domingo, 9 de novembro de 2008

"Histórias de mineiros" (I)

Augusto Alberto
Vai "Barca Nova" dar início à publicação de uma série de histórias de mineiros.
Histórias recolhidas no contacto directo com os homens que no fundo da mina sofreram uma vida tormentosa.
São homens de idade avançada, muitos deles já partiram deste mundo, que lhes foi de canseiras e lutas. De pele, hábitos e movimentos rudes, que o constante bater da picareta na pedra assim os moldou.
São histórias amargas, de uma dureza de imagens que em nós reflectem um dado tempo que desejaríamos fosse abolido de vez da nossa terra, e que devem servir de reflexão aos mais jovens, que são os que ainda não as conhecem, de recordação aos que já as ouviram e aos que as fizeram como seus directos intervenientes.

Quem subir a estrada alcatroada, sinuosa, que se empina desde o Teimoso, fica decerto a mastigar docemente o mar de tons azulados lá por baixo, a língua de areia que se estreita até aos molhes curvando em Buarcos, a rocha negra que em maré vazia ocupa dezenas de pescadores desportivos ou a dada altura vislumbra num recôndito imenso a velha fábrica de cal. Mas não imagina que mesmo ali, ao lado da velha fábrica de cal, se encontra uma mina de carvão que hoje as águas do mar alagam. Há quem diga que se haveria de tentar ver a sua rendibilidade e que talvez se justificasse a sua reabertura. Mas isso é conversa de técnicos e para técnicos. Aqui para nós, interessa-nos são as histórias de mineiros que falam de suor e dor, de trabalho, de fome e até de uma greve.
Hás dias dizia-me um velho mineiro, meio em confidência, que o preocupava a sua doença. Isto porque nos últimos tempos velhos mineiros têm partido para o descanso eterno com tromboses repentinas e ele tem de estar à tabela porque à família numerosa ainda faz falta.
Disse-lhe que pensava correcto.
É que, dizia-me ele: aquela mina puxou muito por um homem. Havia buraquitos em que um homem andava somente com as ceroulas e a picareta, completamente deitado, e ao fim de 5 minutos era de vir para fora para tomar ar que lá dentro era de rebentar.
- Tinha de tirar as ceroulas tantas vezes quantas as vezes que vinha recuperar fôlego, espremê-las até ficarem mais enxutas. O suor, esse caía em bica. De novo voltava ao buraco, de novo vinha tomar fôlego e de novo espremia as ceroulas que de tão húmidas e retorcidas, conjuntamente com o pó de carvão, rompiam a pele e punham a carne em ferida pungente.
Compreendi que tais movimentos se apresentavam quase como um ritual para o mineiro e tentei imaginar esses quadros de sofrimento e de dor. Disse mesmo para comigo que bem feliz era ao pé deste homem por nunca ter saboreado tal dor.
Naquele momento, nada poderia dizer ao velho mineiro, a não ser dar-lhe a minha maior atenção. Permaneci mudo.
E ele continuou.
- Era preciso a gente lá ir. Era um sofrimento bem fundo, mas quê! Era preciso tirar a pedra negra. Quanto mais melhor. Era sempre de esgalha. A empreitada tinha de dar mais alguns tostões. É que a família esperava pelo dinheirito.
Fiquei mais uma vez a saber quanto a exploração feroz obrigava a trabalhar duro. É que a família vivia do ordenado do mineiro. O seu suor, a água escorrida das suas ceroulas era o pão magro e doloroso que haveria em cada dia de manter em pé o mineiro e os seus.
Era preciso que ele acordasse a cada manhã. Que voltasse ao fundo da mina de picareta em punho, com as ceroulas enxutas, daí a uns instantes completamente alagadas. Era preciso, porque a iniciativa privada mais retrógrada necessitava da sua força, dos seus braços, das suas pernas, dos seus nervos, para que o carvão não faltasse. Para que os seus cofres, as suas contas bancárias, o seu luxo, as suas noites de casino, fossem sempre uma constante.
Ao mineiro, esse que se lixasse. Bastava que lhe chegasse para um pedaço de broa, toucinho e para a pinga.
Que importava se tinha mulher e filhos. Um dia também haveriam de ser mineiros.

3 comentários:

António Agostinho disse...

Há 28 anos, tive a oportunidade de ler estas "estórias", antes de serem publicadas, escritas pelo punho do Augusto Alberto.
De vez em quando, dado que tenho todos os Barca Nova encadernados, passei os olhos pelos textos do Augusto alberto.
Revê-los, aqui, vai ser uma experiência nova e, de certa modo, estranha.
Parabéns ao Alexandre pela ideia e obrigado ao Augusto Alberto pelos textos.
Um abraço aos dois.

Anónimo disse...

Grandes homens que tanto trabalharam, vivendo sem o minimo de condições, acabando por falecer, com as doenças concequentes do desempenho das suas funções, sem direito a coisa nenhuma.
Estas são histórias verdadeiras que deveriam envergonhar o ser humano, mas infelizmente é preciso continuar a LUTA para que a exploração acabe de vez.
Obrigado camarada, por divulgares estes casos de flagrante injustiça social.
Abraço

Anónimo disse...

Estes textos são óptimos instrumentos de arqueologia social, pese embora o estilo neo-realista tão naif...