quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Pedro e Paulo


Augusto Alberto


É a verdade crua. Que promessas fizeste socialismo cubano, que permitiste que Wilfrido Flores, presidente de Câmara da cidade de Nahuatzen, a 380 quilómetros da Cidade do México, fosse morto a tiro, enquanto tomava o pequeno-almoço com a sua mulher, num restaurante? Segundo dados da Federação Nacional de Municípios do México, foram mortos 31 presidentes de Câmara em todo o país, desde 2006. Ou cooperamos ou cortam-nos o pescoço, acrescentou um Presidente, que garante que pagar um “dízimo” aos criminosos, é a diferença entre a vida ou a morte. Como é que isto se resolve, se é o estado que está aprisionado por bandidos, muitas vezes, com lideranças dentro do próprio estado? Informações que nos chegam, devagarinho, para não atrapalhar o desassossego, dizem que são os próprios cidadãos, fartos da incapacidade das autoridades “democráticas”, que são muito eficientes a proteger os interesses económicos das insaciáveis elites, mas incapazes de defender os cidadãos, quem toma a própria defesa, face à derrota do estado Mexicano.

Que há anos tem com o Estado Cubano um diferendo ideológico, que tem por génese o modo como os dois estados socialmente estão organizados e que agora reconhece simultaneamente, o falhanço na defesa dos cidadãos e o modo como se colocaram fora da lei, por assumirem a sua própria defesa.
Ora, esta é diletante e intricada posição, porque afinal, quem abdica das possibilidades, por estar roído e manietado, é o próprio estado mexicano. Chegado aqui, pergunto. Como vai a “democracia” mexicana, que de 4 em 4 anos renova os seus órgãos “democráticos”, em completa “liberdade”? Vai mal! E como vai a “ditadura” cubana, que também renova, em democracia directa, os seus órgãos e que pelos vistos, permite uma vida tranquila aos cidadãos, apesar de muitas dificuldades, porque a natureza não mimoseou a ilha com recursos que o México tem? Lá vai! Que bom é, cidadão de Havana, teres a possibilidade de treinar oboé, clarinete ou flauta, no paredão do Malecon, sem que haja o perigo de seres molestado por um pequeno criminoso a soldo de gente que se senta no conforto de um gabinete. É bem a preservar.
Sabes, por aqui, gente da espatifada “classe média”, também nunca fez caso dos “dissidentes”. Confiaram em ladainhas e vantagens “democráticas” e foderam-se. Nas arcadas do teatro Nacional de Ópera, dormem agora embrulhados em cartão. E quando à noite de ópera, o segurança de serviço, diz-lhes:  “Arreda, arreda mendigo. Toma cuidado, porque os pés que aí vêem, não são os pés do voluntário do exército contra a fome, que te traz as sopas, mas os pés dos apóstolos, Pedro e Paulo. Arreda…”

domingo, 24 de fevereiro de 2013

O mito e o xerifado


Augusto Alberto

Vi Pistorius ser batido inapelavelmente nos 100 metros, por dois velocistas brasileiros. Exultaram os brasileiros, porque não é todos os dias que se consegue fazer baixar para à poeira, um homem elevado à condição de “mito”. E nos 200 metros, Pistorius também ficou de fora das medalhas. Mas um “mito”, tem a paciência de esperar pelo seu tempo e nos 400 metros, colocou-se de novo na condição de “Deus”. Ganhou, e os 90 mil que estavam no Estádio Olímpico, exibiram-lhe o carinho só dado aos que fazem a diferença.
Mas passados 6 meses, Pistorius voltou à condição terrena. Perdeu a cabeça e fez o pior dos resultados. Matou e “matou-se”. Duplamente amputado, vai ser recordado pelo homem que se colocou a par dos homens que não têm deficiência. Recordo que fez parte da estafeta de 4x400 metros, da África do Sul, que ganhou a medalha de prata, em 2011 no Campeonato do Mundo, ainda que só tenha alinhado na eliminatória. Pistorium, ajudou a colocar o desporto para pessoas com deficiência no Olímpio,  por isso tem o crédito de gratidão, como testemunhei. Mas num momento de loucura, arruinou anos de trabalho árduo e proveitoso, porque a cabeça do homem, de quando em vez, é insondável.

E Passos, que cabeça insondável e endógena moléstia tem, que o levou a fazer promessas que depois não cumpriu? Ao contrário de Pistorius, Passos, nunca franqueou as portas que levam ao galarim, apesar de vizinhos entrevistados pelas tv’s, após levitado à condição de primeiro, garantirem que estava ali um homem bom, sem perceberem que a tempo já tinha tomado as suas opções de classe. Tutelado e de pucarinho com pessoas abstrusas e soturnas, foi o escolhido para carregar com os interesses da elite liberal, após a derrocada de classe de Sócrates, que se convenceu ser anjo, mas que afinal, desceu à condição de crápula, para onde penderá, também Passos. Ambos por terem apressado muitíssimo a pobreza e desse modo, levado homens com fome, ao suicídio ou a viverem na rua.
 Pistorius será riscado do panteão, por causa de um momento. Mas a opção de classe, com ênfase na classe alta, é um escarro. Esta é a odiosa diferença dialéctica. Então, pergunte-se: como se pune quem mal trata as pessoas? Sobretudo, quando economistas alinhados e comentadores mancomunados, a mando do ”xerifado”, ao serviço da elite, se juntam em conclave numa sala de luxo de um hotel, à socapa, para discutir como reformar as funções sociais do estado, que é o mesmo que dizer, como tirar o pão aos pobres, para o dar aos ricos.
Se Deus existe, que os leve...

A anedota do ano? Ou um concerto de Lizt para guitarra eléctrica?

Seria a anedota do ano se a coisa desse para rir. Mas é deprimente demais para isso. Acho que toca as raias da tragédia. Pronto, chamai-lhe tragicomédia
De qualquer maneira isto lembra-nos que há sempre um momento em que o discípulo ultrapassa o mestre.
Confira aqui.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Prantear lágrimas


Augusto Alberto


Confesso que já me tinha esquecido de que havia mais ministros para lá do primeiro. Passos, Relvas, Gaspar e do Pilrito, não fosse o António José lembrar que há ministros do governo indígena que têm a mesma opinião que o Partido Socialista, no que toca ao redimensionamento do papel social do Estado. Ambos pressupõem que o pagode deve ter uma existência gota a gota, e em permanente risco de queda. Com blagues como esta, não admira, pois, que os restantes peles vermelhas do P. S., se sintam abespinhados e queiram corrigir o destrambelho, que há-de passar, afiançadamente, por sangue e lágrimas em torrente, a escorrer para um alguidar.
Mas voltando à questão central, do redimensionamento das funções sociais do estado, é preciso que se diga que o se pretende é unicamente eliminar funções vitais, em ordem a uma vida decente.
A este propósito deixo, como exemplo, a conversa que há dias tive com uma cidadã, que necessita, com toda a regularidade, de acompanhamento, medicação personalizada e atempada. Estava ciente da presença no hospital central, em determinado dia e hora, para o respectivo acompanhamento, reavaliação e continuada medicação, quando na véspera, inopinadamente, recebe informação de que a consulta tinha sido adiada e a medicação que lhe garante a vida, como até então, tinha sido abortada e no futuro, seria trocada, porque a unidade hospitalar foi obrigada, a um compasso, por força da lei dos compromissos. Abespinhou-se e cuidou-se, porque é estreito, o espaço entre a sua vida e a sua morte.
Esta história levou-me a querer saber da lei e fui ao site do Ministério da Saúde. Fiquei a saber que pode ser um horror! Bem sei que o cidadão achará excessivo o aviso. Mas faz muito mal. Também ignorou avisos sobre as alterações às leis do trabalho, e votou em quem as aviltou, mas vai dando por elas, sempre que lhe caiam abruptamente sobre o canastro, como foi o caso de um cidadão, que para a praia vai, no dia do voto, e que resumiu a questão, a uma expressão exemplar: “miserável!”. Os factos ensinam-nos que o pior modo de se perceber uma lei, é quando se pranteiam lágrimas. Pois é! Saiba ainda, que os tampões têm utilidade social. Eu uso-os para tapar os ouvidos sempre que me querem azucrinar a cabeça. As mulheres, para os devidos feitos. E a elite burguesa, usa a social-democracia, o socialismo de rosto humano e a 3ª via, para acalmar as vagas, sempre que a ira faz questão de galgar as margens que balizam os seus interesses.

Grândola

Cantar "Grândola" é um ataque à democracia, diz o PSD. Não será antes a governação destes imbecilóides  um ataque à democracia? 
Ultrapassando as directrizes da troika esta governação do PSD significa que estamos perante um ajuste de contas com o 25 de Abril, o seu objectivo é, sem dúvida, repor, e já faltou mais, as condições sociais e as regalias das classes ociosas do tempo do fascismo.
Está bem que a famosa canção do Zeca se transformou num hino da Revolução dos Cravos, e a sua entoação significa a ânsia de se retomar o caminho democrático. Mas talvez não fosse descabido alterná-la com  "Os Vampiros", também da autoria do professor de História e grande poeta. 
Ou, então, uns tabefes pelas fuças abaixo também vinham a calhar. Que acham?


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Os malefícios do tabaco


Augusto Alberto

Aceitemos escrever e ler sobre os malefícios da sociedade capitalista. Afinal, é nela que vivemos. Bem sei que falar sobre esses malefícios, é tão excessivo, como falar sobre os malefícios do tabaco. Sabemos que faz mal, mas continuamos a caminhar sobre o borrão, sem esboçar uma alteração de comportamento. Parece patético, mas é assim!
Leu-se, entretanto. Mais de 100 mulheres foram deixadas inconscientes num terreno depois de terem sido submetidas a procedimentos cirúrgicos num hospital do distrito de Malda, em Bengala Ocidental. Onde fica Malda? Onde fica Bengala Ocidental? Não sabemos. Fica para lá… Mas sabemos que a Índia é a maior democracia votante do Mundo. Tem em Bollywood, uma indústria cinematográfica, mais pujante do que Hollywood. E é high tech. De todo o modo…tem o Ganges e é uma merda.

E Londres? O que nos dizem da monarquia? Que cerca de 1200 doentes, morreram entre Janeiro de 2005 e Março de 2009, por negligência, no Hospital de Stafford. É uma história de privação de medicamentos, água e alimentos, que colocou o interesse corporativo e a contenção de custos, acima do interesse dos doentes. Mas esta história não pode acabar assim. 007, e o sistema Nacional de Saúde Britânico, foram panfletados como património indiscutível e único, na coreografia da cerimónia de abertura, que celebrou os Jogos Olímpicos de Londres. Por isso, os britânicos tombaram no cinismo. E esse cinismo, a fazer fé, ocorreu no período da “terceira via”, de Tony Blair e Gordon Brown. Os amigos da internacional socialista, dos Antónios, José e Costa. E assim dá-se o absurdo do socialismo de rosto humano ou a 3ªvia, não serem nem melhor nem pior do que o quadrilhismo neoliberal da senhora Tatcher e Reagan. São a mesmíssima merda.
Suspeitei eu que estas anomalias fossem no sistema de saúde cubano. Mas não! Apesar de enormes dificuldades, continua firme a máxima que suporta a Ilha. Nenhuma mulher que necessite de cuidados de saúde, é deixada a esvair-se até à morte, numa cama de hospital, à míngua de paz, conforto, medicamentos e pão, nem num descampado, ou cadáver, deitado ao Ganges, para evitar os custos de funeral.
Cá está! Como são democráticos os malefícios do capitalismo. Embora os malefícios do tabaco, também o sejam no socialismo.

A propósito de bustos e ocupações


Numa ocupação de um país os ocupacionistas, como se sabe, são sempre em maior número do que os resistentes. Por muitas e variadíssimas razões que não caberiam aqui, mas uma delas é, seguramente, a trabalheira que dá em resistir. É muito mais cómodo ficar a ver onde as coisas param.
A actual ocupação de Portugal é, pelo menos de forma declarada, a segunda da sua História. Na primeira, a aceitação, ou resignação, dos portugueses foi total. Calculem que até foi dado o nome de S. Filipe à cidade de Benguela, em homenagem ao rei Filipe. Esse nome perdura ainda hoje, pois o Estádio onde joga o Clube Nacional de Benguela exibe-o.
Com tantas mudanças, algumas violentas e despropositadas, depois da conquista da independência, a manutenção do nome deve ser  para nos lembrarmos que, um dia, já fomos espanhóis. 
Para os adeptos da actual ocupação portuguesa, os mais de 75% de eleitores que irão, segundo as sondagens, votar nos partidos da troika, posso deixar aqui algumas ideias, que farão muito bem aos seus egos.
Que tal, na toponímia das cidades portuguesas, o Largo Fundo Monetário Internacional, a Praça Banco Central Europeu, a Avenida Abebe Seilassié, a Alameda Angela Merkel, a rua Goldman & Sachs, a Travessa Standard & poor’s?
E já agora, um busto ao Fernando Ulrich, um banqueiro português de sucesso, que em 2012 teve um lucro 250 milhões, isto apesar da “crise”, imaginem sem crise.
Portanto aqui ficam umas dicas aos “tugas” que denodadamente com o seu voto vão fazer com que o nível de vida desça ainda mais, o desemprego aumente ainda mais, a degradação da escola pública se acentue ainda mais, a sabotagem à saúde pública se intensifique ainda mais, a água encareça ainda mais, os banqueiros e outros nefandos do género enriqueçam ainda mais.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

A peste


Augusto Alberto

 Dos Estados Unidos conhecemos pouco e receio que muitos americanos vivam obliterados e tenham da união a promessa de uma terra de sonhos e pouco mais. Em tempos, numa frase lúcida, disse Frank Zappa:  O governo é o entretenimento do complexo politico-militar. Adequadíssimo!
Contudo, de momento, um nó sufoca a união e sobretudo, o Estado do Michigan e a sua principal cidade, Detroit. Uma viagem pela cidade, mostra bairros nus, como se uma peste por ali tivesse passado. Centenas de chalets completamente arruinados, que por serem construídos em madeira, alguns, assemelham-se a construção de pau a pique. Mantêm-se as pessoas, que por uma outra razão não tiveram possibilidade de partir, ou por serem demasiado velhos. Para agravar as condições, a própria polícia decidiu acabar com a vigilância por falta de dinheiro, quadros e meios. Contou uma idosa, que está em condições de ser incomodada por um qualquer rufião, e a quem os vários seguros pessoais já nada valem.

E como o desinvestimento é endémico, a própria autarquia, pelas mesmíssimas razões, colocou fim, também, a alguns serviços. O capitalismo está doente. E na situação limite, a tendência é para fazer o aperto, no que toca às relações laborais. Nesse sentido, há bem pouco tempo, o senado do estado deu um passo atrás e aprovou legislação que deixa os trabalhadores ainda mais perto da boca do lobo. No dia da votação, foi o cabo dos trabalhos. Às reacções, a polícia atirou-se aos trabalhadores, como cão a bofe, que foi para isso que foi treinada, em democracia. Detroit prova com toda a evidência que menos estado e melhor estado é uma grosseira mentira e que as greves e demais lutas, nos Estados Unidos, contrariam a informação sistémica de tudo corre como o previsto. É preciso manter a reserva de que a oeste tudo vai bem e que é a leste que reina o caos. Não falar das equimoses, cuidar das aparências e desviar a atenção dos cidadãos convencidos das vantagens do capitalismo, para a doença e morte de Chaves. A velhice e morte de Fidel. As patéticas revoluções de veludo ou laranja. As revoluções árabes, que acabaram com estados laicos, para dar lugar a sítios obsoletos, perigosos e fantasmagóricos, que reduzirão a pó, inclusive, as comunidades católicas, as primeiras vitimas das colossais cruzadas, petroleiras, apostólicas e romanas.
Ma antes que chegue o asteróide que colidirá com a terra e a transformará em poalha, chegará um sistema, chame-se o que se quiser, que vai superar o capitalismo, ainda que por ora, o grande capital leve vantagem.

     Nota: Para melhor compreensão do fim do sonho, aceitem a sugestão de ler o primeiro livro de Philipp Meier, Ferrugem Americana / Bertrand.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

"Tem pai qué cego?"

O homem não se dá conta, como aliás muitos e muitos milhões de portugueses que votam na troika, de como o seu contributo também foi, e é, importante para tal desiderato.  
Mas o trágico da questão é que eles não estão a enterrar o país. Muito longe disso. Que o digam os lucros fabulosos, e pornográficos, de banqueiros, de  mega-merceeiros e de tuttu quanti que se governa à custa do sistema e do trabalho de quem produz..

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Onde houvera de ser? No "Tubo", claro


"Raiotezinger"


Augusto Alberto

Estava uma manhã fria e sereníssima no dia em que me ia chegar a pensão e o subsídio de Natal. Esperava poder comprar, sereníssimo, as prendas para as duas netas, sereníssimas, entre desejos de bom ano novo. Fico singelo por este desejo, porque sou um ateu determinado, mas não deixo, contudo, de afinfar nas guloseimas de Natal, (rabanadas com vinho ou com leite, tanto faz, as filhoses, as papas de sangue de porco, que a patroa faz como ninguém e que traz um corrupio à porta, porque toda a gente do lugar, as quer e um bom tinto na noite de Natal).

Nessa manhã, com um céu de poalha cinzenta e frio sereníssimo, fiz a habitual manhã desportiva. A plataforma de areia dura, estava sereníssima e o mar sereníssimo estava. As pequenas ondas, com uma fuligem muito esbranquiçada, a parecer lã de carneiro alvo, vinham a 20 centímetros dos pés, obrigando a que me desviasse, para não molhar as minhas amadas sapatilhas Nike, que há anos, sereníssimo, comprei em Havana. Regressei, elevando ao máximo as batidas, (180 p.p.m.), subindo, em cadência máxima, os 50 degraus das escadinhas, que trazem da praia, à ladeira de Santa Barbara, Santa sereníssima, com manto azul, a repousar no nicho de uma das casas, da primeira fiada do sereníssimo bairro mineiro, do mesmo nome.
Foi pois, sereníssimo, que cumpri o desejo. Mas de repente, o tempo mudou e uma desserenissima trovoada abateu-se sobre o povoado. Fui ao meu miradouro, e vi os raios caírem no mar. Fiquei aliviado, porque uns anos atrás, um raio atirou-se ao telhado da escola que tenho em frente e fez saltar um pequena lasca de pedra roubada ao beiral e atirou-a, com toda a força, à persiana do quarto, que me obrigou a pular e gritar:  chegou o fim do mundo. Mas depois de ver o estrago, sosseguei. Remova-se a persiana e que continue a invernia, porque é o tempo próprio, disse. Mas o pior, entretanto, chegou. Uma carta da C.G. A., a informar que o Gaspar tinha decidido, sereníssimo, abafar quase a totalidade do meu subsídio de Natal. E eu, dessereníssimo, pestanejei. Já fui, sereníssimo, desde então, a umas quantas arruaças de rua, mas a verdade é que o dinheirito, sereníssimo, lá foi para os cofres dos agitados banqueiros.

Deste modo, desejaria que sua santidade tivesse desviado o trovão que riscou o pináculo do Vaticano, após o anuncio da sua resignação, para o telhado do ministério das finanças, com vista para a estátua equestre do rei lerdo, D. José I, para trazer luz ao Gaspar.
Suspeito,  alvíssimo “Ratezinger”, que nem tu nem o Gaspar, percebem que nada na nossa vida se assemelha a um “trovão em céu sereno”. Pelo contrário. Acredita, pois, que se esse “Raiotezinger”, chega para iluminar papalvos, não chega para aliviar fome e maleitas, nem para evitar as garras de homens de batina que servem a igreja de Roma, nem trazem de volta o 13ª e o 14ª mês.
Ainda assim,“Raiotezinger”, leva também o insaciável tesoureiro Gaspar. É favor que te peço.

O valente soldado Curado




Um país ocupado, governado pelo exterior (veja-se o caso de Portugal, cujo administrador é um economista da Etiópia, o que é estranho, diga-se, pois pela situação desse país nunca se pensaria existirem por lá economistas) não implicará, ou não deveria implicar, que o seu povo abdique irremediavelmente do seu amor-próprio e do orgulho que, aqui sim, escrevo irremediavelmente, terá na sua História.
É nas pequenas coisas que esses sentimentos se manifestam. Ou não.
No largo Francisco Lopes Guimarães, em frente ao quartel da GNR onde já funcionou o regimento de Artilharia Pesada-2, duas peças de artilharia honram o busto construído em memória do soldado Curado.
Uma delas está no estado em que se pode ver nas imagens em baixo. Não sei se a roda foi roubada ou retirada para reparação. O que acho é que a peça deveria ser retirada, ou tapada, enquanto que. Assim como está é desprestigiante, humilhante mesmo.
O soldado Curado
Foi o primeiro soldado português a morrer em combate, na Flandres, a 4 de Abril de 1917. Natural de Vila Nova da Barquinha, os seus restos mortais chegaram à sua terra natal em 1929, por iniciativa do seu município.
O busto em sua memória foi mandado construir pela comunidade francesa residente em Portugal e encontra-se na Figueira da Foz porque o regimento a que pertencia Curado aqui estava sediado.
Penso que originalmente o busto ficou na Praça General Freire de Andrade, vulgo Praça Velha, e só posteriormente foi para o actual local.

Em Coimbra, às 14H30

Quase que dizia que quem não vai é da troika. Bem, afinal não é bem assim. Eu, por motivos profissionais estou impedido de ir. Mas é como se lá estivesse. Pronto.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Jaime, o banqueiro pesporrente e o orgânico Costa


Augusto Alberto


Morreu Jaime Neves, o cérebro militar do 25 de Novembro, continuadamente celebrado pela burguesia reaccionária, e que também é indicado como responsável pelo massacre de Wiriyamu, em Dezembro de 1972, na Província de Tete, Moçambique. De todo o modo, a verdade já não mora aqui ao lado. Mas o que é verdade, é que a burguesia, filha e neta do fascismo, aproveitou o golpe e voltou aos comandos, até nos trazer até aqui. Wiriyamu foi massacre e extermínio, porque se mataram mais de 4 centenas de pessoas e se exterminou fisicamente uma pacífica povoação. Foi um dos mais cruéis episódios da guerra, aleivosado numa espécie de loucura e desespero, porque a Frelimo estava a colocar grupos muito moveis, ao longo da linha de Tete, que causavam muitas dificuldades à circulação de bens e pessoas e infligiam danos pesados ao exército colonial.

Jaime Neves fica ligado a estes dois momentos capitais, que lhe adornam o currículo. Seja como for, do ponto de vista semântico, a palavra extermínio significa chacina, destruição, aniquilamento e extinção. Uma ocorrência física, feroz e metódica, como relata a história do povoado de Wiriyamu, ou uma acção continuada de politicas económicas e sociais que destruturam pessoas e as encaminham para o suicídio ou empurram para o percalço de vir morar para a rua e passar a ser, do ponto de vista etimológico e antropológico, um sem abrigo.
Aliás, como reconhece o banqueiro Ulrich, que assinalou inequívoco, o que assinala, baixinho, a grande burguesia reaccionária. Que um povo que pare um banqueiro pesporrente e insolente e militares orgânicos, capazes de o desencravar, está sempre disponível para baixar a bitola da vida, até ser capaz de se confrontar com toda a naturalidade com a pobreza, e se colocar na condição de viver na rua, como calha aos cães. É sabido que o banco do banqueiro insolente, respaldado pela cáfila da elite do Partido Social Democrata mais a do Centro Democrático Social, ajudados pelo cai-não-cai do Partido Socialista, obteve no ano de 2012, lucros fabulosos. Desses lucros, 65% resultam de manobras, (especulação), sobre a divida portuguesa. Por isso, razão tem, quando reafirma que o povo no ajustamento à pobreza não tem limites. E tem ainda a certeza, de que enquanto o povo vive sem atinar com o melhor modo de afastar as moscas que zumbem nas orelhas, vem ai, desta vez, não um militar para desencravar o banqueiro, mas um tal senhor Costa, capaz de tornar mutantes as moscas orgânicas do enxame.
Pois é! Um banqueiro insolente raramente se engana, e não desperdiça o seu tempo com o inorgânico tempo. 

"Avante!" faz hoje 82 anos

O jornal que dá o nome à Festa faz hoje 82 anos. Salientamos algumas características que o definem, não sendo preciso entrar em pormenores. Foi o jornal, em todo o mundo, que mais tempo resistiu à clandestinidade, pois como se sabe foi publicado nessa situação desde a fundação até ao 25 de Abril. Como também não há jornal nenhum, pelo menos não conheço, que não tome partido, o jornal Avante! é o único que o assume.
Relembrando que é importante a sua leitura, quanto mais não seja para não nos deixarmos intoxicar e podermos alargar o horizonte das nossas opiniões, aqui ficam os parabéns à equipa que semanalmente o edita.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

E esta?


Acho que o PCP e o Bloco de Esquerda ficam um pouco mal na fotografia quando questionam a ida de Franquelim Alves para o governo.
O homem, segundo o matutino Correio da Manhã, afinal é um trabalhador incansável, do tipo de governantes que fazem falta no governo. Calculem que em poucos meses o cromo ganhou a módica quantia de 650 mil euros.
É obra, sim senhor.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Sumiram a gaveta


Augusto Alberto
     
O colonialismo não se engana. Em África, é prática, assim haja tempo, a substituição de um “preto”, logo que comece a não dar conta do recado, por outro “preto”. Ainda que no antanho tenham acontecido alguns contratempos, por falta de boa alternativa, como no caso da guerra do Biafra. A transnacional francesa Elf Aquitane viu-se na necessidade de vestir e calçar um “preto”, fazer dele general com pingali e mandá-lo à guerra, com o objectivo de obter a secessão da província do Biafra, para chegar ao controle completo do petróleo da província. Foi uma aposta desgraçada. Pela primeira vez chegaram imagens, através da televisão, de populações inteiras, um milhão, literalmente a morrer de fome pelas picadas.

Estes modos de substituição politica, estão, por hora, também em gestação na lusitana pátria. Com o receio que a grande burguesia financeira, que vive com os dentes agrafados na teta do estado, tem de um destrambelhado golpe de traição e por isso, antes que o poder caia com estrondo, começa a cuidar dos amanhãs que tilintam. Mas preparar uma alternativa ao governo de Passos, implica um arrojado duplo salto. É imperioso que se mude, primeiro, o actual secretário-geral do Partido Socialista, António José, tido por pixote e frouxo. E é aqui que entra o Costa. O de Lisboa. Mas antes, convêm adiantar, que a 14 de Dezembro de 1918, numa noite fria de sábado, já um Costa, José Júlio Costa, alentejano de Garvão, envolto num capote alentejano, atirou sobe o dândi, Sidónio Pais, convencido de que a Pátria ficaria melhor sem o Sidonismo. Mas o actual Costa de Lisboa, não quer, evidentemente, também atirar, com prejuízo físico, sobre o seu camarada, António José, ao contrário do … José Júlio Costa, só o quer politicamente arrumar, para empurrado, ainda que não seja bem isto que deseja, fazer a gestão das expectativas politicas do grande capital financeiro, que é quem ordena na lusitana pátria.

Entretanto, enquanto o pau vai e vem e até novo golpe de faca e alguidar, carregam os banqueiros nas costas do Costa e nas nossas, enquanto folgam as costas e as contas dos banqueiros insolentes.
Nota: Não há aqui nenhum labéu. Este texto está escrito sobre informações que correm na imprensa. Banqueiros têm uma visão. Apostam em Costa, o de Lisboa, para secretário-geral do P.S., confirmando, ad eternum, que o Partido Socialista meteu o socialismo na gaveta.
Contudo, as coisas agravaram-se. Sumiram a gaveta.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Os muros árabes


Augusto Alberto

O Presidente dos Estados Unidos gravou uma mensagem televisiva aos sírios (livres), com a respectiva legenda em árabe, para que percebam bem o que promete. Prometeu dinheiro para quase tudo, até para adquirirem frigoríficos, fogões e ferros de engomar, para aligeirar as dificuldades da guerra. Por uns momentos, lembrei-me da frase que diz, que é pela boca que morre o peixe e que serviu de mote ao Major Valentim Loureiro, quando em campanha eleitoral, tentou ganhar o voto dos eleitores de Gondomar, precisamente a troco de frigoríficos, fogões e ferros de engomar. Cinismo! Cinismo ao bom estilo ianque.
Porque Obama sabe, e bem, que muitas das dificuldades porque passam os sírios e porque passam outros povos das redondezas, passam-nas, porque os americanos, mais os amigos, não se sabem confinar às suas terras. E sendo um presidente regozijado com o prémio Nobel da paz, melhor será que gaste os estipêndios a favor dos americanos, tão carenciados e sedentos andam, de pão e cama. A alguns, faltará também o frigorificou ou o fogão, sendo certo, certíssimo, que milhares não têm casa para viver.
De todo o modo, a vida ensina-nos que as ditaduras podem ser boas ou más. Por más ditaduras, na concepção materialista americana e demais democracias ocidentais, são as que criam alguma dificuldade à prossecução dos interesses do império, ou que criam alguma tensão, ou redobrada atenção, ao esforçado e estático porta-aviões Israelita. E as boas ditaduras, são as que contribuem com o petróleo, gás natural, fosfatos ou ferro, para o engrandecimento do produto interno bruto dos países coloniais, que faz as delícias da celebrada classe média e alta de cá e aos reizinhos e emires de lá.
E é despiciendo saber se a possibilidade do voto, ou coisa tão simples, como a igualdade de género, se verifica ou não. E precisamente na boa ditadura do reino saudita, algumas mulheres, titubeando, já conseguem ter acesso a algum emprego. Contudo, em ocupando o mesmo espaço físico dos homens, ficam obrigadas as instituições ou outros empregadores, a erguer taludes, paredes ou muros, com altura, no mínimo de 1,60 metros, no sentido de separar das tentações do vicio e da carne, a homens e mulheres. Então, daqui se lança o natural desafio ao prémio Nobel da Paz e simultaneamente poderoso Presidente dos Estados Unidos, que tudo sabe e em tudo manda. Não quererá vossa excelência, mandar subir a democracia, mandando deitar abaixo o muro?

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

O senhor Ulrich


Augusto Alberto


Chegou ao fim o prazo dado ao Reino Unido para aplicar restrições à entrada a naturais da Bulgária e da Roménia. Receando um enorme fluxo emigratório, o Reino Unido prepara uma campanha visando impedir a entrada a cidadãos desses dois países, seguindo os exemplos da Holanda e da Finlândia, que, em 2011, vetaram a entrada da Roménia e Bulgária no espaço Schengen.
Viola-se assim o princípio, escrito, da livre circulação e nega-se, depois de desconstruído o socialismo, a possibilidade prometida de melhores vidas, com a adesão à União Europeia em 2007, e o acesso ao mercado de trabalho livre, a partir de Janeiro de 2014. 
Nesse sentido, propõe um ministro britânico a necessidade de contrariar a ideia, de que as “ruas aqui são ladrilhadas a ouro”. É preciso, pelo contrário, dizer que no Reino Unido, “chove quase todo o ano, “o lixo transborda dos contentores”, “as fábricas têm as portas fechadas”, “os jovens abusam do álcool”, (isto é certeiro), e “os empregos não são tão bem pagos”. E inclusive, o Guardian, jornal de “centro-esquerda”, superior cretinice, pediu aos leitores para enviarem sugestões de mensagens, que sirvam o objectivo do Governo. "Venham e limpem as sanitas”, a “Grã-Bretanha está cheia de maus empregos para os estrangeiros."É melhor onde estão", "Grã-Bretanha: não se incomodem, estamos fechados", foram algumas.
Alguns estudos afirmam que podem chegar a perto dos 500 mil os cidadãos desses dois países, a fixarem-se no Reino Unido. Enquanto a Migration Watch, entidade independente, especula que 30 milhões de pessoas desses dois países, estão em condições de ganhar o acesso livre aos países da Comunidade Europeia.
Sem querer especular sobre o putativo fluxo migratório e suas desvantagens, há pelo menos uma dúvida que não calo. Então foi para isto que na Bulgária se confiscaram e fecharam em cofres-fortes as obras teóricas de Dimitrov? E foi para isto, também, que na Roménia se enforcou o ditador Ceausescu? Afinal, depois de promessas de vidas diletantes, o que sobra? Ser pária na pátria que os pariu? Sê-lo também, na Comunidade que lhes fez promessas de leite e mel?
Assim se vai provando que o grande desígnio não foi trazer a esses povos mais e melhor sociedade, mas tão só, após a vitória de um modelo sobre o outro, a garantia de poder especular sobre os avanços sociais induzidos pelo socialismo, na sociedade capitalista. Para confirmar, aconselho a perguntar ao senhor Ulrich quantos de nós terão de baixar à condição de famintos ou sem abrigo, para fazer um banqueiro rico.

4 de Fevereiro

52º aniversário do início da luta armada em Angola. Recordo um dos seus mais destacados nacionalistas, o músico Liceu Vieira Dias, numa homenagem de Ruy Mingas.
"Tio Liceu" é considerado o pai da música popular angolana e foi fundador dos míticos "N'gola Ritmos". Foi também um dos fundadores do MPLA e esteve vários anos preso no Tarrafal.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Lenda e realidade


Augusto Alberto

Poderá uma lenda ser reescrita, de modo jocoso, à custa de uma embebedada súcia? Pode, sim senhor.
Por esta altura Portugal está materialmente e politicamente dependente de saqueadores, a que os colaboracionistas e capitulacionistas, chamam mercados. Puseram cerco nas sedes da República. São Bento, sede oficial do Primeiro-Ministro, atrás da casa da Democracia, onde se sentam, identificados, deputados vassalos, e no Ministério das Finanças, ao Terreiro do Paço, com vista para o Cais das Colunas e mar da Palha, onde, amiúde, entram jactantes e sorridentes, os algozes.

Mas é em Belém, num Palácio com varanda para o Tejo, a Trafaria e o farol do Bugio, por onde se sumiam os barcos que levaram a minha e as anteriores gerações para a guerra e chegavam as naus da Índia e do Brasil, com canela e pimenta, madeiras preciosas e ouro, que a tresloucada e incauta elite foi sistematicamente malbaratando, que mora uma espécie de rei inócuo, sem roque, espada e bastão. Colocada a vassalagem ao de Belém, o sem tem-tem, a Passos, Gaspar e restante matulagem, foi-lhes a 24 de Janeiro de 2013, renovada a condição da submissão. Deslocaram-se aos mercados, rezam as notícias, descalços e com um baraço ao pescoço, acompanhado de todos os filhos da nação, que somos nós, e colocaram-nos ao dispor da agiotagem financeira.
Diz-se que os mercados lambiscados com tamanha submissão, os mandaram em paz e de volta, mas que mantivessem o Povo de Portugal sereníssimo e sem algazarras, sob pena de ficar sujeito a mais sevícias. Pela recompensa da manutenção da boa ordem, que suporta o aprofundamento da infinita pobreza, serão recompensados, acabada a árdua obra demoníaca, com lugares fofos, onde lhes tirarão o baraço e o nó que lhes aperta não só pescoço, mas lhes dá ares de vendidos. Ao de detrás de S.Bento, ser-lhe-á dado o lugar consentâneo de amanuense. Ao da Praça do Comércio, será um lugar bem acima e em linha, diz-se, com a inteligência com que capitulou, na administração de um banco agiota. Não é coisa virgem, sabemo-lo. E ao de Belém, que é o mais baço dos três flibusteiros, como já entrou no plano inclinado da vida, talvez se entretenha na quinta, na lambuzadela dos carapauzinhos alimados.
Adivinhasse Egas Moniz o futuro longínquo da nação, estou em crer, recusaria, simultaneamente, ir a Leão, de corda ao pescoço, salvar o canastro ao primo, nosso primeiro rei, e ajudar a parir esta terra, quase sempre entregue a espertalhões e intrujões.