quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Histórias paraolímpicas (V)


 Augusto Alberto

Khumalo

Vinha calma e a esquadrinhar. Tudo era quase novo. Falo de Sandra Khumalo, uma mulher negra sul-africana, que um acidente de automóvel atirou para uma cadeira de rodas na condição de paraplégica e que descobriu no desporto e no remo, o engenho para viver. Descoberta para o remo adaptado por um colega italiano, na última oportunidade, em Belgrado, conseguiu a qualificação para os Jogos Paraolímpicos. Sandra é uma bonita mulher negra, alta e espadaúda, com uma envergadura acima de um metro e noventa centímetros, que lhe dará oportunidade de obter, no futuro, reconfortantes alegrias.

Contudo, o que pretendo aqui revelar não foi o seu êxito paraolímpico, mas o facto de Khumalo ser uma mulher de 30 anos, mãe de 2 filhos, o mais novo quase a chegar aos dois anos e ter tido a coragem de se libertar de conceitos e modelos conservadores, e fazer a procura do melhor da sua vida no desporto. Ainda por cima, escolhendo o alto rendimento. Alguém me disse a propósito desta minha observação, que por ventura, estaremos perante uma família sul-africana de boas posses. Acredito que sim, mas também é verdade que mulheres com boas posses, há-as em muitos locais do mundo, sem contudo, conseguirem a sua carta de alforria. Desde logo, neste mundo ocidental católico e temente a Deus e sobretudo, em muitos países muçulmanos, ricos em petróleo e dólares. É o caso da ditadura, tão ao gosto ocidental, da Arábia Saudita, em que a mulher, mesmo a mais rica, tem severas restrições sociais e culturais. Desde logo, impedida de andar destapada na via pública. De tal modo, se decide e são muito poucas, ter a sua actividade desportiva, fá-lo sempre tapada e em desconforto. Impedida de conduzir. E impedida de se ausentar sem a companhia do marido.
Khumalo vive numa sociedade ainda muito manietada por conceitos da menoridade da mulher e tribais, de muito perigoso infantilismo politico, (o caso recente das minas), e onde de certo ser mulher por completo, ainda deverá ser uma estucha. Khumalo libertou-se. É mãe de dois meninos que a visitaram na companhia do marido. E Khumalo teve ainda um grupo numeroso de apoiantes, muitos, com a bandeira da sua pátria, bem aberta, ou simplesmente enrolada no corpo. Khumalo ouviu gritos de Sud-África, apesar de ser uma mulher negra, de homens e mulheres brancas. Mistério? Não me parece, porque de facto, muito se andou na África do Sul.
Khumalo é uma bonita negra, a quem felicitei, na minha hora de despedida dos jogos, mesmo sabendo que ela me ganhou, porque chegou à frente da minha atleta. Mas isso é o que menos conta. O que conta, é que Sandra Khumalo vai ter o prazer de continuar a fazer o que gosta, ser mãe e remadora olímpica e para uma negra, é obra. Khumalo, as suas e seus apoiantes, ensinam-nos, a nós, ocidentais quase tolhidos, que só se anda, andando.

1 comentário:

karipande disse...

Aproveito este post para te parabenizar pela excelencia e assertividade dos temas do teu blog. Tenho-o em RSS e leio-o sempre com muita atenção. Um verdadeiro homem do Uige e da Figueira da Foz. estamos juntos!!!