deslumbrante e única, que povoa Pequim e sobretudo essa noção de camada, de que é feita a modernidade da cidade. É conhecida a simpatia e o encanto dos chineses pela árvore e a flor.
Os Jogos foram necessariamente um momento único de modernidade, que evidentemente tiveram o condão de rebocar aquela urbe. E ela é enorme. Dir-me-ão que aquilo foi para ocidental ver. Claro, nem mais, tinha de ser. Essa ideia de que o ocidental é o homo sapiens, é de todo perigosa. Um dia desses esse ocidental sapiens, afinal, vai perceber que é só um entre tantos que povoam este mundo. Para lá caminha, para lá caminha. Por outro, com que direito a nação chinesa, milenar, não poderá expressar a sua modernidade, tal como outras antes. Na Austrália olhámos para os magistrais Jogos e o moderno e notável edifício da ópera de Sydney, mas ignorámos, ou só esquecemos, por conveniente e cómodo desinteresse, o povo aborígene, autóctone, massacrado, quase sumido, e o pouco que resta, atirado para as fímbrias da sociedade australiana. Com todo o direito, os chineses querem ser modernos. E se por moderno é o estilo de vida ocidental, então vos digo, que aqueles chineses com quem vivi, e foram muitos, durante os quinze dias, são modernos. Vestem, e tem gostos como qualquer ocidental que se preze. Todas as melhores marcas de calçado, roupas, relógios, artigos de beleza, tecnologia de todo o tipo, etc, etc, lá estão. Viajam e falam inglês.

Bem vi que a China tem problemas sérios para resolver. Problemas do enormíssimo tráfego automóvel. Uma enormidade. Problemas com assimetrias sociais muito vivas, certamente. Criaram uma classe média urbana muito bem situada, de onde vieram os milhares de voluntários aos Jogos, e que segundo me pareceu, tal como a ocidental classe média e sapiens, gosta pouco de abalos que lhes traga incerteza. E nem sequer escondem. Enquanto cidadão deste mundo, fico na esperança que os resolvam na procura de mais e melhores equilíbrios.
Mas, queiram ou não, os Jogos, a sua estrutura material e a sua Aldeia Olímpica, são obra notável. Os conjuntos dos voluntários foram inexcedíveis de amabilidade e eficácia, e estou convicto de que esta modernidade de que se fez os Jogos e a cidade que os recebeu, vai ter continuidade, e por isso eu quero terminar de um modo muito claro, e de certo modo como uma mensagem para o ocidental sapiens; - não creio ser possível hoje e no futuro, encontrar nos parques e jardins das maiores cidades chinesas, aquelas frases escritas em inglês e mandarim, num período hediondo e humilhante para a nação chinesa, na primeira metade do século 20, na ressaca da colonização e do império inglês e em plena administração, sempre de cócoras, de Chiang Kai-shek, a ofensiva frase - proibida a presença a cães e a chineses.
É esta impossibilidade, parece-me, de humilhar de novo o povo chinês, que incomoda muito ocidental. Pois é, as coisas mudam e por vezes, sem darmos muito por elas.
Contrariando um anónimo, sempre um anónimo, eu não fiquei na China. Voltei e é por cá que desejo continuar e empenhado, como sempre. Desta feita apaixonei-me pelo movimento paraolímpico, como antes me apaixonei pelos dois clubes da cidade, por onde passei, com obra - haja memória no mínimo. A ele quero dar os meus próximos esforços. Mas sei de quem partiu para Pequim há 12 anos e não deseje voltar, mas continuar. Espantados?
Já sei que virão as piadas a açoitar esta minha breve crónica. Não faz mal, já estou preparado e no mínimo não me escondo no anonimato. Assumo-me comunista e também capaz de me emocionar até às lágrimas com a fabulosa recepção, em todas as áreas dos Jogos e na partilha do magistral espaço e com gente que apesar de aparentemente diminuída na sua condição física, não deixa de ser capaz de ser brilhante quando compete num barco ou na piscina, remando ou nadando somente com os braços, ou corre, auxiliado por um guia, que já tem de ser um super atleta, porque senão coloca em causa o notável desempenho do seu também notável companheiro, porque apesar da falta de visão a vida não o desclassificou como atleta e pessoa.

6 comentários:

Anónimo disse...

Obrigado camarada Augusto Alberto,por teres partilhado conosco a tua experiência. Talvez porque temos outra maneira de ver e de sentir as coisas e os homens, outra maneira de ser e de estar, humanista e solidária, talvez isso cause constrangimento aos egoistas e invejosos, desta maneira de estar na vida.
Gostei da tua prosa camarada.

Anónimo disse...

Alex
Já percebeste que:-o que eu queria dizer era "CONNOSCO"
Abraço

Fernando Samuel disse...

Magnífica crónica!
Além de relatar, com emoção mas com vísivel seriedade intelectual, uma experiência vivida, está muitíssimo bem escrita - o que, a meu ver, não é de importância menor...
Parabéns Augusto Alberto - e obrigado.

Um abraço e votos de bom trabalho.


(obrigado Alex por me teres proporcionado ler este belíssimo texto)

António Agostinho disse...

Cá temos o Augusto Alberto no seu melhor.
Um abraço

Anónimo disse...

Aplaudo a qualidade jornalística da crónica publicada. Leio, ou parece-me ler, algum desconforto ideológico na escrita de um homem honesto e simples, perante a extravagante via do "socialismo chinês"... Porque é que se chama aquilo "socialismo"? Só pelo facto de ser governado por um partido único, omnipresente e omnipotente, denominado PCC ?

Guimaraes disse...

Magnífica crónica. Só que não se trata de comunismo, socialismo ou outro "ismo" qualquer. É a milenar cultura e capacidade de realização chinesa, que Mao sábiamente retomou, a mostrar-se ao mundo.
Quanto à vergonhosa placa de "Forbiden to chinese and dogs", vi-a na ponte que liga Cantão à ilha onde se encontra o White Swan Hotel. Permanece lá, para que não esqueça...
Um abraço e parabéns ao treinador e à atleta. Participar nos Jogos já é uma distinção!