quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Não querem que mudemos, porque assim está bem

por Augusto Alberto


Nos Jogos Olímpicos de Los Angeles o País ficou suspenso da final dos 10.000 metros e quase ciente da vitória de Fernando Mamede. Foi apaixonante e o meu saudoso amigo Armando Vareta, desafiou-me para uma noite de esperança. É preciso lembrar que o tiro para a final seria dado cerca das 05.00 da manhã. Recusei, porque tinha a certeza de que Mamede como quase sempre, sairia pela porta do túnel de acesso à pista. Dormi docemente nessa noite e pela manhã confirmei essa minha suspeita. O meu amigo Vareta ficou como toda a nação, desolado. E eu também, porque mais uma vez, Mamede ficou-se pela entidade biológica de alto rendimento e negou-se renovadamente à alta competição.Imagino como sofria nesses momentos que se exigiam de superação.
Também aqui o meu amigo Alexandre, titular desta “aldeia olímpica”, deu nota e bem, da sua desolação quando encarou numa manhã de 5ª Feira a primeira página do jornal diário “O record”. Nesta aldeia deu-se discussão, e não querendo dar de barato a triologia, fado, futebol e Fátima, quero aqui também entrar.
As coisas são só o resultado daquilo que somos como povo há muitos anos, pobre, e por isso, digo, ávido em permanência de alguma coisa que o ajude a compensar tanto sofrimento, uma simples alegria, nem que seja efémera. E aqui começa logo a porca a torcer o rabo, porque não temos a cultura de depois de conseguir um êxito, voltar a colocar tudo no ponto de partida e partir para novo ciclo. De um modo geral, queremos andar ou chegar à frente sem grande trabalho e isso não existe. A alegria desportiva não se compra, fabrica-se. Salvo honrosas excepções, isso não é matéria em que sejamos especialistas. Tudo é mais ou menos casuístico.
Entretanto, alguma discussão resvalou para a lógica do lucro, tão legítima como qualquer outra, neste mundo canalha, digo, mas, apesar, quero aqui provar que existe mais vida para lá do futebol, deixando pequenos exemplos de experiências para lá dos Pirinéus, mesmo que elas tenham lugar em mundos onde o futebol e o lucro também se confundem, mas onde os outros têm o seu espaço e às vezes bem abundante, e isso depois, muito naturalmente, tem expressão nos resultados que cada uma dessas nações obtém nos grandes eventos internacionais.
Começo por referir que na Flandres, o vencedor do Paris/Roubaix em ciclismo, é o herói da festa e amplamente publicitado tanto na imprensa escrita como falada. Na fria Finlândia, onde os desportos da neve levam vantagem, lançar o dardo é disciplina de heróis e a bela Tânia Lilak, multipla campeã do Mundo e olímpica, atingiu na Pátria falada e escrita, o Olímpo. O Ténis de Mesa arrasta multidões na China. Em Itália, onde o cálcio gera paixões, muitas das vezes irracionais, Milão vê correr pelas suas ruas e avenidas, acima das 50.000 pessoas, na sua Meia Maratona anual, a Stramilano e em 1998, a RAI parou a transmissão de um jogo em directo do cálcio, para transmitir a final do Campeonato do Mundo de remo em shell 2 com timoneiro, ganho pela dupla campeã olímpica, gémea, dos irmãos Abanhale. Nesse ano, um deles foi atleta do ano em terra de futebol. Em que mundo a TV pára o futebol a favor de uma final de remo? Também no ano em que estive em Itália, Pantani foi o herói falado e escrito depois da sua vitória no tour e o Giro disputa taco a taco com o futebol as paixões. Há anos, em França, assisti na imprensa falada e escrita à final do campeonato nacional de rugby. Dentro do estádio, estavam ansiosamente 80.000 pessoas e no exterior estavam mais 20.000 coladas ao som e às imagens passadas em ecrã. O Tour, essa irresistível paixão do Verão, do L’Equipe, leva a palma e os ciclistas são os verdadeiros sujeitos da História. Londres pela Páscoa mobiliza-se, sempre com os morangos com chantily no bornal, na ordem dos 300 mil anónimos, para assistir à mítica Oxford/Cambridge. No final, o derrotado, com garbo, desafia o vencedor para voltarem à desforra. É a renovação do acto.
A pequena Holanda desafiou-se para ver o seu shell 8 com timoneiro ser campeão olímpico em Atlanta, dando a única medalha olímpica à pátria que acabou com lágrimas de emoção. E para acabar, coloco no centro, o rugby, que em terras de sua majestade marca paixões.
Fico-me para não provocar indigestão aos leitores e provar que apesar de tudo há mais mundo, e na nossa terra, só não há esse outro mundo porque à cultura dominante do lucro, estão associados baixos níveis de exigência e falta de atitude crítica. É o paradoxo e o liberalismo no seu pior. Ou seja, quanto menos exigentes como povo melhor, e é por isso que quando há futebol as bandeiras são aos molhos e o Belmiro de Azevedo e o Ferraz da Costa, figura com ar de quem gostaria de ser torcionário, falam do modo como falam.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Mas quem nos há-de acudir?

Ou o que há-de ser de nós se não formos nós?
Ela é a arte, ele é Courbet, ela é a origem do Mundo, tá tudo ilegal e fora da lei?????
O pintor foi o autor da primeira exposição individual da História da Arte. Parece que quer ele quer elas começam a estar ilegais em Portugal.
Ou alguém anda a fumar e a beber “coisa forte pra caraças” ou então, devagar, devagarinho, recordam-me um certo ministro, aqui há muitos anos, que dizia que quando ouvia a palavra cultura…
O chato é que… devagar, devagarinho…
Até porque o governo do supracitado ministro também era nacional-socialista.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Zeca

Os poetas não morrem

As Pedras Negras





As Pedras Negras de Pungo Andongo, Malange, em Angola, é um belo recanto nomeado para as 7 novas maravilhas naturais do mundo.
Na primeira foto podem-se ver umas pedras conhecidas por "Cabeça da velha".
Na segunda, a pequena aldeia de Pungo Andongo, mais conhecida por Pedras Negras, onde vivem 16 pessoas.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Desculpem-me o desabafo


Braguíssimo


Lembram-se quando Nelson Évora ganhou a medalha de ouro nas olímpiadas? Foi esta a capa de um jornal desportivo português. Outros casos idênticos poderia citar. De Naide Gomes, quando ultrapassou pela primeira vez os 7 metros, ao apuramento do Boavista pra uma meia-final de uma competição europeia, há de tudo.
Hoje, após uma brilhante vitória da equipa de futebol do Sporting de Braga num jogo internacional a cena repete-se. E com o mesmo jogador que retirou a manchete ao atleta do Benfica e que, na altura, ainda não tinha feito qualquer jogo em Portugal.
É curiosa a relevância dos factos para certa imprensa. Qualquer dia há um terramoto e as manchetes dizem-nos que o Reyes tem um panarício.

Democracia? Onde... onde?




Por exemplo, é assim que o "Tratado Porreiro Pá" , como aliás muitas outras questões de vital importância para os povos ocidentais, vai ser aprovado e aceite "democraticamente", sem que esses mesmos povos tenham voto na matéria. É assim nos países campeões da democracia.
Nas ditaduras, como no caso do tenebroso ditador Chavez, fazem-se referendos, o que é um paradoxo que eu ainda não consegui entender muito bem, pois estes são uma instituição absolutamente, inegavelmente, primorosamente, democrática.
Devo concluir que os desígnios referendisticos são como os de Deus: insondáveis.
Enfim! É mesmo preciso pachorra.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

O fascismo anda por aí...

Não é exagero nenhum afirmar que o fascismo anda por aí. Não será aquele, pronto vá lá... quimicamente puro. Mas como até vem com pézinhos de lã e não com botas cardadas, faz-nos lembrar aquela história da rã, que colocada numa tina com água fria lá se ia espraiando, a água ia aquecendo e ela cada vez mais maravilhada, até que... já era tarde, morreu cozida. Se a tivessem megulhado logo em água a ferver ela teria saltado muito a tempo de se salvar.
Vem isto a propósito disto. Dá mesmo que pensar. Se ainda não tivermos os miolos cozidos. Penso que não, ainda não é tarde.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Um código todo xuxa

Entra hoje em vigor mais uma das anomalias do governo “ps”: O famigerado Código de Trabalho, que, pelas noticias que se ouvem, não agrada nem a gregos nem a troianos, que é como quem diz, nem ao patronato nem aos sindicatos.
Claro que nestas coisas alguns queixam-se com, como se costuma dizer, de barriga cheia. É o caso do patronato reaccionário, desculpem o pleonasmo, pois não se conhece dele progressista, como costuma dizer o meu camarada Augusto Alberto, “um patrão é um patrão, seja aqui seja no Japão”.
Queixa-se então o patronato, também é preciso não ter vergonha nenhuma para tal, que vai pagar mais por cada empregado. Mas o Código dá-lhe a solução, permitindo-lhe despedir a torto e a direito, basta-lhe querer. Esta é uma das muitas facetas terríveis do famigerado, ataca a segurança no emprego, aumenta a carga laboral sem contrapartidas, aumenta o trabalho precário, aumenta o desemprego, atacando também a contratação colectiva, um dos direitos fundamentais do trabalho digno numa sociedade civilizada.
Outro dos que “têm” queixas do código é uma agremiação que se intitula central sindical. Falo da UGT, que nada fez contra este código de trabalho ou contra outro qualquer. E mais, o seu secretário-geral é dirigente nacional do “ps”. Mais fez o próprio “ps” contra o código de Bagão Félix, como pode ver aqui, código esse que acaba de agravar. Estamos perante uma comandita de hipócritas.
Hoje é mais um dia negro da história desta “democracia”. Considero que a entrada em vigor deste código de trabalho é um recuo civilizacional.



O cartoon de Fernando Campos, com a devida vénia

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Distrital de Salto em Altura em sala

No campeonato distrital de salto em altura, em sala, realizado esta manhã no pavilhão da Escola Secundária Mário Augusto, nas Alhadas, o estudante daquela escola e natural daquela vila, João Ferreira, de 11 anos,venceu na categoria de infantis, ultrapassando a fasquia a 1,45 metros, uma boa marca atendendo ao facto do atleta ser infantil do 1º ano.
Como nota negativa, só uma escola e uma colectividade, o Girassol, de Cantanhede, competiram, tendo um atleta de Cantanhede vencido a competição em juvenis com 1,65 metros.
Nestas duas categorias, o record distrital é pertença do atleta da SUO Vais, Pedro Mossamedes, com 1,75 e 1,96 metros, respectivamente.





Quero todas as noites dormir em paz

Augusto Alberto

Nasci na Figueira, em zona de artificies, o Vale, mas cedo a família mudou para Aveiro, mais concretamente para as Gafanhas. Fixamo-nos na Praia da Barra, o meu lugar fetiche. Por lá cresci, passei de menino a jovem e depois a adolescente. Fiz paragens, mas sempre regressei, até me fixar em definitivo nesta minha terra natal. Por lá ainda tenho família muito chegada, deixei a minha mãe enterrada e há muito pouco tempo uma jovem sobrinha. A saudade está-me sempre a chamar, mas não creio que possa voltar, a não ser por escassos momentos. Habituei-me a adormecer com o som da vozeira ronca que em dia ou noite de nevoeiro, lá do alto dos mais de 60 metros do esguio farol, sinalizava os barcos que passavam, indicando que ali está uma barra e terra. Em 1964, se me não engano, da janela mais alta da casa onde vivi, vi em aflição, em tarde de muito vento e mar cão de Setembro, virar a traineira Praia da Atalaia e levar para si dezenas de vidas. Foi um horror.
Pelo molhe interior, a chamada meia-laranja corriam e correm, numa espécie de romaria, famílias inteiras na hora da chegada ou da partida dos barcos da frota do bacalhau. Recordo-me de gente estrangeira, franceses e alemães, de gravador na mão, a registar sons de alegria quando da chegada, ou de dor na partida. O som do barco na despedida, parecia um punhal que retalhava e entrava pela carne. Muitos dos meus amigos de escola, tinham pais nesses mares longínquos e partilhavam com eles poucos dias por ano. Ficaram barcos célebres, o Santa Mafalda, o Santa Joana Princesa, o Capitão Ferreira, o Rainha Santa Isabel e outros, alguns utilizando ainda a técnica da pesca à linha.
Há anos atrás, movido pela saudade, comprei uma revista de grande qualidade gráfica e documental, editada por alturas da exposição de 1998, a “oceanos”, que trata exactamente dessa epopeia do bacalhau. Não me foi barata, mas valeu a pena, porque me respondeu às saudades e a muitas inquietações. Dessa revista desejo, nesta hora de novas inquietações, sublinhar aqui justas preocupações.
… Em finais do século XVIII, os colaboradores das memórias Económicas da Academia, lastimavam a decadência das pescarias do reino de Portugal. Apontavam como factores dessa decadência a extrema ignorância e pobreza dos pescadores…as vexações dos oficiais de justiça quando da arrecadação dos tributos...
…mas então como explicar que Viana do Castelo ainda contasse com uma flotilha de 80 embarcações, em 1750? E porque razão em 1816, já não tivesse uma única?... é que tomadas do delírio das grandezas, todas elas (as embarcações) se tinham metido de carreira para o Brasil, que foi sempre terra encantada.
…Alberto Souto, deputado por Aveiro, em 1097, disse… – bom seria que se protegesse essa importantíssima indústria através da aplicação “na protecção aos pescadores, marinheiros e empresas nacionais uma pequena parte desse imposto”, evitando-se, assim, “ a emigração das terras da beira-mar…”
Dá a ideia de que nada nesta pátria muda e duvido que alguma vez este povo tenha sido feliz. Estamos há séculos entregues a elites de fancaria, inapta, de um só sentido, que salivam apesar de pança cheia, mesmo com o povo de rastos. Ontem, como hoje, os banqueiros, o freeport, o siresp, as armas, as fardas, os aviões, os submarinos, as universidades privadas, os meninos da Casa Pia e a justiça a passo de lesma, (mas só quando interessa). Tudo rasteiro, fundo e imundo. Alguém dizia dias atrás que o momento é semelhante aos dias da 1ª República. Não sei, mas se o meu duro pai fosse vivo, talvez me confirmasse que sim. Dá a ideia de que como nação estamos, hoje, mais uma vez num pico de orfandade. Parece não haver ninguém capaz de nos estender uma almofada, mas é bom que saibamos, que antes de mais, dependemos de nós.
Contudo, ainda desejo partilhar aqui uma ideia, deixada numa crónica, por um historiador, professor, fazedor de opinião e reaccionário, que por uma vez teve alguma lucidez - é bom que os comunistas não se desunam, porque neste momento difícil se deixarem de ter a possibilidade de manter as coisas socialmente controladas, então talvez nos venhamos a arrepender - . Palavras sábias. Parece-me que de facto, mais uma vez, como em tantas outras ao longo da história, que vamos ser nós, Comunistas, a tirar as castanhas do lume, ainda que aqueles a quem mais damos não nos entendam. Não sei se é fado, o que eu sei é que não vale desistir. Por mim, quero todas as noites continuar a falar para a almofada com calma e dormir em paz.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Paraolímpicos

Sempre utilizei a palavra paraolímpicos pela simples razão de me parecer a forma mais correcta de a dizer e escrever, atendendo ao próprio significado da palavra. Mas, já por várias vezes, nos comentários, me têm corrigido e de maneiras diferentes. Que se diz paralímpicos, escreveram uns, que se diz parolímpicos escreveram outros. Se esta última forma me parece nem sequer existir, por nada significar, já aquela, derivada do inglês, me parece uma forma errada de nos referirmos ao que efectivamente queremos referir. Errada quer na adaptação para português, quer mesmo na própria língua inglesa, mas quem sou eu para me referir à língua de Shakespeare. Por isso não direi estarmos em presença de outra bestialidade inglesa, deixo isso para o grande Mestre. Respeitando as palavras e os seus significados, nem “para” nem “olímpicos” devem ser amputadas. Retira-lhe o significado.
Aqui pode encontrar uma explicação mais pormenorizada.

Atleta figueirense nos Jogos Paraolímpicos

Catarina Marques, atleta da Sociedade União Operária, obteve os mínimos nos 800 metros para estar presente nos Jogos Paraolímpicos para surdos que se realizam em Setembro, em Taipé. A marca obtida pela atleta é a 10ª melhor marca europeia do ano.
Também nos 3000 obstáculos a jovem que representa a colectividade dos Vais vai tentar fazer os mínimos e assim poder competir em duas provas.
A competição paraolímpica destinada a surdos não se realiza conjuntamente com os Jogos Paraolímpicos no mesmo Verão dos Jogos Olímpicos, efectuando-se sempre no ano seguinte.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

O homem que não tinha espelho

Em 2004, então na "oposição", José Sócrates, muito premonitoriamente, zurzia na política que um ano mais tarde encetaria. Assim se ilustra os pesos e as medidas, as ideias e a falta delas, o que se defende e o que não se defende, consoante se está na "oposição" ou na governação.
Assim se explica como vai o país: de carrinho, como dizia o poeta.
Assim se deduz que só se deixa enganar quem quiser mesmo deixar-se enganar.
Feitios, digo eu.

Ella

Ouvindo Ella Fitzgerald

noite calma e pacífica. Tão velha
de milénios, porém sempre nova e única.
certamente que lá fora, na túnica
inconsútil, rebrilha uma centelha

da minha insólita estrela. (é tão fumo
já, na memória fria…). Aqui, joga-se,
enquanto, Ella, pastosa e doce, afoga-se
em nós. É assim, meu caro, teu rumo

na vida. E é bela! Conquistada! A prumo!
com o sol… no horizonte prometido…
é seca a tua fonte? – Sem sentido

seria, se de linfas mortas fosse…
é fervente, acre, com teu sangue e sumo
de fel? – É tua! Por isso te é doce





segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Há uma Ingrid que nunca me enganou

por Augusto Alberto

Ora cá está. Nunca me passou pela cabeça ver numa fotografia, Ingrid Bettencourt a banhos. Aliás, deixem-me dizer, roliça de carnes. Sim senhor… Os meus parabéns.
Mas essa fotografia remete-me para lembranças passadas, de há muitos anos, em que convivi com gente da América Latina. Brasileiros, do tempo dos generais, que me falaram da pilhagem e das torturas, talvez a mais famosa em toda a região, o pau-de- arara. Aliás, do Brasil ainda é recente a morte dos meninos pobres na Igreja da Candelária às mãos de esquadrões da morte, pagos por gente que detestava ser incomodada. Com argentinos, com quem mantive uma relação tão afectuosa que me foi difícil despedir para sempre, recordo histórias da repressão da ditadura dos coronéis. Violentíssima! Era comum despachar os resistentes empurrando-os dos aviões para o oceano. Aliás, prática utilizada pela Pide em Moçambique, para fazer desaparecer quadros da Frelimo em pleno Indico. Não vale tirar o cavalo da chuva, nem esquecermos este pedaço da história Pátria. Da Argentina fica e ainda persiste o movimento das mães e esposas da Praça de Maio, sempre na sua pergunta pelos filhos e maridos, e constantemente sem respostas, como é óbvio. Mas as histórias do Chile estavam frescas, muito frescas. O Chile ainda estava zonzo da barbárie. Aliás, é bom recordar a passagem de uma figura sinistra, que por lá e por cá passou, amigo de gente de bem, especialista em trabalho soturno, para o qual esteve sempre talhado, e bem. Carlucci, personagem também dessa coisa suez que é a história do Freeport de Alcochete. Os coirões sempre confluem no mesmo tempo e espaço.

Do Chile, contaram-me histórias de rara violência. Enjaulado no grande estádio de Santiago, falaram-me da tortura sobre o cantor Victor Jara, decepado até à exaustão. A procura casa a casa e o abate a frio sem resistência. Neruda morreu breve. Mas espantoso foi o modo como me foi explicado a preparação do golpe. Num dado momento todo o sistema de transportes foi parado e damas, que nunca tiveram fome, antes pelo contrário, durante muitos anos viveram no desperdício, sentiram naquele momento um vazio no estômago e desataram em hora marcada a bater com os testos dos tachos e panelas no chão das ruas e avenidas em sinal de protesto pela fome que passava. Uma variante macabra dessa tenebrosa oligarquia.
E agora paro eu e deixo Neruda falar, para sublinhar a verdade.
- O Chile tem uma longa história civil…e só dois grandes presidentes, Balmaceda e Allende.
- Allende foi assassinado por ter nacionalizado…o cobre… a oligarquia chilena organizou revoluções sangrentas… As companhias inglesas no tempo de Balmaceda, a norte – americanas no tempo de Allende, fomentaram e apoiaram esses movimentos militares.
- Nos dois casos, as casas dos presidentes foram esvaziadas por ordem dos nossos distintos “aristocratas”.
-Escrevo estas rápidas linhas para as minhas memórias apenas três dias sobre os factos inqualificáveis que levaram à morte o meu grande camarada: o presidente Allende.
Pouco tempo depois de ter redigido estas linhas, escritas num livro a que genericamente se deu o título, “Confesso que vivi”, Neruda morreu cansado e triste, mas dessa feita no dia do funeral a tropa sossegou e permitiu que tudo acontecesse, em paz. Mas antes de terminar, quero lembrar a quem anda distraído ou sem memória, que, como aqui conto, houve um outro 11 de Setembro, antes do 11 de Setembro das torres gémeas. Foi precisamente o do Chile em 73. Para os efeitos, convêm esquecer o primeiro. Pois é! Desiludam-se aqueles que acham que a natureza do império vai agora mudar.
A Ingrid foi a banhos e apresentou-se-nos suculenta após tempo em que esteve quase às portas da morte, disse-se, mas não sei se ela sabe que a Colômbia continua como o Chile de Pinochet. O que acho é que para ela tanto faz, logo que os banhos lhe saibam bem…

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Pedro Ferreira mais longe


O atleta da Sociedade União Operária, Pedro Ferreira melhorou em Dezembro último o seu próprio record nacional de triplo salto, na categoria de iniciados, ao pisar o solo 12,89 metros após a chamada. Foi 49 centímetros mais longe que a anterior marca. No mês passado Ferreira estabeleceu a melhor marca do ano, mas já na categoria de juvenil, aterrando a 13,32 metros de distância.
O mesmo atleta bateu também o record do salto em comprimento, ainda na categoria de iniciado, colocando a marca em 6,45 metros, que, enquanto juvenil, constitui a segunda melhor marca do ano.
Com uma margem de progressão bastante grande, segundo o seu treinador, prof. Fonseca Antunes, Luís Ferreira tem como objectivo imediato o apuramento para os Jogos Europeus da Juventude que se realizam em Junho próximo. A tarefa não é fácil, diz-nos Fonseca Antunes, pois Luís Ferreira é juvenil de 1º ano e vai competir com atletas já no segundo ano de juvenil.
Será que Álvaro Dias terá sucessor? O futuro nos dirá.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Cada um tem o Freeport que merece (croniqueta de fim-de-semana)

A propósito do caso Freeport (onde alguém estará enterrado até as orelhas, mas como se deve calcular, não haverá culpados, não estivéssemos nós num país onde a culpa morre solteira, pelo menos a partir de um determinado extracto bancário) lembrei-me de um outro caso, na Figueira da Foz que vai ilustrando este texto (as fotos são actuais), e que só por mera coincidência terá algo em comum com o atrás referido.
Conta-se em duas penadas. Aí vai:
O Plano de Urbanização (PU) estava suspenso em duas freguesias, na de Lavos, freguesia rural no sul do concelho, e na zona urbana.
Acontece que o prazo de suspensão caducou na Figueira da Foz, muito provavelmente por distracção, por incompetência, ou mesmo porque os timings das negociatas não incidiram bem na coisa. Certo é que o presidente da edilidade chegou a ser constituído arguido. Mas “pas de problème”, terão pensado os senhores da Confraria do Bitumen. E, por artes mágicas, porque isto de corrupções e xico-espertismo devem ser do reino da ficção, lá desvendaram uma solução. Nem mais: utilizaram a suspensão do PU para a freguesia de Lavos, pois ainda estava vigente. Já a venda daqueles terrenos a privados revestiu-se de contornos um tanto nebulosos.
Apercebendo-se desta tramóia os eleitos da CDU na Figueira da Foz fizeram as démarches que tinham a fazer. Dois dirigentes locais do PCP dirigiram-se ao Ministério Público e ao Tribunal Administrativo de Coimbra onde as suas queixas tiveram uma recepção favorável. O problema terá sido encaminhado como processo administrativo e não como processo-crime e lá seguiu os trâmites normais e legais.
O blogue “Outra Margem” seguiu atentamente o desenrolar desta questão, como pode ver aqui. Não será caso único, há mais atentados em preparação, como o dos antigos terrenos da Alberto Gaspar Lda., ou mesmo o do campo de jogos da Freguesia de S. Pedro, a este último já me referi, aqui e aqui, para não falar noutros apetites que por aí andam vorazes, como os terrenos da Várzea de Tavarede ou o parque desportivo de Buarcos. António Agostinho, no “Outra Margem”, tem chamado a atenção para alguns destes atentados urbanísticos.Bem, continuemos na senda da queixa dos comunistas. Que chegou a Lisboa. Ao Supremo Tribunal Administrativo. Só que chegada aqui, finou-se, fim de viagem. Foi arquivada por falta de "matéria provatória". O que se soube é que a autorização para se passar por cima do PU e utilizar o de Lavos veio directamente do Gabinete do 1º ministro.
A coincidência entre os dois casos será mínima, ou como é suposto, mera coincidência, naturalmente.
Este ano é um ano de eleições autárquicas. A Câmara da Figueira será, como habitualmente, disputada por PS e PSD. Donde se conclui que os figueirenses não terão escolha possível, irão ter mais do mesmo. Depois de anos e anos, desde o “25” até 1997, com os “socialistas”. Depois com os “sociais-democratas”, com a retumbante vitória de Pedro Santana Lopes, até à data actual. E nada mudou. A “coisa” manteve-se perenal. Aliás, é perene.
Até um dia.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Os senhores do mundo... e arredores


Já aqui escrevi sobre a famigerada associação semi-secreta de malfeitores conhecida por Clube Bilderberg, sobre o qual um jornalista canadiano, Daniel Estulin, escreveu uma extensa obra, “Clube Bilderberg: os senhores do mundo”. O livro foi editado em Portugal mas houve pressões, e é a razão deste post, para não se tornar a fazer reedições, o que acentua de certa maneira o cariz um tanto ou quanto secreto da pandilha. O certo é que não foi novamente editado. Em pleno século XXI, no Portugal do socialismo moderno e socretino, aí temos o neo-liberalismo em todo o seu esplendor. Até a censura tem outros meios e modos. Ainda dizem que não há progresso.
Ai vão alguns extractos da obra:

“Manter a maioria da população num estado contínuo de ansiedade interior funciona, porque as pessoas estão ocupadas, assegurando a nossa própria sobrevivência, ou lutando por ela, assim como, para colaborar na constituição de uma resposta eficaz. A técnica do Clube Bilderberg, repetidamente utilizada, consiste em submeter a população e levar a sociedade a uma forte situação de insegurança, angústia e terror, de maneira a que as pessoas se cheguem a sentir tão transtornadas, que peçam, aos gritos, uma solução, seja ela qual for. Explicarei detalhadamente neste livro como aplicaram esta técnica com as faixas nas ruas, as crises financeiras, as drogas e o actual sistema educacional”.

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Com respeito ao âmbito educativo, também é imprescindível dar a conhecer que os estudos realizados pelo Clube Bilderberg demonstram que conseguiram baixar o coeficiente intelectual da população, obrigando principalmente a redução da qualidade do ensino”.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Mea culpa

Achei justo um comentário de um anónimo no post anterior. Há erros que se podem justificar e erros indesculpáveis.
Tentei tão só relembrar que a Paz, para os angolanos, teve um preço exacerbado: o de ter caído no seio do império. “Desconsegui” e reconheço-o.
Apesar de continuar a ser simpatizante do MPLA, é claro que não me revejo neste “MPLA”. No do Dos Santos, do Amorim das Cortiças e de outros nababos, portugueses e não só, que nada produzem e “comem tudo”. Que dominam, controlam, sugam, apoiados por uma burguesia local, reduzida, endinheirada e apoiada pelo capitalismo internacional.
A situação não é estranha, só para quem anda distraído, já que, ainda nos anos 80, em plena guerra, o “MPLA” assistiu pela primeira vez, embora como observador, a uma reunião da internacional socialista. Significa isto que a ocidental democracia, o imperialismo, lá foi dando a volta por cima, tendo depois deixado cair o seu grande cabo de guerra, Jonas Savimbi. Lembro, também, já que estamos em maré de lembranças, que os que agora se dão muito bem com Dos Santos se davam muito bem com o homem da Jamba, até chegaram a cair de uma avioneta abaixo e tudo.
Apesar disto, vale e valeu a pena a paz, vale sempre, mas, repito, teve e tem um preço muito alto. Que os angolanos não merecem pagar.
Mas mesmo assim, um qualquer Almada angolano poderá escrever: “ao menos isto passa-se numa terra de mulheres bonitas”.
“Putaqueospariu”.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Miss Angola 2007


Micaela reis

4 De Fevereiro


Angola – Hino Nacional

Oh Pátria, nunca mais esqueceremos
os heróis de 4 de Fevereiro
Oh Pátria, nós saudamos os teus filhos
tombados pela nossa independência

Honramos o passado e a nossa história
construindo no trabalho o homem novo
Honramos o passado e a nossa história
construindo no trabalho o homem novo

Angola, avante!
Revolução pelo poder popular
Pátria unida, liberdade
um só povo, uma nação.

Levantaremos nossas vozes libertadas
para glória dos povos africanos
marcharemos combatentes angolanos
solidários com os povos oprimidos

Orgulhosos lutaremos pela Paz
com as forças progressistas do mundo
Orgulhosos lutaremos pela Paz
com as forças progressistas do mundo






Hoje comemora-se uma das datas mais importantes da História recente de um país recente.
Foi a 4 de Fevereiro de 1961 que se deu início à luta armada em Angola, depois de Oliveira Salazar se ter sempre negado a negociar ou entrar em conversações com os nacionalistas. Foram 14 anos de luta, que para o povo angolano se prolongaram por mais alguns. Hoje, pelo menos, há Paz.
A evocação da data fez-me recordar um poeta, meu conterrâneo. E revisitar páginas de Jorge Amado. Aqui.

Foi a estiagem/ E o silêncio depois

por Augusto Alberto


Numa madrugada radiosa de África, foi um grupo de seis furibundos fundistas, numa carrinha de caixa aberta, sentadas em cadeira de pau, atadas aos taipais de madeira, para percorrer, ir e vir, 400 km, ora por estrada asfaltada, ora por picada, numa relação meio por meio, embrulhados em pó e sede, rumo à vila do Mussuril, terra sem estrada asfaltada mas com uma longa avenida em terra batida que desaguava no majestoso Índico. Um local idílico e celestial. Outras picadas se uniam a essa enorme avenida, e por ali se fez o grande prémio da Vila em atletismo. Escusado será dizer que essa equipa de fundistas ida da cidade capital provincial, Nampula, sem descanso e sôfrega por água, foi “esmagada”sem apelo. A equipa do “pé descalço” do Mussuril, foi formada por nativos recrutados e treinados por uma personagem parda, um alto quadro do governo “provincial”, apaixonado pelo atletismo e em particular pela área dos lançamentos, dado que era homem alto e forte. Dado de barato o resultado, sem importância, fica-me o gozo de ter participado em tamanha aventura e experiência.
Mais tarde esse alto quadro foi colocado em Nampula e logo tratou de preparar um triangular, disse-nos, Moçambique, Rodésia, Malawi. Para formar a equipa de Moçambique, tratou de recrutar os seus atletas do Mussuril e colocá-los na cidade de Nampula em condições indignas e encarregou-me de os enquadrar e treinar do ponto de vista técnico e físico. Um dia, deparei-me com a recusa ao treino. Perguntei-lhes porquê? Muito justamente, tinham fome e desejavam voltar à sua terra. O alto quadro não estava a cumprir o seu papel de acolhimento, como era então usual à época e no lugar. Sosseguei-os e garanti-lhes que iria tratar do assunto. Dirige-me ao senhor e indiquei-lhe que teria de assumir o compromisso tido com aquela gente, que para ele, evidentemente não seria, e o mais adequado era de imediato dar-me dinheiro para que o pudesse levar às pessoas para poderem comprar o seu alimento tradicional, arroz e peixe seco e de seguida devolve-las à sua terra, porque não era possível continuarem daquele modo abjecto e o triangular parecia-me ser uma treta. Mas não foi. Foi o modo da personagem engrossar mais um pouco à custa de dinheiros públicos. Este jeito já tem barbas. Tudo acabou de modo breve.

Quero aqui dizer que Moçambique basicamente não tinha indústria transformadora, mas possuía já na altura, estruturas pesadas, portos de águas profundas, como os de Lourenço Marques e Beira e uma longa rede de caminhos-de-ferro. O comboio transportava os recursos naturais e os portos tratavam do seu escoamento para o Mundo. Nesta matéria, é bom dizer, muitos dos recursos naturais nem pela “metrópole” passavam, rumavam direitos a outras paragens. E do respeito pelas pessoas, como aqui dou nota, uma falácia.
Se darem por esta realidade, a qualidade de vida das classes alta e média, ocidental e da Europeia em particular, foi feita à custa dessa bravata colonial, feita da sistemática, cruel e nunca assumida pilhagem. Armando de Castro fala-nos dessa realidade na sua obra, o sistema colonial Português em África. Aliás, é bem sabido como os quadros da administração colonial inglesa eram de fina linhagem e é bom não esquecer a cruel política, feita através do método da canhoneira, executada pelos americanos em toda a América Latina, ou quase toda. Fica de memória a exploração petrolífera e mineira, e recordo aqui, muito em particular, a bestial política negreira da United Fruits, que enriqueceu à custa do trabalho escravo. Boa parte desta classe média sempre educada a olhar para o seu umbigo e sistematicamente convencida de que vive de modo celestial, está hoje à rasca e tonta e novamente sem perceber nada mas sempre disponível para embarcar nos cantos do primeiro trauliteiro que lhe apareça.
Ao que se diz a crise de hoje não é da produção nem dos mercados, mas da especulação financeira sobre a riqueza criada. Talvez assim seja, mas também me parece que as dificuldades em pilhar os recursos naturais são hoje maiores. Alguns países e povos sistematicamente pilhados, começam hoje a dar sinais de querer comandar os seus destinos, apesar de multiplicas dificuldades e contradições. Oxalá vingue…
Quero acabar, com as palavras do título, citando uma bela poesia de Mário de Andrade, para que, ao contrário das palavras, no contexto da época, se fale para sempre:

Foi a estiagem
E o silêncio depois.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Esse Agostinho do nosso contentamento

por Augusto Alberto

Esse Agostinho do nosso contentamento, vitima já aqui o disse, de uma violenta queda motivada por atropelamento a um cão, deixou o país órfão de um dos seus mais admiráveis talentos desportivos. Nenhum desportista deu razões para tantos e tão brilhantes relatos dos seus feitos. Pela mão do talento de um jornalista desportivo de “a bola”, Carlos Miranda, que descreveu de modo delicioso o mourejar pelas “Franças” de um português singular, errático, bondoso, fiel, quase escravo dos compromissos assumidos, sem escola e impreparado para vencer num mundo já na altura muito disputado, que fez de Joaquim Agostinho, um não atleta de alta competição. Esta requer a conjugação de um conjunto de valores só ao alcance dos que não hesitam. Por isso é que alguns são campeões olímpicos e a outros só o levantar da “caminha” logo pela manhã, faz dores de barriga. Não tem que saber.
Está-me na memória, as inúmeras vezes em que Agostinho deu a alta competição de barato, pela obstinada consciência solidária.
Saído da guerra em África, aventurou-se tardiamente pelas dificuldades do ciclismo. Aportou a França e logo no primeiro Tour, deixa a imagem de um colosso físico. Era então tecnicamente um podão. Numa das etapas do seu primeiro tour, em vez de correr no asfalto, cruelmente cortou por valetas de rompão, desfaçelado e em sangue, cruzou a meta com a sua bicicleta às costas. No dia seguinte lá estava para continuar. Para espanto, consegui ficar no top 10 dos eleitos. Voltou, fez pódios várias vezes, e fica para a história como o único capaz de vergar Eddy Merkx, ainda o maior ciclista de todos os tempos, mesmo no terreno em que era imperial, o contra relógio. Aqui quero recordar duas geniais etapas em que se portou como um homem bom e não como um atleta de alta competição. Numa daquelas míticas etapas de que é feito o tour, depois de ter deixado apeado Eddy Merkx, os minutos já eram muitos a seu favor, resolveu apaixonadamente esperar pelo campeão. Miranda perguntou-lhe no final da etapa, o que é que lhe tinha dado para assim entregar a etapa e provavelmente a vitória no Tour. Disse-lhe:- um campeão merece respeito. De outra feita, o fabuloso Gimondi, o grande campeão Italiano, desesperava por alimento, dali já não era capaz de ir. Esgotado Gimondi, Agostinho seu companheiro de fuga, sempre solidário, passou-lhe o seu alimento e deixou o italiano continuar e Agostinho como é bom de ver, ficou-se. Um colosso! Era assim e não admitia réplicas.
Multiplas vezes enganado e roubado, raro reagiu violentamente, e era homem para deitar abaixo qualquer um. Foi roubado na última etapa de uma volta à Suiça que comandava, porque lhe deram a informação, premeditadamente errada, relativamente ao tempo da fuga que corria, e que deixou Agostinho sossegado no meio do pelotão convencido do controle das operações. No final da etapa, um suiço acabou por amealhar o mísero segundo que lhe permitiu ganhar na sua terra. Fora enganado, mas nem por isso se exasperou. Também enganado numa volta à Espanha que comandava, exactamente com uso da mesma estratégia, que permitiu a um espanhol ganhar em suas estradas. Foi lugar-tenente ou o segundo, de gente sem arcaboiço para resistir às agruras de voltas medonhas como são o Tour, a Vuelta ou o Giro, como no ano em que foi segundo de “Perico”, Pedro Delgado e lhe foi fiel até ao dia em que este desistiu por exaustão física. Ficou Agostinho, mas já tarde para galgar minutos. Miranda perguntou-lhe porque não atacava e Agostinho respondeu-lhe: - pagam-me para fazer o trabalho de “o” levar e eu respeito em absoluto esse compromisso. E quando foi ele o chefe de fila, ironicamente, nunca teve equipa para o ajudar. Era ele sempre quem dava a cara e o corpo, porque dos outros não reza a história.

Fica-me desse tempo a admirável vitória no troféu Baracci, troféu com nome de um italiano comendador, homem rico e apaixonado por bicicletas. O troféu tinha uma única etapa num contra-relógio a dois, de 120 km e Agostinho fez dupla com um belga, rolador excepcional, de seu nome, Van Springel. Contou que quando Agostinho amochava a cabeça no guiador não havia meio de o fazer acalmar para que ele, Van Springel, fizesse o seu natural trabalho de divisão do esforço. Gritava-lhe, mas Agostinho não tinha ouvidos, só tinha pernas. No final Agostinho disse que não estava para mariquices. Foi uma retumbante vitória.
O drama de Agostinho teve o país suspenso mais de um mês. Era um homem bom, o português ingénuo. Só a espaços se chateava e nesses momentos a coisa ficava preta. Deu de nós a melhor imagem colectiva de Povo, de mourejadores, sofredores, capaz de aguentar quase até à exaustão, canalhas, trapaceiros, bufarinheiros e corruptos e incapaz de dar umas guinadas e rebelar-se. Não deveremos esquecer Agostinho, tivesse cultivado a tempo a alta competição, teríamos nele o maior desportista de sempre e por muitos séculos. Esperemos também que como Povo, saibamos ser em toda a plenitude, porque já vai sendo tempo.