terça-feira, 27 de outubro de 2009

Carta aberta a um amigo

Se se nota desilusão neste teu texto também é verdade que só se desilude quem anda iludido. Fizeste-me rir quando disseste que Portugal deveria ser uma democracia limpa.
Por várias razões. A primeira, é que democracia não existe. Como já deverias saber, é um conceito muito vago, muito discutível. A segunda é que “democracia burguesa” (o sistema vigente) limpa é coisa impossível, já que a classe dominante não é limpa. Estamos a ser governados por porcos e pelos seus seguidores. Repara que as duas obras mais perduráveis de dois dos governantes portugueses das últimas três décadas são autênticos recuos civilizacionais. Vejamos: Durão Barroso disse-nos que ia acabar com as armas de destruição massiva do ex-aliado dos americanos e destruiu um país, mas acredito que a consciência não lhe pesa pelos milhares de vítimas civis que causou e ainda causa, José Sócrates prepara-se para deixar Portugal, dentro de um ano, com um milhão de desempregados. Estes dois actos, não sou ingénuo, não foram lapsos, enganos, incompetências. Foram e são perpetrados, fazem parte das suas políticas. E não falo do incêndio à embaixada espanhola, nos idos de 75.
Também me fizeste rir quando disseste que isto tem de mudar. Sabes que isso não muda porque quem tem o poder não quer mudar, só largando-o, e isso só violentamente, porque também recorre à violência para o manter.
Agostinho, fizeste-me lembrar também o “velho Quim”, o que ele te disse uma vez, lembras-te?
Deixo-te um poema de Cândido da Velha, poeta angolano nascido em Ílhavo. Um poema que fala do teu mar:

É do mar que vêm estas vozes

é do mar que vêm estas vozes
silabando a linguagem das marés,
gravando na areia estranhas grafias
onde, quem sabe ver, desvenda o rumo
no sobressalto das ondas.

este permanente arfar marinho
desperta a ressonância do oculto escuro
de obscuros templos submersos onde o coração,
descompassadamente, se perturba
na iminência do segredo revelado.

cheiros de primeira pátria,
nesta urgência de sal em nossos membros,
atrai as pegadas para a líquida planura
pela saudade de verde glauco
que estira os corpos na fronteira do mar.

reminiscência da primeira voz,
neste marulhar à concha dos ouvidos,
desperta nossa cólera e angústia
de malograda fuga e de nos vemos,
na bagagem das águas, de olhos vítreos,
adormecidos peixes sobre a areia.

3 comentários:

António Agostinho disse...

Meu caro Alexandre:
Antes de mais, deixa-me demonstrar a minha satisfação por te ter feito rir…
Nos dias que passam é um feito digno de registo…
Não vou comentar as tuas opiniões sobre se a tua democracia existe ou não…
O que eu penso, é que “Portugal, deveria ser uma democracia limpa. Mas, não é assim, o que interessa, acima de tudo, é o poder, nem que para isso se condicione cada vez mais a democracia.
Mas, isso pode e deve mudar. Todos podemos prestar o nosso contributo para a mudança, por exemplo, aumentando os critérios de exigência naquilo que queremos para a nossa Terra, para o nosso concelho e para Portugal...
Tão fácil e simples como isso.”
Obrigado pelo poema de Cândido da Velha.
Um abraço

Anónimo disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
alex campos disse...

Vou apagar o comentário, não por falta de coragem para o manter, mas porque a caixa de comentários deste blogue não serve para a maledicência cobarde acoitada no anonimato.
Terei todo o gosto em publicá-lo a partir do momento em que o senhor (ou senhora) o assine.